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“Respiro coronavírus 24h por dia”, diz enfermeira de Pelotas

Junto com profissionais da saúde do mundo todo, Amanda Ramalho foi capa do The New York Times na última segunda (11)

Por Colaborou: Maria Clara Serpa - Atualizado em 15 Maio 2020, 16h31 - Publicado em 15 Maio 2020, 16h24

A vida da enfermeira gaúcha Amanda Ramalho, de 33 anos, mudou bruscamente no dia 12 de março. Foi nesse dia que ela testou o primeiro paciente com suspeita de Covid-19 na Unidade de Pronto Atendimento onde trabalha, na cidade de Pelotas. Desde então, Amanda vive isolada e não pôde mais ver a família e amigos pelo risco de contágio.

Em seu Instagram, a enfermeira compartilha imagens de seu dia a dia corrido entre dois empregos e o alcance das publicações foi tanto que chegou até ao jornal norte-americano The New York Times. Sua foto mostrando as marcas da máscara e do cansaço foi capa da publicação na última segunda-feira (11), ao lado de outros profissionais da saúde de todo o mundo. Ela também participou de uma campanha global da Dove que homenageia os profissionais de saúde e oferece doações aos hospitais. A UPA Areal, onde Amanda trabalha, receberá 10 mil euros, aproximadamente 63 mil reais.

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O Rio Grande do Sul possui 3 mil casos de Covid-19 e 126 mortes registradas. Em Pelotas, a cidade onde Amanda vive, eram 45 casos casos confirmados até quinta-feira (14) e nenhuma morte registrada – um homem morreu na UPA onde Amanda trabalha, mas, como morava em Pernambuco, não teve a morte registrada na cidade.

Em entrevista à CLAUDIA, Amanda compartilha a rotina intensa de quem está diretamente no combate ao novo coronavírus e as angústias ao perceber que a população, em geral, não está levando a situação tão a sério como deveria.

“Minha história com a enfermagem começou quando eu tinha mais ou menos uns 14 anos. Estava no segundo grau quando assisti a um filme de guerra bem antigo, não me lembro o nome. No final do filme, em que os soldados já estavam todos machucados das batalhas, eles iam pra uma tenda em que havia uma enfermeira, daquelas bem de filme mesmo, que andava de vestido e chapeuzinho. Ela fazia toda a coordenação dos cuidados de quem estava ali. Ela sabia quem tinha mais chances de sobreviver, quem estava pior e precisava de cuidados mais imediatos. Aquelas cenas, todo o conhecimento dela e os cuidados me impressionaram muito. Nesse dia, decidi que queria ser enfermeira.

No último ano da escola, eu me inscrevi no vestibular para enfermagem sem ninguém da minha família saber. Foi tudo escondido, porque eles queriam que eu prestasse para odontologia, então acabei nem contando da mudança de planos. Eles só foram descobrir que era enfermagem quando eu passei na faculdade, em 2005.

O ano em que me formei, 2009, foi o mesmo ano da pandemia de H1N1. Eu ainda estava estudando, prestes a terminar a faculdade, quando a doença chegou com força no Brasil. Aquilo já foi uma loucura, já comecei a carreira tendo que lidar com muitas mortes e muitos doentes que precisavam de cuidados especiais. Ninguém sabia muito bem o que era aquilo e nem como lidar. Eu achei que aquela situação seria a mais difícil na minha carreira, nunca pensei que passaria por algo próximo novamente.

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Help US! Stay at home! #FIQUEEMCASA . . . #coronavirusitalianews #coronavirus #covid #covidー19 #coronaviruspandemic

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Só que, com pouco mais de dez anos de formada, estou passando por algo ainda pior. Meu primeiro contato com o novo coronavírus foi na UPA onde trabalho, no dia 12 de março. Era um paciente que estava fazendo uma viagem pela Europa e quando voltou pra casa, em Pelotas, já estava com sintomas de Covid-19. Foi a primeira pessoa que eu atendi e fiz a primeira coleta para o exame. Inclusive, o primeiro resultado foi negativo. Desde esse dia fiquei isolada. Eu moro sozinha, não fui mais visitar minha família nem amigos. Parei tudo no dia 12 março, até cursos que eu estava fazendo. Até fui vê-los uma vez de carro, de longe, mas não pude mais abraçar e nem chegar perto de ninguém.

Há mais ou menos uma semana comecei a trabalhar também em outro hospital, o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), administrado pela rede Ebserh. Foram criadas novas enfermarias e UTIs só para casos de Covid-19, então lá eu também cuido dos pacientes com a doença. Minha rotina, que já era bem corrida como a da maioria dos profissionais de saúde, ficou ainda mais louca agora.

Entro na UPA, na emergência, às 7h, onde fico até 19h. Então, saio correndo para entrar no plantão do Hospital Escola também as 19h, onde fico até às 7h do outro dia. Respiro coronavírus 24 horas por dia. Tenho pouco tempo livre, mas quando eu faço esses plantões de 24h eu fico 48h em casa, é minha folga. Nesse tempo, depois de dormir, claro, eu tento sentar e escrever minha tese de doutorado. Todo tempo que eu tenho eu tento avançar um pouco no texto.

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Fica em casa! Não tem leito hospitalar para todos no Brasil! #ficaemcasa #stayhome . . . . . . . . #coronavirusitaly #Covid #covidー19 #covid_19 #coronavirus #coronavirustesting #coronaviruspandemic #coronavirüsü #coronavirusbrazil #coronavírus #courageisbeautiful #acoragemélinda

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Nós temos dois caminhos para o paciente aqui na UPA. Eles chegam por meios próprios, ou seja, de carro, ou então o SAMU traz quando a situação já é mais grave. A gente examina e caso fique estável a pessoa vai para casa. Se o paciente não atingir os parâmetros ideais para ser liberado ele é encaminhado para o Hospital Escola. Então, alguns dos pacientes que eu atendo na UPA eu encontro de novo mais tarde no hospital, na segunda parte do meu dia.

Em março, eu comecei a postar no meu Instagram várias mensagens de conscientização pedindo pra pessoas ficarem em casa, mas percebi que aquilo não surtia muito efeito, na verdade quase nenhum. Foi assim que resolvi começar a tirar fotos minhas durante e após o plantão e publicá-las nos stories e no feed. Foram essas imagens que conseguiram bastante alcance e foi assim que o The New York Times me achou. Eles me mandaram mensagem e depois continuamos a nos corresponder por e-mail para que eu desse meu depoimento. O contato para a propaganda da Dove, que está circulando no mundo inteiro, também foi assim.

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Aqui em Pelotas, como em grande parte do país, as pessoas não estão respeitando as medidas de isolamento como deveriam. Isso me deixa muito preocupada. De nada adianta a gente vir pro hospital, se paramentar, trabalhar muito, se nas ruas tudo continua normal. São as pessoas que vão combater o vírus e não a gente dentro do hospital. O que podemos fazer é tentar ajudar quem já está contaminado, mas se as pessoas colaborassem todo esse caos poderia ser evitado.

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Fique em casa! UPA Pelotas #UPA #upa24horas #coronavirus #coronavirusbrazil

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Ontem fui obrigada a ir ao supermercado porque não tinha quase mais nada em casa, nem detergente. Estava lotado, fiquei chocada. Tive que ficar na fila pra entrar, em outra fila lá dentro. As pessoas acham que usando uma máscara – sendo que a maioria usa a máscara errado – nada vai acontecer. Fico muito preocupada com as pessoas, não é nem comigo.

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Voltando pra casa do hospital essa semana eu vi um grupo de corrida na rua, cheio de gente junta. Minha vontade era de parar o carro e intervir. Não tem fundamento o que está acontecendo, parece que nós, profissionais de saúde, estamos sozinhos nessa batalha”.

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