Como explicar que a criança tem alguma deficiência?

A descoberta da deficiência de um filho gera uma série de dúvidas aos pais. Saiba como falar sobre isso com naturalidade.

 

Minha filha, de 3 anos, apresenta capacidade mental muito abaixo do normal. Não sei de que modo expor isso aos irmãos, de 4 e 7 anos. (Pergunta enviada por leitora)

A descoberta da deficiência de um filho gera uma situação complexa na família, que fica sem saber o que é certo ou errado. Não existem fórmulas para lidar com essa questão. A única certeza é que uma atitude de aceitação sincera faz mais pela inclusão do pequeno com deficiência entre as outras crianças do que qualquer explicação pronta. Mas essa aceitação nem sempre é fácil. Significa ficar feliz com o filho tal como é, sem expectativas de superação além da realidade. Ajuda saber que, embora forte no imaginário popular, a ideia de que o portador de deficiência será menos feliz não é necessariamente verdade.

Também é preciso refletir sobre de onde vem a própria necessidade de explicar a deficiência do filho. Os pequenos “leem” os adultos o tempo inteiro e captam no ar suas reações. Se houver por parte de pais e professores abertura para descobrir e aceitar as potencialidades da criança com deficiência, todo o grupo tende a reproduzir essa postura de acolhimento. O inverso também é verdadeiro, e ilude-se quem acha que crianças não manifestam preconceito desde muito cedo. Na busca de aprovação, os pequenos calibram atitudes e sentimentos de acordo com sua percepção das manifestações dos adultos. Esse é um processo inconsciente e independe do que seja dito. Por isso, no relacionamento com irmãos e com colegas, geralmente não cabem explicações extensas. Com os irmãos, vale nomear a deficiência do novo membro da família. Mesmo sem compreender as implicações, saber o nome do problema do irmão pode ter um efeito tranquilizador.

A única situação que talvez necessite de uma intervenção maior é quando se nota que um dos filhos sente vergonha do irmão. Manter-se longe dele no playground ou parar de chamar os amigos para brincar em casa pode ser indício de que essa criança sofre em função da discriminação que percebe em relação ao irmão e tem medo de ser confundida com ele. Nesses casos, uma conversa com um psicólogo ajudará a família a reforçar a autoestima e a segurança do filho que está se sentindo ameaçado. Em relação às outras crianças, o segredo é propiciar o convívio. As questões surgirão naturalmente e basta responder a elas com honestidade. Prepare-se ainda para alguns recursos tipicamente infantis de compreender uma situação, como imitar o pequeno com deficiência. Não se deve reprimir essas manifestações, pois mostram uma tentativa de empatia.

Outro bom motivo para não se estender em explicações é que ninguém sabe ao certo como o portador de deficiência irá evoluir – ou não. Até poucas décadas atrás, pessoas com rebaixamento mental tinham raras oportunidadesde desenvolvimento – então, o pouco que se sabe hoje sobre o potencial delas não pode ser generalizado. Fazer previsões sobre o que deve acontecer significa limitar as oportunidades de progresso da sua filha e alimentar o processo de exclusão.

Marie Claire Sekkel, professora do Instituto de Psicologia da USP e pesquisadora da área de educação inclusiva. É uma das organizadoras do livro Educação Inclusiva – Percursos na Educação Infantil (Ed. Casa do Psicólogo)
 

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