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Caco Barcellos: o perfil de um dos mais respeitados jornalistas do Brasil

O jornalista Caco Barcellos concilia contradições: ele é sessentão, mas aparenta menos; brilha há décadas na TV, mas nunca se acomodou; é atraente, mas vive com a mesma mulher há mais de 20 anos; trabalha muito, mas se diz um pai presente

Por Redação M de Mulher - Atualizado em 31 out 2016, 11h32 - Publicado em 26 jun 2013, 22h00

O jornalista Caco Barcellos
Foto: Divulgação

Pode parecer mentira, mas o dono dos belos olhos azuis da foto acima completou há pouco 63 anos. E esse é apenas um dos pontos intrigantes na história de Caco Barcellos. A carreira de quase 40 anos como repórter investigativo lhe garantiu um lugar entre os jornalistas mais respeitados da televisão brasileira, mas esse gaúcho já foi hippie e taxista. Nascido em família de caminhoneiros, começou a dirigir táxi logo que fez 18 anos. Só virou repórter anos depois, na Folha da Manhã, de Porto Alegre. Foi na hora de assinar a primeira matéria que Cláudio Barcelos de Barcelos – assim, com repetição, pois pai e mãe têm o mesmo sobrenome – se transformou em Caco Barcellos. Na TV, ele estreou em 1981, na equipe do Globo Repórter. E isso após rodar a América Latina escrevendo sobre as lutas populares para a imprensa alternativa.

Com uma carreira marcada pela cobertura de temas espinhosos, entre guerras, conflitos armados em geral e toda sorte de injustiça social, Caco sabe bem o que é ter medo. “Eu acho que o medo é um sentimento muito importante porque ajuda a ter juízo e bom senso”, afirma. Mas ele não é do tipo movido a inundações de adrenalina provocadas por situações de perigo. “Se pudesse escolher, preferiria não correr riscos, mas acho fundamental tocar nas questões nacionais mais delicadas”, diz, convicto. E completa: “Fico indignado com certas situações e não consigo passar batido por elas”.

OS PERIGOS

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Os vespeiros em que costuma meter a mão já o colocaram em situações pra lá de delicadas. Durante a reportagem que deu origem a seu primeiro livro, Nicarágua – A Revolução das Crianças (Mercado Aberto), em 1979, chegou a ser sequestrado por um grupo de guerrilheiros locais. Seus algozes tinham, em média, 13 anos. “Eles me pegaram pensando que eu era americano, espião da CIA”, conta. Mal-entendido desfeito, foi liberado horas depois. Acabou ficando com os garotos guerrilheiros até o fim do conflito para vivenciar o outro lado da revolução.

Caco conta que, depois de publicar o segundo livro, Rota 66 – A História da Polícia Que Mata (Record), em 1993, recebeu ameaças anônimas e preferiu sair do país “até que os ânimos se acalmassem”. Para não preocupar a mãe, Antoninha Barcelos de Barcelos, Caco costuma, até hoje, omitir seu verdadeiro destino quando parte para reportagens em zonas perigosas. Não é para menos. Uma vez, ela ficou sabendo pelo noticiário que o filho havia sido sequestrado na Colômbia. “Foi um choque”, lembra Caco.

O repórter tornou-se profundo conhecedor da complexa engrenagem que move o tráfico nas favelas cariocas durante os sete anos de pesquisa para outro livro, Abusado – O Dono do Morro Dona Marta (Record), que, lançado em 2003, virou best-seller. “Foi o trabalho de reportagem que mais me marcou do ponto de vista pessoal”, elege. “Passei muito tempo envolvido com aquelas pessoas e aprendi bastante sobre como as coisas funcionam ali.” Abusado recebeu prêmios importantes, como o Jabuti.

SANGUE JOVEM

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Atualmente, o jornalista e escritor comanda o programa Profissão Repórter, na TV Globo, no qual jovens repórteres mostram os bastidores da notícia, ou seja, o processo de produção de cada reportagem que vai ao ar. “Quem é jovem se surpreende muito mais do que os veteranos com tudo e vai querer contar aquelas histórias com mais ênfase”, defende. “Acho importante manter essa inquietude intelectual, que é uma característica mais do começo da vida profissional.” Além de apresentador, Caco é o idealizador do programa, sucesso de público desde 2006, quando entrou no ar ainda como um quadro do Fantástico. Em 2012, a atração foi até finalista do Emmy, o Oscar da televisão, na categoria atualidades.

CASAMENTO DURADOURO

Com fala tranquila, o gaúcho discorre com segurança sobre todas essas passagens. Só esboça certa timidez quando questionado sobre a fama de jornalista boa-pinta, adquirida junto ao público feminino contra a vontade dele – Caco preza pela discrição. “É, as mulheres admiram meu trabalho”, tenta desconversar o hoje dono de uma cabeleira grisalha. Em seguida, porém, admite que já foi alvo de cantadas de suas admiradoras. Durante uma reportagem no Amapá, a filha de um garimpeiro chegou a lhe ofertar pepitas de ouro. O tiro saiu pela culatra: “Eu me senti ofendido, foi como se ela quisesse me comprar”.

Como se não bastasse a investida desastrada, Caco parece só ter olhos para uma única mulher: é casado há 22 anos com a estilista Beatriz Fragelli, mãe de seus dois filhos mais novos, Alice, 14 anos, e Iuri, 21 – é pai também de Ian, 35, do primeiro casamento. Uma de suas teorias para explicar a relação duradoura é a vida dinâmica que ambos levam. “Acho importante ter histórias independentes. A rotina dos dois é bem intensa e vivemos em casas separadas. Quando nos encontramos, é para ficarmos juntos mesmo.”

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CUIDADOS COM A SAÚDE

Já o segredo para parecer mais jovem pode ser os cuidados com a saúde, que cultiva desde a juventude. Herança de sua vida hippie, ele é adepto da alimentação macrobiótica desde 1971. Outros hábitos dessa época persistem: ele não usava xampu até os 25 anos e, ainda hoje, dispensa desodorante. “Não vejo necessidade”, defende. “Dependendo dos alimentos que você ingere, o odor do corpo muda.” Caco não se considera um grande consumista nem está nas redes sociais. “É por falta de tempo, mal consigo ver meus e-mails.” Nas raras folgas, ele joga futebol, lê muito e passeia a pé, pois adora andar.

Os cuidados com o corpo são, segundo ele, menos por vaidade do que “para não morrer antes da hora“. O tema é motivo de inquietação. “Envelhecer não me incomoda; é a parte do morrer que preocupa”, diz. A preocupação é tanta que Caco desenvolveu o peculiar hábito de checar a idade sempre que lê a notícia da morte de alguém. Ele tenta amenizar. “Costumo repetir uma frase que escutei do Chico Anysio: `Não tenho medo de morrer, o que me dá é pena de abandonar a caminhada’.”

PAI PRESENTE

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Caco transmitiu a noção de alimentação saudável aos três filhos, com quem diz ter ótima relação. “Mesmo com toda minha ausência, consigo me fazer presente”, avalia. “Com o Ian, por exemplo, converso pelo telefone umas dez vezes por dia.” Conversar é uma das atividades favoritas do jornalista – e entrevistar pessoas diferentes é a parte que lhe dá mais prazer em seu trabalho. Depois de fazer inúmeras reportagens premiadas, escrever livros bem-sucedidos e angariar uma legião de admiradores, o que mais Caco Barcellos pode desejar? Muitas coisas. Para começar, sem abandonar nem um tiquinho seu Profissão Repórter, ele está louco para, de alguma forma, experimentar o cinema. Já chegou a vender os direitos de adaptação para que Rota 66 virasse filme. “Mas, como não deu certo e havia um período de validade, os direitos agora são meus novamente”, conta. “Recentemente, duas produtoras entraram em contato interessadas tanto no Rota 66 quanto no Abusado. Por falta de tempo, ainda não falamos a fundo sobre isso.” Ele pensa, ainda, em um dia se aventurar como escritor de romance. E, claro, driblar a morte por bastante tempo também está em seus planos.
 

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