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Espaços de coworking para mães

Nestes escritórios compartilhados, as mulheres trabalham perto dos seus filhos. E alguns apostam: essa é uma tendência que veio para ficar

Por Simone Costa (colaboradora) Atualizado em 31 out 2016, 11h31 - Publicado em 21 out 2015, 16h06

O coworking, espaço para pessoas trabalharem de forma independente, ganhou força a partir dos anos 90 e hoje já se espalhou pelo mundo. No Brasil, de acordo com um levantamento do blog Ekonomio, existem 238 coworkings, 57% deles na região Sudeste. A novidade é que começam a surgir por aqui espaços de trabalho compartilhados com estrutura para receber crianças. Um dos primeiros do mundo foi o Piano C, em Milão, na Itália. Inaugurado em janeiro de 2013, o lugar tem estrutura para receber mães – e pais – com crianças de 0 a 3 anos e foi premiado pelo Banco Europeu de Investimentos como o melhor Projeto de Inovação social da Europa. Os coworkings brasileiros com espaços para crianças ainda são raros – há três em funcionamento, em São Paulo, Curitiba e Florianópolis, e um sendo reestruturado em Porto Alegre –, mas já há gente planejando abrir endereços assim em Belo Horizonte, Brasília e outras cidades do país. Conversamos com as proprietárias desses espaços brasileiros e com mães que os frequentam para entender como funcionam. Confira!

Casa de Viver

Divulgação
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Localizada na Vila Mariana, em São Paulo, a Casa de Viver é a pioneira entre os coworkings com estrutura para receber crianças. O espaço começou a funcionar em fevereiro deste ano. “Quando tive a minha primeira filha, a Brigite, voltei a trabalhar logo que ela completou quatro meses. Até os 5 anos, ela ficava na escolinha e me incomodava o fato de passar tão pouco tempo com ela, além de estar num trabalho com o qual eu não me identificava”, conta a tradutora Carina Borrego, de 36 anos, que hoje tem também Clara, de 1 ano. A ideia da Casa de Viver surgiu em 2013, durante um processo de coaching que Carina fazia para planejar sua saída do escritório de advocacia onde trabalhava. Ela organizou rodas de conversas com outras mães e percebeu que o empreendimento que desejava abrir era uma necessidade de outras mulheres. Nessas reuniões, Carina conheceu a psicóloga Fernanda Torres, também mãe de duas crianças, que se tornou sua sócia. 

A Casa de Viver é um sobrado com dois andares. Embaixo, há toda a estrutura de um coworking como outro qualquer. No andar de cima, o espaço é reservado para pequenos de 4 meses até 3 anos e 11 meses. Crianças acima dessa faixa etária são recebidas nos contraturnos das escolinhas. Duas cuidadoras ficam responsáveis pelas crianças, mas quem alimenta e troca as fraldas são as mães. Os planos começam em 477 reais por mês. Também é possível utilizar a hora avulsa, que custa 20 reais. A Casa ainda tem outras atividades, como ioga, teatro infantil e palestras sobre empreendedorismo. A jornalista Raquel Francese, de 35 anos, frequenta a Casa de Viver quase todos os dias desde o início do ano. Ela já trabalhava em home office antes do filho Leonel, de 1 ano e 4 meses, nascer, e planejava ficar o primeiro ano do bebê sem trabalhar, mas teve de voltar antes e sentiu dificuldades de conciliar o trabalho em casa com o recém-nascido. “Não conseguia nem abrir o computador, mas não queria levá-lo tão pequeno para uma escolinha. Quando descobri a Casa de Viver, senti como se ela tivesse sido feita para mim”, conta. Para Raquel, ter lugares como esses é positivo tanto para mães quanto para as crianças. “Lá, conheci outras mulheres na mesma situação que eu, que precisam trabalhar, mas não querem estar longe dos filhos nessa fase da vida deles. Também é um espaço importante de networking. E para meu filho é ótimo porque ele convive com crianças de idades variadas”, diz Raquel, que está grávida do segundo filho.  

Mamaworking

Divulgação
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O Mamaworking, em Curitiba, abriu as portas em setembro, mas o espaço vinha sendo pensado deste o início do ano pela publicitária Valquiria Porto, de 39 anos. Mãe de três filhos – Marina, de 8 anos, Francisco, de 6, e João, de 4. “As mulheres estão tendo filhos cada vez mais tarde e muitas têm deixado o trabalho depois que se tornam mães. O coworking com espaço para os filhos pode ser uma alternativa para aquelas que querem continuar trabalhando, sem abrir mão de toda a experiência e conhecimentos acumulados, mas também sem deixar de acompanhar de perto o desenvolvimento das crianças”, diz. Uma pesquisa da empresa de recrutamento Catho mostrou que 53% das profissionais deixam o mercado de trabalho quando os filhos nascem e, destas, 18,6% não retornam mais. Valquiria acredita que a abertura desses espaços no país pode influenciar as empresas a adotar o modelo. “As empresas começaram a perceber que estão perdendo talentos e em algum momento vão ver que apostar numa profissional que quer ter uma maternidade mais saudável e que pode ser uma boa alternativa para o negócio”, afirma Valquiria, que conta já ter sido procurada por grandes empresas instaladas na região, interessadas em conhecer o modelo.

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A pesquisadora de tendências e designer de interiores Paula Abbas, de 35 anos, prestou consultoria ao Mamaworking para a montagem do espaço e a criação da marca. Agora, esporadicamente, quando precisa se concentrar, utiliza o espaço com o filho Vincenzo, de 10 meses. “É muito bom não precisar dissociar o trabalho, que faz parte da identidade de cada um, da criação do meu filho. Quando estou no Mamaworking, fico tranquila porque sei que ele está perto, posso ir vê-lo quando quero e também tenho a oportunidade de conhecer outras mães e trocar experiências com elas”, diz. No Mamaworking, dez profissionais, quase todas pedagogas, cuidam das crianças de seis meses a 5 anos. A hora avulsa custa 25 reais e os pacotes variam de 378 reais a 1750 reais. O espaço está montando também uma agenda de cursos para mães empreendedoras. 

Casa Gestar 

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Em Florianópolis, um grupo de seis mulheres abriu a Casa Gestar. A ideia surgiu de uma delas, que coordenava o trabalho com um grupo de gestantes na cidade. “A Cris (Cris Da Ros, doula) percebeu que as mães sentiam falta de um lugar para continuar os encontros depois do nascimento dos bebês. E que, além de desejar um espaço para dividir a experiência de ser mãe, queriam uma alternativa para voltar a trabalhar”, conta a jornalista Denise Ferreira, de 34 anos, uma das fundadoras da Casa Gestar. No endereço, as rodas de gestantes continuaram a acontecer e outros cursos, como ioga para grávidas e dança materna. Também há profissionais especializados em terapia familiar, atendimento de enfermagem, consultoria em amamentação, todos voltados para as crianças e suas famílias. Para quem quer trabalhar, há a opção de pagar por uma cuidadora da Casa ou levar uma babá particular. Os valores do coworking são a partir de 15 reais a hora, com babá particular, ou 25 reais com uma cuidadora da Casa. “Eu trabalhava com assessoria de imprensa e quando o Ben, que hoje tem 2 anos, nasceu, voltei para o trabalho, mas fiquei apenas um mês. Era uma loucura ficar fora das 8 da manhã às 6 da tarde e senti que não era esse o caminho”, conta Denise. “No início, achei que ser freelancer não daria certo, mas hoje não falta trabalho e estou perto do meu filho, além de me sentir feliz por ter ajudado a criar um espaço que oferece essa oportunidade a outras mulheres”, diz.

 

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