O Diabo Veste Prada 2 mostra o lado mais cruel da indústria da moda hoje
Filme mergulha na crise da mídia impressa, apresenta uma Miranda Priestly com novos problemas e questiona quem realmente manda no setor
Vinte anos depois de O Diabo Veste Prada sacudir a indústria da moda, a sátira de empurrões, puxões de tapete e exploração profissional segue como um dos grandes ícones da cultura pop. O marco das duas décadas não apenas reavivou uma base gigantesca de fãs como também rendeu uma continuação.
O Diabo Veste Prada 2: a crise da moda e o colapso das revistas impressas
Enquanto o primeiro filme se propunha a expor os bastidores da moda, o segundo mergulha na batalha sufocante para manter relevante a revista fictícia Runway. O setor editorial atravessa uma crise prolongada, pressionado pela internet, pelo colapso do mercado publicitário e pela dificuldade de reinventar modelos após décadas de bonança.
O longa mostra como, diante da escassez de recursos, as revistas se tornam cada vez mais submissas ao mercado. No novo filme, a personagem de Emily Blunt abandona a redação para trabalhar em uma marca de luxo.
Como ela faz questão de lembrar, o que sustenta o sistema são as grandes marcas, e é a elas que o jornalismo passa a se curvar, ainda que isso implique conflitos de interesse.
Entre o luxo e a dependência: como a publicidade redefine a revista “Runway”
Sem publicidade, não há operação; com publicidade, não há mais autonomia. A necessidade de fechar as contas corrói a revista por dentro, porque a faz tomar decisões, inclusive criativas, orientadas pelo interesse do mercado. No fim, o diabo não veste Prada, é a Prada que veste o diabo.
“O mundo da mídia é assustador hoje em dia”, diz David Frankel, diretor do longa, em entrevista ao The Guardian. “O mesmo vale para Hollywood. Há uma contração terrível – todos nós vemos o tsunami da IA chegando e estamos fazendo de tudo para sobreviver.”
“O primeiro era uma história de amadurecimento, este é sobre valores e moral. Vejo Miranda como uma heroína. Ela está conduzindo um navio em águas turbulentas, determinada a encontrar terra firme”, diz ele.
Não se trata apenas de egos inflados e pouco afeitos ao bem-estar alheio, que continuam existindo, mas de profissionais apaixonados que tentam manter viva uma publicação. A figura imponente e temida de Miranda dá lugar à de uma mulher que luta para preservar a revista à qual dedicou a vida. Se sua vida é o trabalho, aliás, é também isso que explica sua entrega absoluta.
Miranda Priestly mudou? Poder, moral e sobrevivência na nova era da mídia
O filme recorre à nostalgia, com cenas que referenciam o original. Há trocas rápidas de figurino, a ajuda de Nigel para vestir Andy e até um puxão de orelha do funcionário mais leal da Runway. Esses elementos trazem leveza e humor a uma narrativa que, ainda assim, não abre mão da emoção e ajudam a explicar por que, apesar das dificuldades, tantos insistem em permanecer nesse mercado.
É nesse percurso que surge a pergunta: quem é, afinal, o vilão? Uma mulher que faz de tudo para se manter no comando e garantir a sobrevivência de uma revista em que acredita ou aqueles a quem ela precisa servir para que isso seja possível? Em um cenário de demissões, escassez de recursos e perda de autonomia, a resposta não é simples.
O filme também brinca com mudanças quase obrigatórias. Após duas décadas jogando casacos sobre assistentes e disparando insultos com uma voz serena, Miranda precisa se adaptar a um mercado que não tolera esse comportamento. Ou, pelo menos, não no nível de antes.
O Diabo Veste Prada 2 expõe as mudanças em todo o mercado
A narrativa equilibra leveza e questões espinhosas. O dilema de uma pessoa difícil merecer ou não uma segunda chance, a proximidade universal do erro e a dependência mútua que define as relações humanas são aspectos abordados.
Também chama atenção o fato de que um dos momentos mais glamourosos recentes da moda, o lançamento do filme, seja protagonizado por mulheres que já não são jovens. Meryl Streep, aos mais de 70 anos, imprime uma força que seria impensável décadas atrás, quando atrizes dessa idade raramente ocupavam o centro de produções de grande apelo.
As mudanças no comportamento dos parceiros de Miranda e Andy também aparecem, mas os romances ficam em segundo plano. O foco recai sobre as relações femininas, seja na amizade de Andy, seja na dinâmica entre Emily e Miranda.
O longa é repleto de reflexões sobre o erro. Como todos erram, como o arrependimento pode transformar, como lutar pelo que se acredita, ainda que pareça ingenuidade, e reconhecer o outro podem alterar trajetórias.
O filme prova o poder de Anna Wintour
Há ainda uma mudança significativa na própria indústria. O livro mordaz que inspirou o primeiro filme, escrito por uma ex-assistente de Anna Wintour, foi visto como traição em 2003, e marcas relutaram em ceder roupas ao filme, temendo represálias de uma das figuras mais importantes da moda.
Duas décadas depois, o cenário se inverteu. Estilistas participam com entusiasmo, e o universo retratado passou a incorporar a franquia como parte de sua própria mitologia. É como se um relato que expunha abusos contribuísse para consolidar a imagem mítica de sua inspiração, Wintour.
Não é um filme perfeito, e o começo parece um pouco deslocado, numa tentativa de fazer todos os personagens se encontrarem 20 anos depois. Dificilmente alcançaria o que o original conseguiu, mas o longa toca em uma ferida da indústria.
A beleza, o trabalho minucioso, a apuração e o refinamento sobreviverão à inteligência artificial, aos algoritmos, à pressa e à escassez? Ao longo das diversas mudanças da história, sobreviveram. Talvez sobrevivam mais uma vez.
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