“A maldade está nos olhos de quem vê. Trata-se, antes de mais nada, de uma fantasia”

A convite de CLAUDIA, duas pessoas com opiniões diferentes discutem a polêmica do pai que vestiu o filho de macaco Abul, amigo do personagem Aladim, no Carnaval. Confira o texto do jornalista Mario Mendes

Um pai vestido de Aladim, que fantasiou o filho do macaco Abul, amigo do personagem, foi criticado nas redes sociais neste carnaval. O episódio aconteceu em Belo Horizonte, quando o produtor de teatro Fernando Bustamante e sua mulher, Cintia, que estava vestida de Jasmine, postaram uma foto no Facebook da fantasia em família. Mateus, filho do casal, é negro e adotado. Depois da enxurrada de comentários, Bustamente se desculpou publicamente, dizendo que “Muitos podem ver um macaco na fantasia de ontem. Eu vejo o melhor amigo do Aladim, que vai conhecer o mundo ideal com ele e a Jasmine”. Para discutir a polêmica, convidamos pessoas de posições diferentes para escrever sobre o tema. O jornalista Mario Mendes vê as críticas das redes sociais como um exagero: “Como reza aquele surrado – porém verdadeiro – clichê, a maldade está nos olhos de quem vê. O que se pode perceber pelas fotos é o garoto Mateus bem feliz, se divertindo no colo do pai”. Já a professora de arte e cultura africana Renata Felinto, acredita que os pais da crianças devem revisar suas atitudes, já que agora são responsáveis por um menino negro: “Fernando e Cintia precisam estar atentos ao que está cristalizado como brincadeira, são essas sutilezas aparentemente inofensivas que ferem e constrangem, que estruturam o racismo brasileiro”. 

A seguir você confere o posicionamento de Mario Mendes. O texto de Renata Felinto pode ser lido AQUI

Abu, seu lindo!

Por Mario Mendes*

Demorei um dia inteiro – uma eternidade em se tratando de comunicação on line – para me inteirar completamente sobre a polêmica carnavalesca envolvendo o casal Cintia e Fernando Bustamante, que saíram para brincar o Carnaval em um bloco fantasiados como personagens de desenho animado da Disney. Ele foi de Aladim, ela de princesa Yasmin e o filho Mateus, vestido como o macaquinho Abu, o mascote e melhor amigo do herói das Mil e Uma Noites. Até aí tudo muito bom tudo muito bem, não fosse o fato dos pais serem brancos e a criança negra – ele foi adotado pelo casal. Pra que? O céu caiu sobre as cabeças dos pais, imediatamente condenados ao linchamento virtual praticado com grande vigor e entusiasmo nas redes sociais.

Bustamante só não foi chamado de santo, de resto não faltaram indignação – no melhor dos cenários – e achincalhe violento e até ameaças – no pior – por parte dos atuais guardiões da moral e dos bons costumes que fazem do ambiente em rede sua tribuna favorita para decidir quem deve viver ou morrer nessa versão cibernética do circo romano.

Como atravessamos tempos de forte caráter conservador moralista – à direita e à esquerda do Pai – com o politicamente correto adotado como medida ideal para todas as coisas sob o céu que nos protege, Fernando e Yasmin receberam o veredito do polegar para baixo. Não só foram declarados racistas – e, portanto indignos – como também pais negligentes entregando a criança desamparada a toda sorte de vilipendio por parte da sociedade branca dominante que agora, com certeza, irá exercer o direito chamá-lo de “macaco” pois conta com a permissão paterna. Como se a intenção dos pais fosse única e exclusivamente humilhar uma criança negra que, claro, foi adotada com a pior das intenções. Aquele mecanismo perverso grande companheiro dos que estão sempre dispostos a atirar a primeira pedra – ou atirar para matar, escolha a sua arma.

Gostaria de esclarecer que chamei a polêmica de “carnavalesca” simplesmente por ter acontecido durante o Carnaval, porém não há como desprezar seu caráter chanchadesco. É preciso lembrar que trata-se, antes de mais nada, de uma fantasia e o personagem Abu, além de fofinho e querido o público infantil, possui um caráter positivo de protagonismo empoderado dentro da narrativa de Aladim – estou usando termos correntes muito queridos pela ala progressista para ser melhor compreendido pela patota inserida no contexto. E o que se pode perceber pelas fotos, é o garoto Mateus bem feliz, se divertindo no colo do pai, sem qualquer demonstração de ataques por parte dos foliões – o tribunal do Santo Ofício digital se constituiu mais tarde, diretamente do ambiente seguro diante da tela do tablet e do computador. Uns protestaram: “Por que não o fantasiaram de gênio?”. Alguns se indignaram: “Vergonha!”. Outros sugeriram, sem a menor noção: “Por que não vestiram a roupa de outro animal?”. E houve até os revoltados de sempre com seu mantra patético: “A culpa é do PT!”.

O que mais me surpreendeu nesse episódio não é a turba ignara ávida por uma demonstração violenta de força – estão aí os altos índices de audiência dos programas policiais na TV aberta, que não deixam a menor sombra de dúvida – mas o posicionamento de gente bem posta, aparentemente bem pensante e até reconhecidos intelectuais declarados – esses bradando reluzentes títulos acadêmicos, como um estandarte de virtude infalível – engrossando o caldo da insensatez histérica que deseja, acima de tudo, eleger algozes e vítimas.

Fernando Bustamante ainda entrou no jogo e chegou a pedir desculpas publicamente. Por que? Por ter levado a família pra se divertir no Carnaval? Por que, se foi ele quem recebeu uma enxurrada de xingamentos e agressões pelo fato de alguém se sentir ofendido com uma criança fantasiada como um inocente personagem de desenho animado?

Como reza aquele surrado – porém verdadeiro – clichê, a maldade está nos olhos de quem vê. Ou como ouvi alguém dizer outro dia, diante do coitadismo generalizado que insiste em problematizar até a gargalhada como instrumento de opressão sobre quem não possui a dentição completa: “Desce da cruz porque estamos precisando de madeira”.

De minha parte ainda prefiro o espetáculo mambembe estrelado por Monga, a Mulher Gorila. Empoderada e colocando todo mundo pra correr. #oremos     

 

*Mario Mendes, 57, é jornalista de época. Atuou em veículos como Interview, Folha de S.Paulo, IstoÉ, Vogue, Elle, Trip e, mais recentemente, Veja. No momento é profissional independente produzindo conteúdo impresso e online, além de fazer a curadoria para a edição 2016 da Flica (Festa Literária de Cachoeira – BA). Declara-se um adicto em redes sociais e não resiste a uma polêmica virtual.