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Therezinha Zerbini: “Eu faria tudo de novo, com a mesma ousadia”

Morreu, neste sábado (12), em São Paulo, Therezinha Zerbini, fundadora do Movimento Feminino pela Anistia. Relembre as ações audaciosas da mulher de general que desafiou a ditadura militar.

Por Patrícia Zaidan Atualizado em 22 out 2016, 23h02 - Publicado em 16 mar 2015, 05h45

A paulistana Therezinha Zerbini nunca teve dúvida. “Eu faria tudo de novo, com a mesma ousadia”, disse em entrevista a CLAUDIA, em 2012, sobre sua luta contra o regime militar. E não foram poucos os atos de petulância. Quando o marido, o general Euryale de Jesus Zerbini, foi cassado por rebelar-se contra o golpe de 1964 e empregou-se como gerente numa fábrica no interior paulista, Therezinha permaneceu na resistência, na capital. Providenciava médico para estudantes feridos em passeatas, documentos falsos para militantes saírem do país e abrigo para perseguidos. “Nunca deixei de abrir a porta a ninguém”, contou. Até fuzis no quintal Therezinha escondeu.

Na Quarta-Feira de Cinzas de 1970, um certo capitão Guimarães tirou-a de casa. O marido tentou impedir e ela lhe disse: “Entrei nisso sozinha, vou sair sozinha”. Aos 42 anos, Therezinha seguiu no camburão, enfrentou interrogatórios e foi recolhida no Presídio Tiradentes. No dia do julgamento, a filha Eugênia, então com 16 anos, levou um tailleur preto e um colar de pérolas para ela: “Mamãe foi como uma rainha para a Auditoria Militar”. Horas depois, voltava à prisão condenada por ajudar na organização do Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna.

Até na prisão, mostrou voz de comando: “A cozinha ficava do lado de uma fossa. Chamei o diretor do presídio e ameacei denunciá-lo à saúde pública se não construísse outra”. Terminada a obra, organizou as presas para se revezarem nas panelas. “Elas achavam que cozinhar era um ato burguês e se irritaram”, contou. Quem abrandou a fervura foi uma líder de óculos grossos chamada Dilma Rousseff, atual presidenta da República: “Se queremos mudar o país, precisamos, antes, mudar a nós mesmas”. Nos fins de semana, o marido de Therezinha levava 100 pastéis e dez frangos assados para ela repartir com as colegas.

Livre, criou o Movimento Feminino pela Anistia, em 1975. “Ela foi a dona de casa que denunciou a violência e a tortura numa época de silêncio e medo”, diz o jornalista Paulo Moreira Leite, que relata em livro a história de oito civis que resistiram à ditadura. A obra leva o título do texto dedicado a Therezinha: A Mulher Que Era o General da Casa (Arquipélago). Hoje, enquanto o país revê os crimes do período duro, ela ainda se revela uma militante firme: “Sou um perigo público. Não sou lógica, mas intuitiva. Minha loucura é sagrada”.

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