Melhores momentos do 23º Prêmio CLAUDIA

A festa ocorreu em outubro, na Sala São Paulo, e foi uma homenagem à educação

A importância do ensino público de qualidade, da diversidade e da democracia para uma sociedade que se pretenda justa foi a mensagem que deu a tônica da festa de encerramento da 23ª edição do Prêmio CLAUDIA. Na noite de 22 de outubro, na Sala São Paulo, na região central da capital paulista, o evento teve como tema a educação e homenageou a escritora Ruth Rocha, célebre por suas obras para crianças. A paulistana esteve presente e foi aplaudida pelo público e por seus familiares.

A noite foi marcada por diversas manifestações da plateia, formada por 800 pessoas, que vibrou pelos finalistas, mulheres e homens cujas histórias são exemplos de resiliência para levar adiante projetos que impactam a vida de milhares de pessoas.

A primeira atração musical foi o grupo As Valquírias, que fez uma emocionante apresentação do clássico de Milton Nascimento Maria, Maria, conduzida por instrumentos de percussão. Composta de integrantes do instituto social de mesmo nome, a banda caminhou entre os espectadores antes de chegar ao palco.

O projeto que originou As Valquírias tem a missão de atender meninas de todo o Brasil em situação de risco e vulnerabilidade social e emocional, visando afastá-las da violência e garantir-lhes o acesso à educação e à arte. Para isso, oferece a essas jovens das periferias aulas de música.

Em seguida, o show da banda As Bahias e a Cozinha Mineira causou arrepios. Mas a grande comoção veio com a divulgação do nome das vencedoras das sete categorias femininas e do ganhador de Eles por Elas, categoria criada no ano passado para homenagear homens que batalham pela equidade de gênero.

O grande destaque desta edição foi João W. Nery, o primeiro homem a passar pela cirurgia transexualizadora no Brasil. Vítima de um câncer em metástase, ele não pôde comparecer ao evento e faleceu quatro dias depois. Também foi lamentada a ausência da antropóloga Débora Diniz, que vem recebendo ameaças devido a seu trabalho pela descriminalização do aborto e a favor dos direitos humanos.

Confira os vencedores do 23º Prêmio CLAUDIA:

  • Categoria Ciências: Margareth Capurro

O Prêmio CLAUDIA é uma competição, mas não tem caráter de disputa. Nos preparativos que antecedem a festa, o clima que impera entre as candidatas é o de sororidade. Prova disso foi o gesto de Margareth Capurro, vencedora na categoria Ciências, ao cumprimentar Olímpia Resque, que também concorria ao troféu. Antes de subir ao palco, a bióloga fez questão de abraçar a colega, que estava sentada próxima a ela.

Margareth é uma das maiores especialistas no controle biológico do mosquito Aedes aegypti, causador de doenças como dengue, zika, febre amarela e chicungunya. Em depoimento à equipe do Prêmio, Margareth denunciou o machismo velado da academia, que evita a ascensão de mulheres, sobretudo as mais velhas, aos postos de maior importância.

“As pessoas acham que a universidade é aberta. Não é verdade. Vamos a reuniões em que 99% dos ocupantes de cargos principais são homens”, disse ela, que é diretora de um laboratório na Universidade de São Paulo e de uma fábrica onde são produzidos insetos capazes de atuar no controle dessas epidemias.

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

  • Categoria Eles por Elas: João W. Nery

Foi com pesar que a equipe do Prêmio CLAUDIA recebeu a notícia de que, na tarde de 26 de outubro, apenas quatro dias após a cerimônia na Sala São Paulo, João W. Nery falecera. Ele foi o primeiro homem a passar pela cirurgia de readequação sexual (remoção de mamas e de ovários) no Brasil, em 1977. Desde então, abraçou a causa LGBTQ. Por seu trabalho como ativista, venceu na categoria Eles por Elas, para homens que lutam pela equidade de gênero.

Em 15 de setembro, dias antes de ser internado para conter os sintomas de um câncer sem possibilidade de cura, João recebeu na casa onde morava com sua companheira, Sheila Campos Salewski, a repórter Giuliana Bergamo e o fotógrafo Pablo Saborido. Apesar do cansaço aparente e da dificuldade para falar, ele se manteve alegre ao longo de mais de uma hora de entrevista.

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

  • Categoria Revelação: Andreza Jorge

Nascida e criada em Nova Holanda, uma das favelas que compõem o Complexo da Maré, Andreza Jorge sabe o valor da sua comunidade. Em seu discurso de agradecimento pela vitória na categoria Revelação, para mulheres com menos de 30 anos, ela falou da diferença entre os termos dar valor e dar visibilidade.

“Muitas vezes, principalmente quando pessoas de fora chegam à favela, escutamos que vão valorizar a mulher, o jovem dali. Em vez disso, trago a palavra visibilidade porque, na real, é o que estou buscando”, disse. Líder comunitária e ativista, Andreza atua em ONGs com propostas voltadas à igualdade de gênero desde os 15 anos. Prestes a concluir um mestrado sobre o processo de favelização no Rio de Janeiro, é diretora da Casa das Mulheres, que oferece cursos e oficinas de empreendedorismo feminino no Complexo da Maré.

 (Helena Yoshioka/CLAUDIA)

  • Categoria Negócios: Gabryella Corrêa

Desde que venceu o Prêmio CLAUDIA, em 2003, a empresária Luiza Helena Trajano faz questão de ser jurada e participar da cerimônia. Neste ano, a presidente do conselho do Magazine Luiza entregou o troféu a Gabryella Corrêa, que, como ela, tem forte veia empreendedora.

Criadora da plataforma de locomoção Lady Driver, exclusiva para mulheres passageiras e motoristas, a paulistana ressaltou a importância da sororidade: “A gente prova com nosso aplicativo que aquela coisa de que mulher é inimiga da outra não existe. Somos unidas e juntas construímos coisas maravilhosas”. Luiza, com o bom humor de sempre, completou: “Hashtag mulher é amiga de mulher, sim!”.

A ideia do Lady Driver surgiu após Gabryella, formada em nutrição, ter sofrido assédio de um condutor de aplicativo de transporte. Lançada em março de 2017, sua empresa já conta com 20 mil motoristas cadastradas em São Paulo e no Rio de Janeiro. O ambicioso plano de expansão inclui até a Cidade do México.

 

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

  • Categoria Políticas Públicas: Débora Diniz

Ferrenha defensora dos direitos humanos e da descriminalização do aborto, a antropóloga Débora Diniz vem recebendo graves ameaças. “Por aconselhamento do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, ela tem que evitar espaços públicos neste momento tão tensionado da história do país”, disse Sinara Gumieri, advogada da Anis – Instituto de Bioética, ONG criada por Débora há quase 20 anos.

“Este prêmio é um sinal de resistência e um lembrete daquilo que a professora Débora vem repetindo há tanto tempo: ela não vai ser calada por atos de ódio e continuará fazendo o trabalho dela em defesa das mulheres”, afirmou Sinara, que representou a professora da Universidade de Brasília no evento.

Débora conduziu a Pesquisa Nacional do Aborto, concluída em 2015, na qual traçou o perfil da brasileira que interrompe a gravidez. A investigação mostra que uma em cada cinco mulheres até 40 anos já fez um aborto.

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

  • Categoria Cultura: Roberta Estrela D’Alva

Responsável por trazer os slams, batalhas de poesia falada, ao Brasil há dez anos, Roberta Estrela D’Alva é também poeta, atriz-MC e apresentadora do programa Manos e Minas, da TV Cultura. Ela dedicou o prêmio da categoria Cultura ao Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Teatro e Hip Hop, que ajudou a fundar, à Frente 3 de Fevereiro, que combate o racismo, e às mais de 150 comunidades de slam espalhadas por 18 estados do país.

Homenageou ainda os jovens periféricos, negras e negros, LGBTQ, que, segundo ela, estão fazendo das ruas praças de debate político com poética. Completou seu discurso com uma mensagem antirracista: “Não existiram fazendas de café, mas de escravos. Café não se dá por geração espontânea. A juventude desse país não vai deixar mais!”.

 (Helena Yoshioka/CLAUDIA)

  • Categoria Trabalho Social: Débora Seabra de Moura

“Educação é um consenso, mas não uma realidade. Não vamos avançar sem ensino público de qualidade. Então precisamos arregaçar as mangas e lutar muito”, disse Priscila Cruz, do movimento Todos pela Educação, antes de anunciar o nome de Débora Seabra de Moura como vencedora.

Batalhadora por essa mudança, a potiguar nascida com síndrome de down teve apoio e estímulo da família desde pequena. Graças a isso, formou-se no magistério e trabalha como auxiliar de educação infantil em uma escola em Natal, onde vive. Transformou a própria história em causa social e viaja pelo país para participar de eventos sobre inclusão. Além disso, é autora de um livro infantil que trata de diversidade. No palco, repetiu seu jargão: “Tem que incluir todos!”.

 (Pablo Saborido/CLAUDIA)

  • Categoria Consultora Natura Inspiradora: Bruna Marcelly Coutinho 

Quando Bruna Marcelly ainda era adolescente, seus pais morreram vítimas da aids. Hoje, ela é presidente da União pela Vida, ONG que atende pessoas acometidas pelo vírus HIV e auxiliou sua família no passado. Em seu discurso de agradecimento, Bruna dedicou o prêmio a essas pessoas: “Para aquelas mulheres que querem trabalhar, ter um parceiro e não conseguem. Para aquelas que sonham em fazer faculdade, ser alfabetizadas. Elas são hoje minha família”.

Bruna homenageou também a mãe: “Se eu cheguei aqui foi porque ela me fez ser uma mulher forte, que luta por seus ideais”. Além de Bruna, foram finalistas nessa categoria as consultoras Natura Janir Gonçalves Leite e Marli Gomes Masson da Silva. “Elas são guerreiras que ajudam e acreditam no propósito da Natura de transformar o mundo em um lugar melhor”, disse Cida Franco, diretora de vendas Brasil da Natura.

 (Mariana Pekin/CLAUDIA)

  • Hors-Concours: Ruth Rocha

Para a entrega do último prêmio da noite, a professora Gina Vieira de Ponte, finalista da edição de 2017 e criadora do Projeto Mulheres Inspiradoras, entrou no palco acompanhada de um grupo de crianças. Elas leram a adaptação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de autoria de Ruth Rocha, em parceria com o artista plástico Otávio Roth. A homenageada hors-concours deste ano recebeu sua estatueta e flores.

“Parece que tudo isso que eles leram aqui nunca foi tão importante”, declarou a mestre de cerimônias, Ana Paula Padrão. A escritora, que está prestes a completar cinco décadas de carreira, agradeceu e elogiou o evento. “A festa demonstrou uma mentalidade aberta, generosa, contra a discriminação, contra o racismo, uma mentalidade que o Brasil deve ter: de acolher a todos. Fiquei muito emocionada e contente!” A família de Ruth, que compareceu em peso, subiu ao palco para a comemoração.

 (Mariana Pekin/CLAUDIA)

Confira as fotos dessa noite tão especial:

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Ruth Rocha é a grande homenageada do Prêmio CLAUDIA 2018

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