Faltam mulheres nas histórias de empresas de sucesso

No livro Sonho Grande, a jornalista Cristiane Correa mostra a história de sucesso de três empresários brasileiros. Como não há mulheres nessa trajetória, fica a pergunta: as mulheres são pouco ambiciosas ou o ambiente de negócios é machista?

Há contradição entre o alto grau de ambição feminina e a ausência de mulheres no topo das grandes empresas
Foto: Getty Images

Acabo de ler o livro Sonho Grande, que conta a trajetória dos empresários brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, três dos mais bem-sucedidos homens de negócios do mundo. A história de seus grandes sucessos (e poucos fracassos) e da fórmula de gestão que criaram é um excelente trabalho de reportagem da jornalista Cristiane Correa, que atuou por 12 anos na EXAME. Surpresa ou não, a autora do livro é a única mulher a ter papel relevante no relato: o de narradora.

O trio – que se uniu originalmente no mercado financeiro, fundou o extinto Banco Garantia e depois diversificou à frente de gigantes internacionais, como AB InBev, maior cervejaria do mundo, Lojas Americanas e Burger King – ficou conhecido por inventar o “estilo Garantia”, cultura corporativa de austeridade, trabalho extenuante e meritocracia obsessiva, que implementou em todas as empresas que criou ou adquiriu. A turma do Garantia descobriu jovens talentos nas melhores escolas do país e do mundo ou nos quadros mais humildes das companhias. Forjou ricos, milionários e bilionários. Especializou-se em farejar e recrutar mentes brilhantes de uma natureza especial carimbada com a sigla PSD, de Poor, Smart with Deep Desire to Get Rich (pobres, inteligentes com um profundo desejo de ficar ricos). Pois desde 1971, quando Lemann comprou o título da corretora Garantia, até 2013, quando sua empresa 3G se associou ao megainvestidor americano Warren Buffett para a aquisição da indústria de alimentos Heinz por 28 bilhões de dólares, não houve nenhuma – veja bem, nenhuminha – mulher a se encaixar no perfil PSD! Isso não quer dizer que o grupo não recrute nem contrate mulheres. Deve haver muitas em seus quadros.

A questão é que não existe um único nome feminino merecedor de uma simples menção na história desse império. A pergunta que não quer calar depois da leitura de 238 páginas repletas de estrelas e fortes emoções corporativas é: o mundo dessas feras (no bom e no mau sentido) do capitalismo é um mundo só de meninos? Inóspito para nós? Não temos em nossa composição genética o D de deep desire to get rich? Ou temos e não sabemos nos apresentar à arena de bravos? Segundo estudo realizado nos Estados Unidos, 80% das brasileiras aspiram aos cargos top, ante 52% das americanas. Mais: 59% se consideram muito ambiciosas, ante só 36%. Aparentemente, nenhuma delas passou pelo implacável processo de seleção do grupo. A contradição entre o alto grau de ambição feminina no país e a ausência de mulheres nessa história merece uma reflexão bem ao estilo “o ovo ou a galinha”. Não estamos lá porque a cultura é exclusivamente masculina ou a cultura é exclusivamente masculina porque não estamos lá? Nem todos os empresários por aqui foram atraídos pelo estilo agressivo do trio, e isso não é um problema. O que é um problema – ou melhor, um desafio para a maioria das brasileiras – é saber por que foram (e continuam sendo) deixadas de fora.

Cynthia de Almeida é jornalista e estudiosa do comportamento feminino