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A importância de ressignificar o fim

A roteirista e escritora Inês Stanisiere escreve, para CLAUDIA de dezembro, sobre como perder o medo do fim e encará-lo como a chegada de um novo começo

Por Inês Stanisiere* - Atualizado em 22 dez 2019, 09h00 - Publicado em 22 dez 2019, 08h00

O ano está acabando. E mais uma vez todo mundo é pego de surpresa: “Nossa, como passou rápido!”, “Menina, já é Natal, você viu?”. A lista do que não tivemos tempo de fazer toma conta das conversas.

Um fim anunciado, previsto e calculado, mas que assusta. Não gostamos de finais. Preferimos os começos, as renovações solares, a celebração do que ainda virá. Mas, sem o fim, não existe o novo. Por isso, este é um texto sobre o fim. É sobre o medo de deixar as coisas terminarem. É sobre o medo de deixar ir embora. É sobre o medo de não ter um amanhã.

Existem finais tão naturais que parecem ser sorrateiros. Chegam de mansinho e emitem sinais fracos, que exigem atenção para percebê-los. Às vezes, acaba de uma vez, pra sempre. Às vezes, vai acabando devagar, aos poucos. Às vezes, acaba e a gente nem nota. Às vezes, é a gente que espera e celebra o fim de uma etapa. Às vezes, dói. Muito.

E a gente chora. O fim de uma amizade. O fim de um amor. O fim de um trabalho. O fim de um livro. O fim de um espetáculo que deixa você com os olhos mais vivos. As despedidas no aeroporto. O fim de uma viagem. O fim de um abraço que vai demorar para acontecer de novo.

Outras vezes, a gente fica feliz, sabe que o final é alívio. É esperado, desejado e até sofrido. Parece nunca chegar! Faz das horas sinônimo de angústia. Tem gente que não aguenta. Toma uma pílula para deixar de sentir. Tem gente que nem sequer se deixa sentir, melhor negar.

O fim de um ciclo. As gavetas estavam bagunçadas fazia meses. Mas, de repente, você descobre que é hora de arrumá-las, de reorganizar, de jogar fora e abrir novos espaços. Por que agora e não antes? Porque agora terminou. De vez.

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O fim da vida. Semana passada estava numa festa com amigos e pais de amigos. Dona Clarice, 73 anos, dançava feliz. Na terça-feira, ela preparava o almoço quando se deu conta de que faltava pimentão para a receita. Foi ao mercado como sempre fazia. Escolheu alguns pimentões e começou a passar mal. Desmaiou. Teve um AVC. Chegou ao hospital 20 minutos depois, já sem vida.

O fim pode ser inesperado, abrupto, cruel. E muitas vezes ele dá é medo. Sempre o medo à espreita. O medo do fim, de arriscar, de começar de novo, de experimentar o desconhecido, o medo de não se reconhecer, de não reconhecer o outro ao seu lado. Mas até ele, o medo, acaba também. Um dia passa. E a gente percebe que começa tudo outra vez.

Às vezes é você que precisa entender que o fim já está. Às vezes é o outro que esfrega o final na sua cara e faz doer. Dói meses até passar.

O começo de uma nova amizade. Quando você menos espera, já faz parte da sua vida. Um novo convite de trabalho que surge e ilumina seu sorriso. A roupa nova para combinar com a sua alma que está mais leve. O frio na barriga ao chegar no primeiro dia de trabalho, com colegas que nunca a viram antes.

Os pequenos finais, os grandes começos, as grandes aventuras. É tudo uma coisa só. Quando uma coisa termina, outra começa. E, daqui a pouco, tudo de novo. O fim. O início.

A vida acontecendo e, se você for esperta, vai com ela de mãos dadas, sem brigar muito! Um brinde ao fim porque, na página seguinte, são os começos que já nos esperam!

*Inês Stanisiere é roteirista e escritora. Lançou recentemente Das Coisas Escondidas Dentro de Mim e Que Dão Medo (Letramento).

Inês Stanisiere
Divulgação/Reprodução
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