A sutil crítica de Pedro Almodóvar a Hollywood: “Meu efeito especial é ver duas mulheres conversando”
Em entrevista à CLAUDIA, o cineasta fala sobre o lançamento de "Natal Amargo" e revela como a arte se tornou seu maior refúgio contra dores e crises
O cineasta Pedro Almodóvar volta às telas nesta quinta-feira para lançar o drama Natal Amargo. O longa, aclamado no 79º Festival de Cannes, é uma espécie de sessão de terapia entre ele e o público – onde declara seu amor pela arte e revela uma crise criativa.
Desta vez falada em espanhol, a produção reflete sobre identidade, luto e o próprio cinema – temas recorrentes na filmografia do diretor. O cenário é composto por paisagens belíssimas de Madri e Lanzarote, na Espanha, além de uma paleta de cores vibrantes como verde, azul e vermelho que reafirma sua estética inconfundível.
Alter ego do criador
A trama alterna entre duas narrativas: Elsa é uma diretora de publicidade que evita encarar o luto pela morte da mãe e se refugia no trabalho até sofrer um ataque de pânico que a obriga a olhar para si.
Já Raúl é um roteirista que cansa de escrever sobre suas próprias experiências e cai num limbo criativo. Os dois mundos, ambientados entre 2004 e 2026, são apresentados em paralelo. Aqui, a metalinguagem é a palavra-chave para o espectador mergulhar na história: acontece que Elsa é uma personagem de Raúl e o que vemos é, na verdade, um filme dentro de um filme.
“O protagonista é meu alter ego, mas não passei pelas mesmas circunstâncias. Não atravessei uma crise criativa de cinco anos, por exemplo. Quando tenho dúvidas sobre um roteiro, dou mais tempo às histórias. Mas elas também são parte da aventura de criar. Apesar do resultado, o que importa é continuar escrevendo“, revela Almodóvar a CLAUDIA.
O dilema moral entra em foco quando Raúl acaba usando a vida de sua assistente, Mônica, como fonte de inspiração. “O processo criativo tem uma origem muito misteriosa, é impossível detectar o momento no qual ele vem. Eu sou muito fascinado com a relação entre a realidade, a vida e a criação”, diz.
“Quando me inspiro nas pessoas ao meu redor, cuido para que minha obra não machuque ninguém, mas reconheço que a natureza do criador é egoísta.”
O luto que nunca acaba
Ao perder alguém, é comum se ver rodeada de pessoas que, de tempos em tempos, checam seu bem-estar. Aos pouquinhos, porém, a frequência de telefonemas diminui e dá espaço a uma grande sensação de vazio no peito que demora a desaparecer. As mãos suam frio e o corpo inteiro sofre junto – dando sinais físicos a um problema emocional.
Isso é o que acontece com Elsa que, mesmo após um ano, não consegue superar a morte da amada mãe. Sua amiga, Natalia, também mal consegue se mover por causa da falta que faz seu filho. O ciclo se completa quando a outra amiga, Patricia, padece de outro tipo de perda: a do amor.
“Todas as personagens atravessam um tipo de dor. E dói mais quando o tempo passa porque a dor já não é mais compartilhada com o entorno”, comenta. “Vale lembrar que tudo isso é também uma reflexão do que o diretor também está vivendo. No caso, é a dor pela ausência de ideias.”
Mulheres invencíveis
Complexas, irreverentes e cheias de nuances. Ao contrário de grande parte da produção hollywoodiana, as mulheres de Almodóvar são retratadas como humanas – e não só como acompanhantes de alguém. Basta ver O Quarto ao Lado, que reuniu duas protagonistas com mais de 60 anos para discutir a eutanásia.
“Acho que seria impossível fazer um filme como esse em Hollywood. Na Europa, temos interesse em contar histórias de mulheres de todas as idades e lá eles se imitam”, declara.
“Ao contrário de super-heróis, temos mais interesse em ver o nível humano dos problemas. Neste sentido, homens e mulheres se tornam mais interessantes. Nosso cinema também é mais barato, não precisamos usar efeitos especiais. No meu caso, o efeito especial é assistir a duas mulheres conversando entre si e aprofundando a relação.”
Sem tempo a perder
Aos 76 anos, o diretor já enfrentou uma severa cirurgia na coluna, lidou com dores crônicas, enxaquecas e um zumbido constante no ouvido. Durante a pandemia, ele reconheceu sua própria fragilidade – o que instigou uma pressão para produzir cada vez mais.
“Minha vida envolve a escrita e a direção. São as atividades que mais gosto e que mais me preenchem na vida. O cinema me ajuda a esquecer qualquer tipo de dor física que eu possa sentir ou problemas que possa estar enfrentando. É a minha vocação desde pequeno”, finaliza.
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