Cynthia Almeida: “Gerenciamento do tempo é uma das grandes armadilhas para o sucesso profissional feminino”

Colunista analisa como as mulheres enfrentam as demandas do trabalho e em casa

Uma amiga me conta que tem passado um longo tempo trancada no banheiro… trabalhando. Levo um susto. Falávamos de lugares gostosos e inspiradores para trabalhar em casa e ela me diz que muitas de suas colegas executivas, com jornadas de dez a 12 horas por dia, fazem o mesmo: prolongam o expediente no banheiro, a sete chaves, acompanhadas de seu iPhone ou iPad. Minha primeira reação à escolha do home office um tanto exótico é pensar se tratar de uma opção de privacidade máxima para escapar das demandas de filhos pequenos. Outro susto: é do marido que elas fogem. Entre o cômico e o trágico da situação, fico sabendo que, às mulheres que trabalham muito (ou em proporção igual à dos homens), é tacitamente vedado pelo parceiro “levar trabalho para casa”. Sob pena de discussões, cara feia e acréscimo injusto à carga de culpa que costumam carregar por “descuidarem” de seu terceiro turno diário.

Acontece que, assim como é comum para executivos homens, às vezes as demandas profissionais não terminam quando deixam o escritório. Exatamente porque se esforçam por sair cedo, a tempo de jantar com a família e encontrar os filhos acordados, essas mulheres optam por permanecer online em casa para que possam eventualmente atender e despachar questões urgentes.

Sem pretender entrar no mérito da atitude ou discutir se a prática é saudável ou não, quero voltar ao banheiro (ops!) e aos maridos. Pergunto à minha amiga se não acha um tanto absurdo se esconder para trabalhar, como se estivesse fazendo uma travessura, e ela, bem-humorada, diz que é melhor do que os olhares fulminantes que recebia do companheiro quando precisava atender uma ligação ou responder a uma mensagem à noite ou nos fins de semana. Bastante prática, ela sai do banheiro com a maquiagem refeita ou o cabelo arrumadinho – e seu momento vaidade é recebido com mais simpatia do que o contato com o diretor ou o fornecedor da sua empresa.

O gerenciamento do tempo é uma das grandes armadilhas para o sucesso profissional feminino. E costuma-se atribuir à maternidade o principal obstáculo ao crescimento. De acordo com o senso comum, elas têm a ascensão prejudicada porque saem do jogo em prol dos filhos. Pesquisa recente com mulheres altamente qualificadas pela Harvard Business School, nos Estados Unidos, mostrou que não é bem assim. Na verdade, a opção de abandonar a carreira para se tornarem mães em tempo integral é de apenas 11% da amostra de 2,5 mil entrevistadas. A maioria – 74% das mulheres da geração X, nascidas entre 1965 e 1980 –, depois de ter filho, continua a trabalhar em média 52 horas por semana. No entanto, com uma carga de sacrifício maior. São elas que devem deixar a reunião para levar as crianças ao médico e às festinhas da escola ou abrir mão de uma promoção que exigirá mais dedicação ou viagens. Os maridos, diz o estudo, não fazem nada ou quase nada disso: priorizam a própria carreira. Elas priorizam a carreira do marido.

Como esse contrato não é explícito e muito menos firmado antes do casamento, as mulheres não se preparam para enfrentar a desigualdade na divisão de tarefas. Embora acreditem que têm os mesmos direitos e ambições em relação à profissão, assumem para si o que ficou estipulado culturalmente: que a administração doméstica, os filhos incluídos, é prioritariamente delas.

E, se não conseguem conciliar tudo perfeitamente a tempo e precisam “levar o trabalho para casa”, pedem licença e correm para o banheiro. 

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