“A mulher é a mola mestra das manifestações culturais negras”

A etnomusicóloga e escritora Dani Bastos conversou com CLAUDIA sobre a falta de reconhecimento das mulheres negras na cultura tradicional e popular.

No dia 20 de novembro é celebrado o Dia da Consciência Negra. Para reforçar a importância dessa data, neste mês, CLAUDIA procurou mulheres negras formadoras de opinião e militantes da causa para discutir temas como apropriação cultural, racismo e representatividade. Como resultado, lançamos uma série de entrevistas sobre a importância de se debater cada vez mais as questões raciais no Brasil.

Daniela Bastos sempre foi “brincante” como dizem em Recife (PE): brincava, participava e se dedicava às manifestações culturais tradicionais e populares de sua terra natal. O gosto era tanto que Dani trabalhou como produtora cultural de grupos regionais por 10 anos e se especializou em etnomusicologia, “a ciência intermediaria entre a Música e a Antropologia que estuda a função social da música na sociedade”, explica. Interessada e estudiosa, é autora de dois livros produzidos por meio de editais públicos: Coco de Umbigada – Cultura Popular como Ferramenta de Transformação Social e Matriarcado e Fé – a História de Mãe Fátima de Oxum. “É importante dizer que a narrativa é feita do ponto de vista de um dos segmentos mais invisíveis, anônimos e discriminados da sociedade brasileira: as mulheres negras”, destaca a escritora.

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CLAUDIA: Como foi o relacionamento com a cultura popular na sua vida?
Dani Bastos: Fui brincante desde pequena. Mas o trabalho se deu quando comecei a fazer produção para os grupos regionais de cultura tradicional e popular. A verdade é que essa cultura está aquém por falta de documentação e pela dificuldade de divulgação. O poder público, grande fomentador da cultura, tem editais burocráticos, é preciso uma pilha de documentação. Então o que eu fiz foi desenvolver esse material, com informações e fotos, e, ainda fazer aliança com as novas tecnologias, produzindo CDs e videoclipes.

Por que parou depois de 10 anos?
É um trabalho gratificante, mas muito pesado. É difícil levar equipamentos para as comunidades e complicado lidar com os homens. Eu fiquei conhecida pelo boca a boca, outros grupos se interessavam pelo meu trabalho e me chamavam. Mas havia ciúmes, eles não entendiam que eu podia trabalhar para outros grupos, eles achavam que tinham exclusividade, que eu estava traindo eles. Havia um machismo forte por eu ser mulher. Quando trabalhei com uma liderança feminina foi muito mais fácil. Parei mesmo quando participei de um edital da FUNARTE e recebi um prêmio de pesquisa com bolsa de produção crítica em culturas populares e tradicionais. Eu precisava de tempo para me dedicar, fazer pesquisa academia e de campo. Fiz uma análise desses grupos na contemporaneidade, como eles fazem para se manter vivos. O trabalho deu origem ao meu primeiro livro, Coco de Umbigada – Cultura Popular como Ferramenta de Transformação, minha primeira experiência na Literatura.

Como foi o desenvolvimento do seu segundo livro?
Foi por meio de um edital do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, o Funcultura PE. Eu foquei no estudo de Mãe Fátima de Oxum, uma Yalorixá do município pernambucano de Paulista. Assim como a maioria das mulheres negras brasileiras atualmente, Mãe Fátima não teve acesso aos estudos na década de 1950 e casou com cerca de 15 anos para sair de casa e fugir do autoritarismo do pai. Logo cedo foi vítima de violência doméstica, mas nesta época não existia divórcio e era sempre culpa da mulher por não “conseguir segurar o marido”. A muito custo, a família aceitou cuidar de seus filhos, mas não a recebeu de volta. Ela foi praticamente para a rua, tendo que trabalhar desde cedo. Ela é uma das mulheres que enfrentaram o forte machismo da matriz africana. Meu livro fala sobre os fatores discriminatórios vivenciados pelas mulheres negras brasileiras, o segmento mais anônimo, invisível e silenciado da nossa sociedade. São mulheres invisibilizadas, que não têm o seu árduo trabalho reconhecido.

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Poderia falar mais sobre essa falta de reconhecimento da mulher negra?
A mulher negra é a mola mestra de todas as manifestações culturais negras. O maracatu e as escolas de samba, por exemplo, nascem nas casas dessas mulheres. Elas bordam, lavam e passam as vestimentas, organizam as crianças, cuidam dos preparativos para que os grupos ensaiem. Mas quem aparece é o mestre, é o homem. A mulher não é reconhecida por esse trabalho e por sua força, ela fica invisível.

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Sendo uma mulher negra, como você lidou com isso na sua vida?
O Nordeste ainda é terra de coronel, com herança patriarcal. Há muito machismo. É difícil desconstruir isso. Tive e tenho dificuldade, mas estou conseguindo abrir espaço. Fiquei bem impressionada quando fui fazer uma palestra no Rio de Janeiro. Fui muito bem recebida e a minha impressão foi que a negritude tinha mais liberdade por lá.

Acha que as coisas estão mudando?
Tem uma geração mais nova que está gritando por um espaço fora da sombra. Mas elas precisam lutar contra uma relação de poder que perpassa uma questão econômica. Elas tentam sair da dependência do homem, seja quem ele for. Mas existe uma dificuldade maior para elas seguirem os estudos e encontrarem trabalhos bem remunerados. Há ainda o obstáculo dos estereótipos – muitas vezes divulgados pela Mídia – da mulher negra como a empregada ou a mulher hipersexualizada. É uma luta grande de ocupação de espaços – e lugares de poder – em todas as esferas da sociedade. Mas acho que estamos tendo avanços. Vejo uma mudança que vem brotando de dentro da fora, das próprias negras ressignificando a cultura na Moda e no Design, com uma estética mais afro.

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Você acha que medidas afirmativas são positivas?
Inicialmente, como ainda estamos lutando por espaço, sim. Temos uma produção grande da cultura negra nos terreiros, no coco, maracatu, samba, carnaval, e também no teatro, na culinária, na literatura e na área acadêmica. Mas falta incentivo e acesso aos grandes palcos, às rádios e televisões, aos jornais. O grande gargalo é a difusão. Como disse, os grupos tradicionais ainda não se apropriaram das novas ferramentas e tecnologia, e podem sofrer na mão de atravessadores. Leis, medidas afirmativas e eventos de conscientização específicos são necessários agora para fortalecer nossa busca por igualdade.