Por que tantas crianças fazem terapia?

A busca por terapia para os pequenos cresce tremendamente. Será que eles estão mesmo cheios de problemas?

Não há uma sondagem oficial sobre o assunto, mas os especialistas batem o martelo: há muito mais crianças em terapia do que há dez anos. Um levantamento recente feito pela revista VEJA SÃO PAULO, da Editora Abril, que também publica CLAUDIA FILHOS, realizado nos dez consultórios paulistanos que mais atendem crianças, mostrou que o número de pacientes abaixo de 13 anos dobrou e que triplicou entre os menores de 3 anos no mesmo período. Vários motivos explicam o fenômeno, e alguns deles indicam avanços. “Hoje, a população, de maneira geral, tem menos preconceito de buscar a ajuda de um psicólogo, e as escolas estão mais bem capacitadas para entender as necessidades dos pequenos e, assim, orientar e oferecer ajuda aos pais”, diz o psiquiatra da infância e da adolescência Gustavo Teixeira, autor de O Reizinho da Casa (Editora Bestseller). Para Miriam Ribeiro da Silveira, vice-presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, há uma maior conscientização de que a psicoterapia ajuda a criança a se desenvolver melhor. Já para a psicopedagoga Ana Cássia Maturano, o fato de os convênios serem obrigados a cobrir acompanhamento psicológico facilitou bastante para os pais.

Mas ainda tem levado tempo até que os adultos encaminhem seus filhos a um terapeuta. “Infelizmente, o clique muitas vezes vem apenas quando a ansiedade, o desencorajamento ou as dificuldades da criança começam a afetar as suas notas na escola”, afirma Kenneth Barish, professor de Psicologia da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, e autor do livro Pride & Joy – A Guide to Understanding Your Child’s Emotions (Orgulho e Contentamento – Um Guia para Entender as Emoções dos seus Filhos, em tradução livre para o português).

Há também um outro lado da moeda. “Os pais estão mais inseguros no trato com as crianças, insegurança que cresceu com o aumento da carga de trabalho, que levou a grande maioria deles a ficar tempo demais fora de casa. Se antes havia uma verdadeira rede de ajuda aos cuidados, que envolvia família e amigos, atualmente ela é menos presente. Com isso, houve uma profissionalização dos cuidados, que inclui a procura pelo psicólogo. Além disso, houve uma patologização da vida, ou seja, o diferente é tratado como anormal, doente”, analisa a psicoterapeuta Karen Scavancini, doutoranda em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP.

Uma parcela significativa de pais vem se sentindo culpada por não ter mais o tempo de que gostaria para ficar com seus filhos. “Os ambientes familiares tornaram-se mais permissivos, pois os adultos não querem causar confronto nem frustrar as crianças. Só que, com isso, elas estão se tornando incapazes de lidar com a frustração, quando a vida, na realidade, nos expõe a isso sempre. Essas crianças ficam sem saber o que pode e o que não pode, ganham um ‘poder’ de fazer o que bem entenderem”, diz Karen.

Miriam Ribeiro aponta mais um motivo. “A sociedade está muito mais competitiva, o que fez com que os pais se preocupassem com o futuro dos filhos desde muito cedo. A agenda da criança ficou carregada, pois muitos temem que, se ela não se preparar, vai ficar para trás. As crianças estão estressadas, já que muitos pais transformam o dia a dia delas quase na rotina de um miniexecutivo.” Segundo a psicanalista, a expectativa deles para que seus filhos “deem certo” é imensa. “E eles ficam perdidos quando algo não sai como haviam planejado.”

O que tem levado as crianças para o divã?

Separaço dos pais

Se no passado muitas crianças escondiam o fato de serem filhas de pais separados, hoje isso virou feijão com arroz. “Mais que a separação, muitas crianças ficam confusas com os novos arranjos familiares, e o que vemos é que isso é algo que confunde aos próprios pais”, conta Karen.

Bullying

Embora sempre tenha existido, foi na era da internet e principalmente das redes sociais que ele tomou uma outra dimensão. “O bullying pode se agravar ou não dependendo de como a escola lida com isso e de como a criança enfrenta os seus agressores. A questão é que a internet potencializou o drama ao deixar o limite da vida privada muito tênue”, analisa Karen.

A perda de um ente querido

Lidar com a morte é algo difícil até para os adultos. “Muitas vezes a criança não tem com quem falar sobre a morte porque os próprios adultos têm dificuldade de abordar o tema e porque eles mesmos estão de luto. Algumas chegam a desenvolver medos ou fantasias a respeito. E a terapia também é um espaço para que ela possa lamentar a morte do ente querido e entender que isso é parte da vida”, diz Ana Cássia Maturano.

Terapia também para a dupla mãe-bebê

Depressão pós-parto, companheiro ausente, falta de uma rede de apoio, dramas pessoais. Para muitas mulheres, a chegada do bebê pode se transformar, mais do que em alegria, em um fardo duro de carregar, e, por causa disso, elas têm dificuldade ou mesmo não conseguem se vincular positivamente a seus filhos. “A terapia de bebês envolve a dupla mãe-criança e é voltada àquelas mulheres para quem essa relação não é prazerosa”, diz a terapeuta de bebês Regiane Glashan. Segundo ela, os primeiros anos de vida do bebê são fundamentais para o seu desenvolvimento emocional e psíquico. “A não criação de um vínculo afetivo nos primeiros meses e anos de vida pode levar a criança a desenvolver sentimentos de abandono e vazio na vida adulta. E o que a gente vê é que muitas mulheres efetivamente seguem à risca os cuidados aos pequenos, mas de maneira mecânica, desprovida de afetividade.”

De acordo com a psicanalista Miriam Ribeiro, ao nascer, o bebê é quase uma continuação da mãe, sendo apenas mais tarde que ele passa a ter consciência de que é um outro. “A gente fala que até o linguajar da mãe, o ‘mamanhês’, chama o bebê para a vida. A criação desse vínculo é essencial. E, às vezes, o desajuste desse vínculo parte do próprio bebê. Em casos extremos, como o autismo, ele quase não consegue olhar para a mãe, estabelecer contato.” Regiane conta que um desajuste nessa relação pode fazer com que o bebê pare de se alimentar direito, passe a dormir mal, torne-se chorão, fique agitado. A terapia de bebês trabalha a problemática da mãe para reparar a relação entre ela e seu filho. O consultório, claro, é totalmente diferente do convencional. A ideia é que ali seja um “miniambiente“ do bebê, com trocador, banheirinha, cores que remetam à tranquilidade. “Esse ambiente traz conforto para as mães e para seus filhos”, relata Regiane.

Famílias que se reaproximam

A terapia é um espaço da criança. Um momento só dela, que vai possibilitar que ela comece a entender suas dificuldades, seus medos e suas angústias. “O mundo está muito duro, difícil mesmo. A psicoterapia também contribui para que ela aprenda a lidar com essa realidade e a viver melhor”, conta Miriam.

Porém, toda a família se beneficia do processo terapêutico. “A gente costuma dizer que a terapia não afeta só a criança que está dentro do consultório, pois os pais também são chamados a conversar e a refletir”, diz Karen. Segundo ela, o pequeno é reflexo do ambiente familiar em que vive, e ele pode ser o estopim para uma revisão da dinâmica familiar. “A terapia abre um canal de diálogo entre a criança e seus pais que muitas vezes não existe. Isso acaba por promover a reaproximação da família”, afirma Miriam.

Perguntas e respostas

Quais os sinais de que a criança precisa de terapia?

Atenção especialmente a alterações de personalidade. Por exemplo, crianças quietas que ficam ainda mais introspectivas, ou que apresentam um grau elevado de agressividade, que têm episódios frequentes de choro ou pesadelos, que se afastam dos amigos etc.

Qual a melhor idade para começar?

Não há exatamente uma hora certa para começar. Dependendo da idade, o que muda é a abordagem feita pelo terapeuta. “Crianças pequenas se expressam por meio de brincadeiras e desenhos”, diz a psicopedagoga Ana Cássia Maturano. Quanto mais velhas ficam, mais e mais o terapeuta pode interagir com ela por meio de um bate-papo.

Quanto tempo dura?

Terapia é um processo que vai ajudar a criança a se entender, a entender as suas dificuldades e a superá-las.
“Terapia não é o mesmo que um tratamento médico. E muitos pais têm uma expectativa de cura, o que pressupõe que ela esteja doente”, diz Ana Cássia. Segundo a profissional, eles têm de estar cientes de que terapia é algo para a criança, e não para os adultos. “Muitos pais tiram da terapia quando percebem que o filho não está ficando do jeito que eles sonhavam. A urgência deles acaba impedindo que a criança melhore. É preciso dar esse tempo, que é dela”, pondera Karen Scavancini.

O problema pode estar nos pais, e não na criança?

Sim. “A criança está inserida dentro de um sistema familiar e é reflexo dele. O que vemos muitas vezes quando conversamos com os pais é que a problemática nasceu ali. O legal da terapia é que ela não afeta só a criança, mas quem está ao seu redor”, alerta Karen. 

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