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#TemQueFalar: “Ele me estuprou e disse que a culpa era minha por usar um vestido”

A leitora Alessandra*, de 36 anos, relata o estupro sofrido após um assalto. Depois da violência, o abusador disse que ela havia provocado.

Por Redação CLAUDIA - Atualizado em 22 out 2016, 17h31 - Publicado em 5 nov 2015, 16h27

Nas últimas semanas, as mulheres brasileiras se uniram em torno do tema #PrimeiroAssédio, capitaneado pelo grotesco ataque sofrido por uma participante do MasterChef infantil – ela tem apenas 12 anos. A mobilização levou muitas delas a compartilhar em suas redes sociais casos semelhantes ou ainda mais graves, que deixam sequelas profundas em suas vítimas. Algumas delas, porém, preferiram guardar suas histórias para si, por medo de ser identificadas por seus agressores. Publicamos a história de uma leitora que, 15 anos após um ataque sexual, ainda tem medo de ser encontrada. Não demorou para que outras mulheres nos procurassem: Gabriela*, Marcela*, Mariana*. Em comum, o desejo de dividir seus traumas, medos e culpas. Especialistas apontam que falar sobre eles é uma das maneiras eficientes de superá-los. Por isso, criamos o movimento #temquefalar. Um espaço de cura, que incentiva a troca de experiências e, sobretudo, traz o assunto à tona, para evitar novas vítimas entre crianças e mulheres. 

Leia o relato compartilhado pela leitora Alessandra*

 

“Vi os posts sobre a campanha #temquefalar e me senti à vontade para falar da minha própria experiência.

Há exatos 20 anos atrás, quando eu tinha 16 anos, sofri o primeiro sequestro relâmpago da minha cidade, Goiânia. Estavamos eu, uma prima e um primo e procuravamos um caixa eletronico para sacar dinheiro. Nessa época caixas eram bem poucos e dificeis de funcionar. 

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Paramos para pegar informação com o segurança de um Banco do Brasil. Estava claro e era aproximadamente 18h00. Eu estava sentada na frente do carro, minha prima dirigia e meu primo estava no banco de trás. O vidro estava aberto uma pequena fresta, e foi nessa mesma fresta, muito rápido, que um assaltante colocou a arma no meu peito e me mandou abrir a porta. Mais que rápido, sem entender ainda o que acontecia eu abri e eles entraram no carro. 

Com a arma na cabeça do meu primo, eles davam os comandos. Eram 2, um muito mal e um levado pela situação. Não tinham nada a perder. Estavam em busca de dinheiro mas nós não tínhamos. Eramos adolescentes que queria ir para uma festa. Eu com 16 anos era virgem. Tinha um namorado da minha idade e estava esperando o momento ideal para poder ter minha primeira relação sexual com ele.

Foi muito tempo com os assaltantes, aproximadamente 5 horas. Um assumiu o volante depois de um tempo. Corriam, dirigiam na contramão, davam “cavalo de pau” e nós éramos ameaçados todo o momento. Passavam a mão em mim e na minha prima. Não podíamos olhar para eles. Pediam tudo, relógio, brinco, corrente, e dinheiro. Colocaram meu primo no porta-malas e todo o momento paravam dizendo que ia mata-lo. Era desespero, pedíamos pelo amor de Deus. Oferecíamos tudo, o carro, coisas de nossa casa e eles não queriam.

Horas depois, em busca de dinheiro e não conseguimos tirar o pouco que tinha no banco pararam em um lugar deserto, só mato próximo a um grande shopping, o Flamboyant. Hoje uma região bastante nobre. Um ficou comigo com a arma apontada para a minha cabeça, o outro entrou com a minha prima no shopping, abraçando e beijando, o objetivo era despistar os seguranças e tirar o dinheiro. Pessoas conhecidas a viam e não entendiam porque ela estava com um cara tão feio, estranho e velho. Ela tinha apenas 21 anos.

Eu fiquei com a arma na cabeça e ele me mandava fazer tudo. Levanta, sai do carro, me chupa, chupa mais, chupa direito. Eu não sabia o que era chupar um homem, nunca tinha feito. Fiquei ali, com a arma no meu ouvido tentando satisfazê-lo. Meu primo no porta-malas ouvindo tudo, chorando sem fazer barulho. 

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E o homem continuava, agora levanta. Me apoiou no carro. Levantou meu vestido com a arma e assim começou a me penetrar, a arma foi para a minha nuca. Estava carregada. A dor era gigante, nunca tinha feito aquilo. Eu pensava no meu primo, na minha vida, no meu pai, na minha mãe, dava graças a Deus de ainda poder fazer algo para que todos sobrevivessem. Não satisfeito começou um sexo anal, eu não podia chorar, não podia falar nada, me ameaçava, bateu o revolver na minha cabeça porque eu chorava e estava dificultando. Tinha que engolir o choro, a dor era imensa. E eu pensava no meu namorado, no meu pai, como eu ia contar aquilo. 

Ele se satisfez, me mandou vestir a roupa. Falou que a culpa era minha, de usar “aquele” vestido. Era um vestido de seda, amarelo clarinho, soltinho que eu amava. Ficou tudo sujo de sangue, o carro, o vestido. Me colocou sentada no carro, com a arma na cabeça, satisfeito e foi em busca do meu endereço, do que meus pais tinham de dinheiro e eu tinha que falar tudo, todas as informações. Meu primo dentro do porta-malas sem poder nem respirar forte.

Tempos depois minha prima chegou com o outro assaltante e sem dinheiro. Eu estava em estado de choque, não tinha nenhum tipo de reação. Ela entendeu que o pior ja tinha acontecido. 

Todos entraram no carro, a arma continuava na minha cabeça. Eles dirigiram ate a Avenida Assis Chateubriand e nos deixaram la, com carro e tudo, menos a minha virgindade e a nossa dignidade. Muita pressão psicológica, ameaças e não conseguimos ir para a delegacia, fomos para a casa dela. A mãe dela preocupada porque não sabia onde estávamos, tinhamos saido para voltar rapidinho. Os meus pais achavam que eu estava tranquila na festa me divertindo.

Passamos todos a noite em claro, e eu estado de choque. Não chorava, não falava, não sorria, não conseguia ter nenhuma reação e sentia dores. Minha tia esperava o dia amanhecer para ligar para o meu pai, irmão dela. O grande pai de todos, super conservador, super pai, super ciumento. O estado de choque alastrou pela minha família, mas o meu super pai chegou rápido, umas 8h00 da manhã recebeu a trágica noticia. 

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Ele me preservou, não fui fazer exame delito e nem retrato falado. Ele não queria me levar para o IML e nem para a delegacia. Queria me levar para o ginecologista e para o psicologo e assim fez. Já tinha me levado o que eu tinha de mais precioso e ele queria preservar o que tinha ficado, sabia que o exame de corpo delito seria uma outra agressão. Me expor daquela forma poderia trazer mais danos, talvez irreversíveis.  Veio um advogado conversar comigo. Meus primos foram fazer o retrato falado e eu fiquei.

Quando consegui conversar, horas depois, liguei para o meu namorado que recebeu a trágica noticia e teve toda a paciência do mundo comigo nos próximos meses, onde eu não conseguia nem receber um simples abraço ou um aperto de mão.

Durante muitos meses fazia exames regularmente e pelos próximos 4 anos. HIV, hepatites, sifilis etc. Meu pai me acompanhava em tudo. Sempre calado, reservado, sofrendo e do meu lado. A cada picada de agulha era um alivio em saber que os resultados estavam sempre vindo negativos.

Fui para terapia, estava com mania de perseguição. Não falava sobre o assunto Meu pai me levava e me buscava. Não tinhamos condições financeiras na época, mas ele tirou de onde pode para pagar uma psicóloga que foi muito bem indicada e cara, muito cara. 

Um ano depois consegui ter a minha primeira relação sexual com o mesmo namorado. Ele estava paciente e o amor era gigante. Muito compreensivo com meus traumas e foi tudo lindo.

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De la para cá já sofri outros tantos abusos, mas nada parecido com esse. Cantadas mais grosseiras, tio que tenta passar a mão, homem que me seguiu de carro e eu correndo e ele com o pinto de fora. Enfim, “n” situações, mas que nada se compara ao terror que vivi. Primeiro sequestro relâmpago da cidade de Goiania com estupro. Nada pior.

Mas o que ficou para mim foi o amor da minha família, como todos, sem exceção se preocuparam comigo, me trataram bem, me acolheram, me deram conforto e segurança, e principalmente o meu pai, agora já falecido, que foi um super pai. 

Tive muitos namorados depois e a maioria não souberam o que aconteceu comigo. Não me sentia confortável para falar, inclusive com o atual, mas uma hora eu conto para ele. Não tenho problemas sexuais, nem psicológicos com o ocorrido. A poucos anos levei para a análise e vi que o que posso fazer com essa minha experiencia eh ajudar crianças, adolescentes, mulheres que sofreram estupros a recuperar sua auto-estima, sua dignidade. Não sei como farei isso, mas tenho muita vontade, então estou começando por aqui. 

Contar essa trágica historia me trás lembranças ruins e cruéis, mas que foram trabalhadas, estudadas, e superadas por mim. Meu trabalho interno foi duro, mas eu consegui. Muito obrigada pela oportunidade e parabéns pela bela campanha!

#TEMOSQUEFALAR”

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*Nome fictício. 

Se você também quiser dividir o seu relato com outras leitoras, envie para redacaoclaudia@gmail.com. A sua identidade será preservada.

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