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“Eu não mereço ser estuprada”: mulheres reagem a dados de pesquisa sobre assédio

Para mais da metade dos brasileiros, mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas, segundo dados divulgados pelo IPEA. 68% dos entrevistados eram mulheres

Por Bruna Petean (colaboradora) - Atualizado em 15 jan 2020, 06h59 - Publicado em 27 mar 2014, 21h00

Nas últimas 24 horas, as menções a termos como “machismo”, “estupro” e “IPEA” estão em destaque nas redes sociais e sites de notícias. O aumento do debate foi provocado pela divulgação de que seis em cada dez brasileiros concordam que mulher que mostra o corpo merece ser atacada, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A pesquisa, divulgada na última quinta-feira (27), ainda mostrou que 58% dos 3,8 mil entrevistados concordaram que “se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros”.

“IPEA” em tempo real no Twitter:

 

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“Estupro” em tempo real no Twitter:

 

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“Mulher machista” em tempo real no Twitter:

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A informação de que mais da metade dos entrevistados eram mulheres (68%) mobilizou pessoas como a jornalista Nana Queiroz, que criou um protesto online com o mote de “Eu também não mereço ser estuprada” no Facebook. O evento convidou mulheres a publicarem fotos nuas nas redes sociais, às 20h de sexta (28), em defesa do direito da mulher de mostrar o corpo e não ser estuprada.

“O protesto online foi a forma mais rápida de organizar as mulheres em um lugar só, em vez de fazer pequenos protestos espalhados pelo país. Na rede, cariocas, paulistas e candangas viram todas uma coisa só”, diz Nana. 

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A conversa na internet incluiu a presidente Dilma Rousseff, que escreveu em sua conta pessoal do Twitter: “Pesquisa do IPEA mostrou que a sociedade brasileira ainda tem muito o que avançar no combate à violência contra a mulher. Mostra também que governo e sociedade devem trabalhar juntos para atacar a violência contra a mulher, dentro e fora dos lares”.

 

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Tolerância zero à violência contra a mulher #Respeito

— Dilma Rousseff (@dilmabr) March 28, 2014

 

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Mulheres machistas?

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Os números divulgados não são surpresa para todas as mulheres. Em pesquisa independente feita pela organização Think Olga em setembro de 2013, 99,6% das mais de 7 mil mulheres entrevistadas afirmaram que já foram vítimas de assédio sexual. A divulgação dos dados motivou o lançamento da campanha Chega de Fiu Fiu que chama atenção para o assédio sexual em situações comuns na vida social, como na forma de cantada.

Juliana de Faria, jornalista responsável pelo Think Olga, não acredita que todas as mulheres entrevistadas pelo IPEA e que vêem relação entre comportamento da vítima e estupro são machistas.

 

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“Discutimos muito sobre ‘mulheres machistas’ nos grupos de discussão do Think Olga, mas na realidade essas mulheres não são sempre assim, apenas reproduzem o discurso para serem melhor aceitas pela sociedade. Afinal, ‘se você briga pelos seus direitos, você ganha pedrada’”, explica. Nana complementa a ideia, “o importante é não fazer das mulheres as vilãs, o culpado do machismo é o macho.”

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Para a socióloga Bárbara Castro, a “culpa das mulheres” faz parte da sociedade. “As relações de gênero tradicionais nos fazem acreditar que homem e mulher, ambos têm o seu papel. Então não me surpreendi que a maioria dos entrevistados fossem mulheres, já que é um discurso tradicional que sempre esteve presente em nossa sociedade.”, concluiu.

O debate não está restrito às fronteiras brasileiras. Um estudo realizado em 56 países, divulgado pela revista The Lancet em março deste ano, revelou que uma em cada 14 mulheres já foi ao menos uma vez na vida vítima de abuso sexual. Além disso, a pesquisa mostrou que o medo da vítima de ser responsabilizada pelo ocorrido e não receber apoio diminui o número de denúncias.

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