“Você vai ser muito mais eficiente se der atenção a outras áreas da vida”

Experimente deixar de tratar o fato de estar superocupada como sinal de status e criar pausas para si. É o que sugere Brigid Schulte, americana autora de livro sobre gestão do tempo.

Olhe para a sua agenda dos próximos dias. Cheia, não?! Pode ser difícil acreditar, mas, mesmo com tantas tarefas, é possível arrumar tempo para tudo: a família, a carreira, os amigos, seu hobby… Ao menos é o que diz a americana Brigid Schulte. E ela tem bons motivos para convencer você. A jornalista mergulhou no tema para escrever Overwhelmed: Work, Love, and Play When No One Has the Time (em tradução livre, “Sobrecarregada: trabalhe, ame e se divirta quando ninguém tem tempo para isso”), livro ainda não publicado no Brasil. Para completar, Brigid é casada, tem dois filhos e se divide entre os compromissos como escritora e a carreira no jornal The Washington Post. “Faço questão de deixar claro que não sou guru de nada. Na verdade, brigo com o relógio até hoje. Já melhorei, embora ainda tropece. Mas tento de novo”, diz. Com exclusividade para CLAUDIA, ela conta o que aprendeu e tem tentado praticar sempre.

Como conseguir tempo para todas as áreas da vida?

O primeiro passo é determinar o que é importante e qual sua definição de sucesso. Se para você o trabalho bem-feito é aquele que demanda 100% de dedicação, dificilmente se esforçará para diminuir o tempo gasto com ele. Se acha que lazer é bobagem, não abrirá espaço para isso na agenda. Agora, se valoriza também a conexão com a família, os amigos e a comunidade, ou seja, reconhece o quanto é importante parar e se divertir para renovar sua alma, então é possível arranjar tempo. Não vai ser perfeito nem estará sempre equilibrado, mas basta continuar tentando.

Como começar?

Reconheça que hoje você vai conseguir cumprir apenas uma ou duas das suas 75 tarefas. Mas as cumprirá bem. E falo isso enquanto uma lista imensa me aguarda. Experimente colocar o que gosta no meio ou até no topo dessa lista. Não adianta esperar se aposentar para começar. Nem deixar para amanhã. Porque sempre haverá tarefas importantes. Então, comece já.

Para que montar listas, se não conseguimos ticá-las?

Nossa memória só processa sete blocos de informação ao mesmo tempo. Então, se você anota, libera espaço para pensar em outras questões mais importantes. Use a lista como lixeira. Uma vez no papel, me dou permissão até para não cumprir nada daquilo. Posso, porém, pensar no que é, de fato, importante para já e focar. É comum a gente executar um monte de obrigações e ficar com a sensação de que não fez o que devia. Portanto, tento organizar o dia logo de manhã. E encaixo no planejamento tempo para a família, para mim, para me divertir… Não todos os dias, mas faz parte da minha lista também.

Quer dizer, a chave é mesmo priorizar?

O tempo voa quando corremos. Então, precisamos avaliar o que importa verdadeiramente. Uma das revelações que tive nesse processo foi em relação à culpa por ser uma mãe que trabalha. Cheguei a assar bolo de madrugada para meus filhos levarem à escola, porque era o horário que sobrava. No dia seguinte, exausta, cochilava na frente deles ou ficava sem paciência. Acreditava mesmo que estava preparando o bolo por amor. Só quando escrevi o livro notei que fazia para me sentir e parecer uma boa mãe. O que os outros vão pensar não importa. O único juiz deviam ser meus filhos. E, se a mamãe sai gritando pela casa, ela não está sendo tão boa, não é? Hoje, me pergunto constantemente se estou fazendo algo porque quero ou por achar que é um dever.

Afinal, a tecnologia ajuda ou atrapalha na nossa gestão do tempo?

Ela tem grande potencial de ajudar. No entanto, temos que desvendar como usá-la a nosso favor e não sermos usadas por ela. Eu mesma tenho que me forçar a desligar o telefone e me convencer de que não preciso checar o e-mail o tempo todo. A tecnologia age no nosso cérebro como o vício – no sentido de que ela é tão sedutora quanto. Quando você recebe um e-mail ou ganha um curtir no Facebook, uma carga de dopamina é liberada no sangue e provoca uma sensação de prazer. Mas, com a frequência, isso deixa de ser tão bom e passamos a querer mais e mais. Estudos testaram a sensação de felicidade em pessoas que checavam o e-mail só de três a quatro vezes por dia. O resultado é que, comparadas a quem checa o tempo todo, elas não são menos felizes. Use como lição e estabeleça seus limites. Crie espaços para ver e-mails e navegar nas redes sociais. Podem ser 15, 30 minutos de dedicação exclusiva. Ao acabar, desligue tudo. De outro modo, não se concentrará no que importa. E falo por experiência própria.

Uma pesquisa de CLAUDIA mostrou que muitas mulheres querem tempo para se exercitar e cuidar do corpo. Mas, se perguntadas sobre o que fariam com mais horas, a resposta principal é dormir. Estamos assim tão cansadas ou a agenda virou desculpa para não nos cuidar?

Em geral, não importa de onde sejam, as mulheres simplesmente não se sentem merecedoras de tempo para si. Consideram que o que sobra deve ser usado para cuidar dos outros, especialmente dos filhos. Como se só tivessem direito a desfrutar se fizerem por merecer – o que significa cumprir todas as tarefas da lista. Só que isso é impossível! Nessa toada, elas ficam mesmo exaustas, porque a pausa é essencial para qualquer um. É nesse período que temos ideias criativas e flashes de inspiração. É quando nossa bateria recarrega e a alma se renova. Estar sobrecarregada nos deixa mal-humoradas. Muitas mulheres lamentam que ninguém ajuda na casa, mas vão lá e fazem.

De fato, na mesma pesquisa elas reclamam de acumular muitas tarefas domésticas. Qual é a solução?

Baixar as expectativas. Dividir as funções de verdade com seu parceiro. Se ele não alcançar seu patamar de exigência, finja que não viu. Na minha casa, se meu marido não dava conta do combinado ou se não fazia como eu esperava, ia lá e assumia, porque achava que fazia melhor. Na segunda-feira, ele ia trabalhar descansado e eu saía quebrada e irritada. Por que tudo tem que ser no nosso padrão de perfeição? Isso rouba um tempo precioso da vida. Daqui a uns anos, ninguém lembrará que ficou uma semana sem lavar a roupa, mas guardará na memória um momento gostoso.

Para que queremos mais tempo, de verdade?

Muitas pessoas nem sabem, o que facilita que continuem mais e mais ocupadas. É preciso parar e descobrir já. Encontre essa resposta e se esforce para alcançar sua meta.