Que valores você ensinou a seu bebê hoje?

Nos cuidados cotidianos com o bebê, você transmite lições que formam uma sólida base para toda a vida. Veja quanta coisa seu filho aprende apenas pela sensibilidade e amor da mãe

É na convivência inicial com a mãe que o bebê forma a base afetiva para o seu desenvolvimento
Foto: Getty Images

Que tal uma experiência? Feche os olhos e pense nos momentos que vivenciou com seu bebê hoje. Relembre as atitudes que teve diante das reações dele e tente detectar as mensagens contidas em cada procedimento. É provável que você se espante com a quantidade de lições que transmitiu ao seu filho.

Um dos principais teóricos da importância da mãe e do ambiente familiar nesses ensinamentos foi o pediatra, pensador e analista Donald Woods Winnicott, que viveu entre 1896 e 1971, na Inglaterra. Segundo Winnicott, a educação emocional dos primeiros meses é decisiva para que o bebê consiga transformar suas potencialidades em capacidades.

É na convivência inicial com a mãe que o bebê forma a base afetiva para o seu desenvolvimento. É desse relacionamento que ele extrai a percepção do lugar que ocupa no mundo, de sua importância e de como interagir com as pessoas ao redor. Trata-se de um aprendizado puramente sensorial. Não depende de aulas nem de estímulos especiais. Selecionamos as situações mais frequentes e significativas para ajudar você a perceber a riqueza dessas simples lições de amor que enriquecem a relação e criam a base emocional e moral para o desenvolvimento futuro da inteligência e da sociabilidade.

Diálogo é troca

Muito antes de balbuciar as primeiras palavras, seu filho já pode ser iniciado na arte da comunicação. É assim que ele descobre que diálogo é troca. Trata-se de uma lição que você transmite, sem saber, de várias maneiras. Seja numa “conversa” com o bebê, fazendo pausas para que ele responda com um arrulho ou um agitar de braços, seja numa brincadeira do tipo “cuca, achou”, em que cobrir e descobrir o rostinho da criança reforça uma importante noção de alternância. Aliás, nesse jogo, vale de tudo: contar histórias, comentar a respeito de como foi seu dia ou, simplesmente, nomear objetos e partes do corpo. É bem verdade que, agora, o pequeno não entende nada do que você está dizendo. Nos primeiros meses, as palavras chegam ao seu filho como uma espécie de doce cantilena – ele percebe mais o tom com que as coisas são ditas do que cada som individualmente. Aos poucos, porém, o bebê começa a discernir os sons e, mesmo antes de falar, já intui que as palavras têm um sentido e não podem ser usadas de forma aleatória. Esse domínio e essa compreensão da língua é que vão lhe garantir no futuro a capacidade de se comunicar por intermédio de discursos bem estruturados e coerentes.

Um dia depois do outro

Para um adulto, parece óbvio que, em circunstâncias normais, acordar pela manhã traz a possibilidade de reencontrar pela frente situações, lugares e pessoas que já faziam parte de sua vida na véspera. O bebê, porém, não sabe que a realidade tem aspectos permanentes. Quem ensina isso é a mãe, à medida que estabelece uma rotina estável para ele. Ao repetir os mesmos rituais – mamada, banho, passeio etc. – em horários semelhantes, você estabelece um esquema que se fixa na mente da criança e com o qual ela aprende a contar antes mesmo de compreender como tais fatos combinam entre si. É um processo que ajuda a sedimentar a idéia de que o mundo se comporta de maneira previsível – o que é extremamente reconfortante e indispensável para a estabilidade emocional de um ser humano em construção. Outra noção trazida pelo respeito à rotina é a de tempo. À medida que os acontecimentos se repetem numa seqüência, o bebê internaliza essas experiências como marcadores cronológicos. Logo vai distinguir o dia da noite, a hora de dormir da hora de acordar.

Vá em frente, você consegue

A cena é conhecida. Agora que o baixinho já senta, você o põe sobre um tapete ou no cercadinho, com vários brinquedos em volta. Na ânsia de mexer com “tudo-ao-mesmo-tempo-agora”, ele logo espalha várias coisas para longe de si e, depois, tenta alcançá-las. A menos que algo tenha caído numa posição realmente fora de alcance, você resiste à tentação de devolver o brinquedo e incentiva o bebê a ir buscá-lo. Ao fazer isso, está mostrando a seu filho que ele tem habilidades inesperadas e consegue se virar sozinho. Vale até trapacear um pouco, aproximando o desejado brinquedinho, mas deixe-o cumprir sua parte e comemore a vitória, principalmente se o pequeno acaba de bater o próprio recorde de roladas. É assim que a criança aprende que pode superar seus limites e que vencer desafios traz resultados bem gratificantes.

Começo, meio e fim…

Enquanto os adultos partem de uma tarefa para outra quase mecanicamente e com extrema rapidez, crianças pequenas precisam de tempo e de uma etapa de transição entre os vários acontecimentos. Elas vivem no que os especialistas chamam de “estado de continuidade” e se sentem aflitas diante de interrupções bruscas, ruídos inesperados e mudanças frenéticas de atividade. O resultado pode ser um estado de stress permanente, muito prejudicial ao desenvolvimento psíquico. Por isso, você acerta ao ter calma e paciência para ensinar ao bebê que tudo tem começo, meio e fim, e que cada coisa tem um ritmo próprio. As mamães fazem isso intuitivamente quando lidam com a criança adotando gestos suaves, falam devagar com ela ao mudá-la de uma atividade para outra e quando, na hora da mamada, colocam o bebê próximo do seio e o deixam se satisfazer de forma natural.

Sentimentos merecem respeito

Mãe que é mãe percebe e interpreta corretamente os sinais que o bebê envia por meio de caretas, choros, resmungos ou, ao contrário, mantendo-se sereno ou caindo numa alegre gargalhada. Algumas demonstrações típicas de que você entende e respeita os sentimentos do seu filho acontecem quando não insiste em empurrar mais uma colher de papinha depois que o pequeno se deu por satisfeito ou quando ele dá um choramingo na hora da soneca e você o instala confortavelmente num lugar silencioso, onde possa dormir com tranquilidade. Essa série de atitudes mostra ao pequeno que vale a pena expressar o que sente e que sua opinião não tem o valor de um zero à esquerda.

O esforço compensa

Todo bebê que começa a engatinhar é um desbravador nato. Ele precisa de espaço, de uma área segura, livre de móveis e bibelôs delicados, mas que também ofereça desafios e possibilidades de conquista. Por isso, quando você cria um ambiente no qual a criança possa se locomover sem riscos, mas deixa pequenas iscas (objetos coloridos, de diferentes formas e tamanhos) que ela gosta de descobrir e dominar, está lhe dando a chance de interiorizar a noção de que sempre existe uma novidade a ser explorada e de que, com um pouco de esforço, muitas recompensas podem ser obtidas.

Emoção é tudo

O contato olho no olho, as cantigas e as gracinhas reafirmam para seu filho sua importância e valor. A convicção de ter um lugar no mundo se instala logo nos primeiros meses e tem como origem a percepção, por parte do bebê, de ser alguém desejado pela mãe. Com seu radarzinho supersensível, mesmo crianças muito pequenas captam sinais de rejeição e se ressentem quando a mãe assume uma postura “técnica” ao atendê-las, sem se envolver emocionalmente. Não vale, por exemplo, segurar o bebê com impaciência ou como se ele fosse um bibelô. Ele precisa sentir que, ao segurá-lo no colo, a mãe o envolve de modo protetor, completo e amoroso.