Quando os valentes choram

"Meus caros homens: na mão de quem está o poder, se também não está nas nossas?"

Para entender os homens, me misturei a eles. Gosto da companhia masculina. Quando viajo com fotógrafos, aproveito a simbiose que estabelecemos no trabalho para ver como eles pensam. Como agem ou lidam com suas mulheres que vão ligando e mandando WhatsApps ao longo dos dias. Entro tranquilamente no assunto de amigos, num bar, porque tenho opiniões coincidentes ou só para provocar a reação deles. Algumas vezes apenas me embalei no ritmo para observar e, depois, escrever sobre o comportamento masculino. Como aconteceu no fim de uma partida de futebol, naquele momento em que, suados, se entregam à cerveja gelada, ao churrasco e o mundo pode desabar. E desaba mesmo; o time nem nota. Tive dois maridos, um filho, namorados. E parceirões em paixões sem lastro convencional, afinal já empenhei inúmeras sessões de terapia em busca das relações fluidas, como as que eles preferem manter.

Sou uma aprendiz do mundo masculino desde a percepção, aos 7 anos, de que a vida ali é bem divertida. Eu não brincava de bonecas, preferia estar com os garotos na rua e até em brigas de turma me meti. Liderei no movimento estudantil e cravei uma passagem por uma Câmara Municipal – como vereadora, acreditem! –, um celeiro de políticos dominadores e atrasados; coronelato no qual raríssimos se salvaram. Posso dizer que nunca fui vista como frágil. Nenhum dos homens me poupou de coisa alguma. Ao contrário. Gostam de entregar o peso para a mulher que toma a dianteira, não teme, avança. Costumam concordar com nossas iniciativas… desde que as suas regalias permaneçam intocadas. Nesse momento, tem-se que tomar um cuidado danado para que não virem filhos. Eles tendem a se folgar, completamente, sobre os ombros da parceira ou abrem um berreiro, porque estão machucados diante do poder perdido após a revolução das mulheres. Meus caros: na mão de quem está o poder, se ele também não está nas nossas?

Tenho visto muitos inquietos e em desconforto com a angústia: saindo da churrascada com cerveja, voltam ao ponto onde nem tudo está dominado. As crianças esperam para tomar banho, comer, fazer lição e a mulher vai chegar da rua doida para transar (e continuar fazendo todas aquelas outras coisas na casa). Eles estão com medo, sim, de que elas marquem um rápido encontro amoroso com outro e também têm pânico de fracassar como pai. O homem ficou maravilhado com a maternagem que pousou no seu colo recentemente. É lindo vê-lo dando suco para os pequenos na pracinha, vestindo as meninas com certo desajeito, mas com amor.

Há muitas coisas novas na seara dos machos, como a descoberta de que precisam – e podem – confessar seus problemas, medos e fragilidades. Mesmo assim, ainda fervilham, inseguros. Não sabem se escondem ou revelam suas dúvidas nem quantos pontos vão perder se tentarem camuflá-las (já repararam que eles somem se são chamados para formar vínculos afetivos ou assumir um novo amor, por exemplo?).

Do que eles mais se queixam? Da desenvoltura adquirida pela mulher. Ela aprendeu a falar de sentimentos milênios antes e agora faz escolhas, faz bons negócios, enquanto eles se veem como o cão que caiu do caminhão da mudança. A ameaça cresce se ele nota que a mulher já sacou que ele patina para evoluir e não consegue romper com o modelo patriarcal. Aí ele não dá o braço a torcer, promove uma lambança qualquer só para checar se a supremacia de macho ainda vigora. Depois, apresenta um álibi, invocando perdão. Mais lenha aparece na própria fogueira quando ele dá de cara com este risco: a sua companheira maneja bem o direito de decidir e pode seguir sem ele para algo mais interessante e prazeroso. Nessa hora, até o mais valente dos homens chora. Ou faz como os fofos da foto acima (João Vicente, Leo Jaime e Marcelo Tas), que já decidiram jogar a toalha e estão, sim, em público (Papo de Segunda/GNT) fazendo confissões, contando que choram…estão beijando mais, abraçando mais…

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