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O que podemos esperar da vida de casada hoje?

Especialistas afirmam: um em cada quatro casais que dividem o mesmo teto se diz infeliz. Antes que a insatisfação vire divórcio, vale perguntar o que podemos esperar da vida conjugal hoje.

Por Liliane Prata - Atualizado em 22 out 2016, 15h19 - Publicado em 1 nov 2015, 07h00

Na peça Querido Mundo, o personagem de Miguel Falabella anuncia: “Casamento é igual submarino – até boia, mas foi feito para afundar”. Não faltam piadas sobre as dificuldades do matrimônio, mas a instituição está longe de falida: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013 foram pouco mais de 77 mil divórcios e cerca de 1 milhão de matrimônios. Ninguém duvida de que existem casais muito felizes; no entanto, os especialistas concordam: eles não são a maioria. O problema está no casamento ou nas expectativas?

Muita coisa se modificou nas últimas décadas. “Amor, companheirismo e tesão entraram na equação, diferentemente de antigamente, quando os casais se uniam para preservar o patrimônio e tocar um projeto comum: ele era o provedor, ela cuidava da vida doméstica”, assinala a historiadora Mary Del Priore. “Apesar de todas as conquistas, a brasileira continua querendo achar seu príncipe e ter um prazer infinito depois de casada.” O psicanalista Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, concorda que os anseios mudaram – e muito. “Antes, presença de filhos e prosperidade econômica bastavam para que se considerasse uma união satisfatória. Hoje existem muitas outras exigências, como admirar o cônjuge e ser feliz.” Na visão do psicanalista, agora são colocadas na conta do casamento itens que ele não pode dar. “Mesmo que se faça uma viagem para Cancún a cada 15 dias, o clima de novidade chega ao fim. Uniões longas têm limitações esperadas”, afirma.

Não há mais a obrigação social de permanecer junto. Porém, divorciar-se (ou resignar-se à infelicidade conjugal) não é a única solução. Se, apesar das insatisfações, o casal tem prazer na convivência, vale ajustar as expectativas à realidade em vez de buscar um novo parceiro ou de manter a relação atual imersa em discussões e cobranças. “Rotina existe em todo casamento”, lembra a psicóloga Giovana Perlin, autora da tese de doutorado Casamentos Contemporâneos. “Quem se separa por isso também se frustrará na próxima relação longa.” Viver solteiro, de paixão em paixão, é escolha de cada um. Mas há alternativas.

Expectativa: o dia a dia é uma festa X Realidade: pequenas coisas irritam

“Acordo mal-humorada. No primeiro dia na casa nova, quando ele falou “bom dia”, cheguei a me arrepender. Namoramos por seis anos e confesso que eu esperava brincar de casinha. Logo se estabeleceu uma briga para ver quem lavava a louça e fazia as tarefas domésticas em geral. Depois que nosso filho nasceu, então… Mas outros maridos terão outros defeitos, e eu já sei lidar com os do meu. Vivo bem com ele.”

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Lívia Ledier, 32 anos, professora

“Adoro ser casada e meu amor é ainda maior que no namoro, mas reconheço que a vida a dois é um malabarismo e entendo quem se separa. A convivência é uma luta, e as pessoas não contam para a gente que é assim. Casei em janeiro deste ano, depois de seis meses de namoro, e pretendo morrer com ele, mas reconheço que a adaptação foi dura.”

Fernanda Trewikowski, 30 anos, radialista

Palavra do especialista: Nem todos se incomodam com pouco, mas mesmo os mais calmos devem entender que certo desgaste é natural. “A convivência envolve renúncia e disciplina em uma cultura que vê esses valores como arcaicos”, diz Dunker. “É preciso ter tolerância com as diferenças e cuidar da relação”, lembra a psicóloga Maria Luiza Puglisi Munhoz, presidente da Associação Paulista de Terapia Familiar e de Casais. “Sempre reservem horários para algo gostoso a dois. Assim, o carinho acaba superando os desentendimentos.” Também é fundamental e benéfico para ambos manter alguma atividade individual. E, quando estiver fixada nos defeitos do parceiro, faça um esforço para recordar as qualidades dele.

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Expectativa: ter filhos é só alegria  X Realidade: ser mãe e esposa demanda paciência e esforço

“Estou casada há seis anos e somos felizes, mas é mais difícil do que eu pensava. Não é aquela coisa tranquila, como nas fotos de celebridades.Nosso filho tem 4 anos. Preciso brincar e ficar atenta. E ainda dar um jeito de fazer as coisas de casal, como antes. Quando finalmente arrumo tempo, estou cansada… Ainda assim, adoro dividir a vida com a pessoa que amo. Quero que meu filho cresça vendo que é possível ter uma família.”

Ana Licya Martins, 32 anos, professora

Palavra do especialista: “As pessoas ficam influenciadas pelas imagens de casais felizes com filhos que veem por aí”, aponta Fábio Scorsolini-Comin, professor de psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. “Não que seja fácil escapar desses modelos, mas é importante estar preparado, saber que a fantasia existe e que afeta o modo como encaramos as situações.” Antes de ter filhos, pense: como minha rotina vai ficar? O que meu tempo e condição financeira permitem? “Na medida do possível, procure espaços para a família, para o casal e só para você”, indica Maria Luiza. 

Expectativa: romantismo e paixão todo dia X Realidade: vida morna

“Este é meu segundo casamento e tive a mesma decepção do anterior: a vida a dois cai na rotina muito rápido. Especialmente o sexo: a pessoa está sempre ali, disponível, o que tira um pouco a graça. No fim do dia, nem penso nisso. Estou feliz, acabamos de comemorar dois anos juntos, mas sinto falta do clima de namoro.”

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Luciana*, 32 anos, administradora

“Estava casada fazia 30 anos quando me apaixonei por outro homem. O caso durou um ano e foi maravilhoso! Mas em nenhum momento pensei em me divorciar. Na verdade, quanto mais desejo eu sentia pelo meu amante, mais tinha claro que meu marido é o amor da minha vida. Entendo que são estados diferentes. Aquela paixão me encantou porque era nova, avassaladora. Com meu companheiro, há uma delicadeza amorosa.”

Olívia*, 53 anos, professora e pesquisadora

Palavra do especialista: “Aceitar que casamento é diferente de namoro pode melhorar a convivência e diminuir a frustração. Mas isso não significa que o casal deva se acomodar. “O pior inimigo é a preguiça”, afirma Dunker. “Cultivar uma vida intelectual, com cinema, leitura, é essencial para que os cônjuges se acrescentem, tenham o que trocar.” O mesmo vale para o sexo: procure inovar, fazer experimentos eróticos. Sexo seguindo o mesmo roteiro enjoa: tentem diferentes posições e cômodos da casa, por exemplo. Cada vez mais, há quem apele para relações abertas ou até casos extraconjugais. “Os relacionamentos abertos funcionam melhor se o casal já conversou sobre isso, fez um acordo, mas um não fica contando para o outro quando saiu com quem. Mentir é difícil, mas tem uma função”, diz o psiquiatra e terapeuta Eduardo Ferreira-Santos autor de Casamento: Missão (Quase) Impossível (Claridade). Por fim, lembre-se de que a realização pessoal não deve estar totalmente atrelada à vida conjugal. “Há solteiros com vida rotineira. Cabe a você ir atrás de novidades, sendo casada ou não”, aponta Fábio Scorsolini-Comin. 

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Expectativa: casamento é natural para todos X Realidade: para cada pessoa, uma sentença

“Estou casada há três anos e me sinto sufocada. É muito difícil para mim essa história de dar satisfação de para onde estou indo, a que horas volto. Sem contar que eu morava sozinha antes e me irrito com a bagunça que ele faz, com os barulhos… Insisto porque, no fundo, eu amo meu marido, mas, se a gente se separar, não me imagino casando de novo. Também nunca tive vontade de ter filhos.”

Camila*, 42 anos, publicitária

Palavra do especialista: Crescemos acreditando que trocar alianças é natural, quando é algo socialmente construído. Assim como nem todo mundo deseja ter filhos, será que o casamento tradicional é a melhor opção para todos? Para Dunker, a resposta é não. “Mas quem não casa tem que ficar justificando para si mesmo e para os outros, pois existe uma cobrança social”, diz. Segundo Maria Luiza, nascemos para a relação a dois. “Mas vivemos em tempos individualistas, o que faz com que muita gente tenha dificuldade de abrir mão do seu espaço para morar junto.” Justamente por isso, vêm surgindo novas soluções depois do “sim” – por exemplo, viver em casas separadas. “Os modelos antigos vão se reestruturando”, afirma Ferreira-Santos. “Já atendi casais que esperam que a união dure até dez anos e tudo bem; assim não há decepção com o fim. Tirar o peso do eterno é uma das saídas possíveis para se sentir bem.” 

 

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*Nomes trocados para preservar a identidade das entrevistadas

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