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Nando Reis lança álbum com músicas de Roberto Carlos

O repertório embalou momentos românticos de vários casais, inclusive do cantor e da mulher, Vania, que estão juntos há 34 anos

Por Carla Aranha Atualizado em 17 fev 2020, 16h35 - Publicado em 23 jun 2019, 18h30

As notas do violão e da flauta saem com meiguice enquanto Nando Reis harmoniza sua voz com os instrumentos para fazer uma declaração – às pessoas, à mulher dele, aos filhos, ao mundo, a tudo de bom que nos cerca – em De Tanto Amor, uma das faixas de seu último álbum, Não Sou Nenhum Roberto, Mas às Vezes Chego Perto.

A música é de Roberto Carlos, como todas as outras do repertório escolhido pelo paulistano para seu mais recente trabalho. “É um artista consagrado, ao qual eu quis associar a minha sonoridade”, diz. “Mas o motivo das escolhas é sempre misterioso, um pouco como a vida.” De enigma em enigma, Nando vai construindo um enredo que inclui ombros amigos, chamas acesas, lembranças, as plantas na varanda, as distâncias, os planos destruídos, saudades e o grande amor, território já conhecido pelo Rei. Nando modula a voz e sai relatando as dores humanas, o apego, as ausências e a esperança.

É a vida. Bem vivida, no caso do compositor, que conheceu Vania Reis, hoje sua mulher, aos 15 anos, na escola. Ele admite que se encantou assim que a viu; e estão juntos até hoje. “No começo éramos amigos, mas eu já tinha me apaixonado por ela.” Alguns anos depois, estavam namorando. Aos 20 e pouco anos, se casaram.

Os filhos foram nascendo. Veio a separação. E a reconciliação. Nando e Vania, psicóloga e escritora, passaram quase oito anos afastados. “Mas nunca deixamos de nos falar. Sempre havia alguma coisa que queria contar para ela – algo que tinha visto, pensado ou sentido. Também conversávamos sobre os filhos.” Daí, voltaram.

O compositor não gosta de entregar muitos detalhes sobre o assunto, diz que é uma questão de respeito. Vania é mais avessa aos holofotes, não gosta de aparecer. Deixa esse espaço para o marido. “Valorizo a fraternidade e as relações amorosas, todas elas, com amigos, com a natureza, e todos os vínculos que temos capacidade de criar”, prossegue o cantor. Ele afirma que isso está acima de qualquer baque pelo caminho.

Bispo/CLAUDIA

Nando já se ralou um pouco. Na época dos Titãs, uma das bandas de sucesso mais estrondoso no país, que ajudou a fundar nos anos 1980, a dor e o amor eram sorvidos, em goles quase iguais, com drogas, álcool e, claro, rock’n’roll. Em 2001, teve a morte de Marcelo Fromer, guitarrista do grupo, atropelado por uma moto em São Paulo. No mesmo ano, perdeu a amiga e parceira em tantas cantorias Cássia Eller. A carga foi pesada – de saudade, dor e veneno. O mergulho nas drogas impressionou a filha, Sophia, 28 anos, que hoje é atriz. Mas passou. As feridas cicatrizaram e o carinho prevaleceu. “Sofria vendo eu me destruir sem conseguir me parar”, reconhece o cantor em Só pra So, composição do disco Nando Reis & Os Infernais, também de 2001, quando saiu dos Titãs.

Muita coisa ficou para trás, inclusive a vida louca. Hoje, aos 56 anos, José Fernando Gomes dos Reis, filho de um engenheiro e uma fonoaudióloga, olha para os filhos com um misto de agradecimento, amor e admiração. “Não gosto de me autoelogiar, mas observo quanto meus filhos compartilham uma visão de mundo em que prevalecem os sentimentos de justiça e generosidade”, diz.

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Eles são cinco – além de Sophia, tem Theodoro, 32 anos, Sebastião, 24, Zoe, 19, e Ismael, 13 anos, este último fruto da relação com a ex-namorada Nani, quando estava separado de Vania. “São muito amorosos”, emenda o pai, orgulhoso. Theodoro e Sebastião são músicos; e Zoe cursa artes plásticas. “Não sei dizer exatamente qual é a influência dos pais na criação dos filhos, mas todos incorporaram o respeito que sinto por eles”, afirma.

Uma questão de equilíbrio

Nando tem fé na evolução do ser humano. Ele sabe reconhecer os fluxos de sentimentos inerentes a nós. Os negativos também – raiva, inveja, competição, rivalidade. Mas enxerga confiança, admiração, cuidado e perseverança para seguir em frente com um olho nas estrelas e outro aqui entre nós. “Não sou cético, tenho esperança”, explica.

Talvez o Segundo Sol, que dá título a uma das músicas mais conhecidas do compositor, gravada por Cássia, possa chegar, afinal de contas. A canção surgiu de uma desavença de Nando com uma amiga que acreditava nas forças ocultas do firmamento. “Fiquei pensando na minha reação, que foi um pouco agressiva em relação à crença dela, e cheguei à conclusão de que não existe uma só verdade.” Em época de intolerância, a frase é um ato de amor.

Nando enxerga na complementaridade a chave para as relações amorosas felizes. Com Vania, pelo menos, é assim. Ele é mais idealista, ela nem tanto. As diferenças os aproximam quase tanto quanto as semelhanças, em um vínculo emocional que muda, cresce, se expande, se reafirma e desabrocha outra vez, mais límpido e forte.

O novo álbum brotou de um momento a dois. Nando e Vania foram passar duas semanas de férias no sítio da família no interior de São Paulo, em 2016, levando um violão, uma caixa com 12 discos de Roberto Carlos e uma mala com algumas roupas. Ali, na natureza, ele ficou ouvindo as músicas e percebeu algumas conexões que o aproximavam melodicamente do Rei. Nando acompanha desde a infância o líder da Jovem Guarda. As letras embalaram parte da história com Vania também. “Tanta gente se esqueceu que o amor só traz o bem”, canta Nando em Todos Estão Surdos, mais uma do novo álbum. Agora, é ouvir e lembrar.

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