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Ana Claudia Paixão

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A jornalista Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood

Crítica de “Michael”: o filme que não tem coragem de ir até o fim

Entre filme, acusações e legado, o que permanece não é uma resposta, mas a impossibilidade de fechar sua história

Por Ana Claudia Paixão 24 abr 2026, 14h39 | Atualizado em 24 abr 2026, 14h41
Cena do filme “Michael” mostra o cantor acenando para multidão durante apresentação, destacando sua relação intensa com os fãs
Filme “Michael” aposta na recriação do ídolo e no impacto do espetáculo (Sony Pictures/Divulgação)
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Existia uma promessa silenciosa em torno de Michael. Não apenas a de reconstituir uma trajetória conhecida, mas a de finalmente organizar uma narrativa que, há décadas, escapa a qualquer forma de conclusão. Como se o cinema ainda pudesse oferecer aquilo que nem a Justiça, nem os documentários, nem a própria obra conseguiram: uma versão definitiva.

Sempre fui cética em relação ao que o diretor Antoine Fuqua prometia. E, infelizmente, estava certa.

O espetáculo que funciona até certo ponto

O filme parte dessa ambição, e isso se reflete no valor de produção, no rigor da recriação e no esforço quase obsessivo de devolver ao público o Michael performer — aquele cuja presença parecia incontornável demais para ser atravessada por qualquer ruído externo.

Nesse aspecto, funciona. Há momentos em que a reconstrução não apenas convence, mas reativa uma memória coletiva que nunca deixou de operar.

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Michael Jackson se apresenta durante a turnê 'Bad' no Madison Square Garden, em Nova York.
Michael Jackson se apresenta durante a turnê ‘Bad’ no Madison Square Garden, em Nova York (Getty/Getty Images)

Eu, que vi Michael Jackson ao vivo quando veio ao Brasil, em 1993, posso afirmar que nenhuma película será capaz de reproduzir a histeria coletiva que ele despertava em seus fãs. Nunca testemunhei nada parecido até hoje.

É justamente aí que o filme estabelece seu limite.

Quando o conflito vira contenção

Ao escolher permanecer nesse território — o da recriação como espetáculo — Michael evita aquilo que tornaria sua proposta realmente arriscada: confrontar a impossibilidade de organizar, em uma mesma narrativa, as diferentes versões que disputam a memória de Michael Jackson.

O que poderia ser tensão se transforma em contenção. O que poderia ser conflito é cuidadosamente contornado.

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Uma trajetória acelerada e simplificada

Acompanhamos a ascensão de Michael e de seus irmãos desde os anos de pobreza em Gary, Indiana, quando Joseph Jackson decide transformá-los em estrelas. O rigor desse projeto paterno molda a trajetória dos Jacksons, em especial a do jovem Michael.

Ainda assim, tudo passa rápido demais. A narrativa recorre ao formato de clipe para dar conta do tempo, o que exige do espectador um conhecimento prévio. Quem conhece bem a biografia acompanha. Quem não conhece, perde nuances importantes.

Há simplificações evidentes e omissões de pessoas, episódios e contextos decisivos.

Uma escolha que revela mais do que esconde

Trata-se de uma escolha de linguagem. O filme não ignora completamente o que está em jogo, mas também não permite que isso desestabilize a estrutura que constrói. Há um controle constante, como se qualquer fissura mais profunda colocasse em risco não apenas a narrativa, mas a própria imagem que sustenta o projeto.

É nesse ponto que Michael se aproxima menos de uma investigação e mais de uma operação de preservação.

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O que fica fora de cena

O que permanece fora de quadro não é um detalhe. É precisamente o que, há anos, impede que a história de Michael Jackson seja encerrada.

O conflito central apresentado é a opressão exercida pelo pai e a tentativa de emancipação do artista. Todo o restante é silenciado.

Há uma solução narrativa clara para evitar o que seria incontornável: o filme termina antes.

As acusações de abuso sexual e pedofilia não são abordadas, sob a justificativa de acordos jurídicos que envolvem tanto o pagamento de indenização quanto a absolvição no processo de 2005.

Um legado que não se resolve

Mas o percurso jurídico nunca foi suficiente para encerrar a questão. As acusações permanecem. Os relatos públicos se organizam em direções irreconciliáveis. E a obra continua sendo consumida em escala global, enquanto o público se divide entre defesa e condenação.

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O filme, sob influência direta do legado familiar, insiste na narrativa que Michael sustentou até sua morte, em 2009. Talvez seja justamente por isso que funcione para parte do público, que encontra ali uma experiência baseada no reconhecimento, não no confronto.

A música, o corpo e a performance permanecem disponíveis para consumo, especialmente em uma lógica contemporânea de circulação — como se vê nas redes sociais, onde seus passos seguem sendo reproduzidos sem que seja necessário lidar com o que permanece em aberto.

O conforto como escolha

Essa decisão tem um efeito inevitável. Ao evitar o conflito, Michael abdica da possibilidade de produzir uma leitura que dialogue com o presente.

Em um momento em que a relação entre obra e artista se tornou um dos principais campos de debate cultural, optar pelo conforto não é um gesto neutro.

Nada do que está fora da tela deixa de existir.

O espectador sai com as mesmas perguntas, as mesmas contradições, a mesma sensação de que nenhuma versão é suficiente.

Um sintoma maior

Não se trata apenas de uma falha do filme. É um sintoma maior. No fim, Michael movimenta as redes com novos virais e reativa o fascínio pelo artista, mas também expõe — ainda que indiretamente — o desconforto de não conseguir chegar perto de decifrar Michael Jackson.

Um enigma que não se resolve e que, talvez, seja parte indissociável do seu próprio legado.

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