#TemQueFalar: “Aos 6 anos, eu era obrigada a assistir meu padrasto se masturbando”

A leitora Camila*, de 24 anos, relata os abusos sofridos na infância. O agressor era seu padrasto e a rotina de violência durou 8 anos.

Nas últimas semanas, as mulheres brasileiras se uniram em torno do tema #PrimeiroAssédio, capitaneado pelo grotesco ataque sofrido por uma participante do MasterChef infantil – ela tem apenas 12 anos. A mobilização levou muitas delas a compartilhar em suas redes sociais casos semelhantes ou ainda mais graves, que deixam sequelas profundas em suas vítimas. Algumas delas, porém, preferiram guardar suas histórias para si, por medo de ser identificadas por seus agressores. Publicamos a história de uma leitora que, 15 anos após um ataque sexual, ainda tem medo de ser encontrada. Não demorou para que outras mulheres nos procurassem: Gabriela*, Marcela*, Mariana*. Em comum, o desejo de dividir seus traumas, medos e culpas. Especialistas apontam que falar sobre eles é uma das maneiras eficientes de superá-los. Por isso, criamos o movimento #temquefalar. Um espaço de cura, que incentiva a troca de experiências e, sobretudo, traz o assunto à tona, para evitar novas vítimas entre crianças e mulheres. 

Leia o depoimento de hoje, compartilhado pela leitora Camila*:

 

“Quando eu tinha 6 anos, a minha mãe, que a essa altura já tinha 3 filhos de pais diferentes, conheceu meu padastro. Ele ofereceu um quartinho em cima da casa da mãe dele. Para ela, aquilo era maravilhoso, afinal, ‘não é qualquer homem que aceita uma mulher com 3 crianças à tira colo.’ 

Nos primeiros dois meses, ele já começou a nos bater. Ele não trabalhava e minha mãe também não. Nós vivíamos da ajuda de parentes e, ainda assim, ela logo engravidou de um menino dele. Os dois descontavam todas as frustrações em nós, crianças. 
Dormíamos todos no mesmo quarto: minha mãe, ele e o último filho na cama; eu e meus irmãos no chão.  No início, os abusos aconteciam ali mesmo. Eu acordava assustada com as mãos dele dentro da minha roupa. 

Logo depois, minha mãe, acredito que percebendo o que acontecia, decidiu que eu deveria dormir em outro quarto – que era de um sobrinho dele que viajava muito. Isso não mudou muito as coisas. Ele ia para esse quarto toda noite, levantava a cortina verde – eu tinha seis anos e lembro-me de cada detalhe – e se masturbava, enquanto me mandava assistir para ‘aprender’. Em seguida, jogava água no chão para lavar o esperma e ia dormir com a minha mãe.  Se eu não chorasse e contribuísse para com suas nojeiras, eu poderia comer no dia seguinte. 

A minha mãe fingia não saber e, mesmo notando que eu era privada de alimento devido ao “mau” comportamento na noite anterior, ela não se metia. Com o tempo, os abusos foram aumentando: vinham acompanhados de surras e humilhações frequentes. Eu tinha uma oração diária em que eu pedia a Deus para dormir direto. 

Depois de um tempo, eu acordava, no meio da noite, com ele empurrando o pênis em minha boca. Ele me ensinava a masturbá-lo e dizia ‘custa muito se comportar?’. Eu era uma criança, realmente criança, daquelas que não sabia como era possível haver penetração – e ele costumava dizer que isso aconteceria em breve. Eu era uma criança, mas já sabia o que era passar noites em claro com medo, sabia o que era sentir culpa, mas não entendia o contexto de tudo o que estava acontecendo.

Quando completei 9 anos, contei ao meu primo. Assisti ao “Linha Direta” [Extinto programa policial, veiculado pela Rede Globo], que apresentou um caso como o meu, e disse:  ‘Acho que passo por isso tudo’ .

Meu primo contou aos familiares, que levaram o assunto para a minha mãe – a essa altura com cinco filhos e grávida de mais um. Ela brigou com ele e me deixou na casa da minha avó alguns dias. Quando foi me buscar, disse: ‘Eu também já passei por isso com meu pai e não morri. Preciso de você para me ajudar com as crianças’. 

Com um tempo, a minha mãe me mandou dormir na laje sem cobertura para me afastar dele, mas os abusos só aumentaram. Esse sofrimento só acabou quando eu fiz 14 anos, comecei a namorar e decidi que jamais passaria por isso de novo. Depois de uma surra, fui embora e nunca mais voltei. 

Sofri muito, lutei muito, passei por outros violentadores e hoje vivo sozinha em outro Estado. Trabalho e estudo Psicologia para ajudar crianças que vivem o mesmo drama que eu. Foi muito difícil me restabelecer psicologicamente. Eu sentia muita culpa e, quando não passava em uma entrevista de emprego, por exemplo, pedia perdão a Deus pelo que eu havia feito quando criança. Hoje sei que eu não fiz nada.  Minha vida sexual só veio ser satisfatória atualmente, aos 24 anos, e ainda assim não é plena.  

A vida para quem sofre esse drama não é fácil, as marcas são eternas e a luta para superar o passado sofrido é constante. 
Precisamos falar sobre isso para ajudar pessoas que vivem esse drama. O meu maior sonho na vida é que todas as crianças tenham direito a uma infância feliz sem sofrimentos.”

*Nomes trocados a pedido das autoras.

Se você também quiser dividir o seu relato com outras leitoras, envie para redacaoclaudia@gmail.com. A sua identidade será preservada.

 

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