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Superação: “Saí de uma comunidade carioca para dançar nos melhores palcos do mundo”

A bailarina Mayara Magri conta sua trajetória até o corpo do Ballet Royal, em Londres. Ela faz parte dos mais de mil jovens beneficiados pelo Projeto Dançar a Vida, idealizado pela vencedora do Prêmio CLAUDIA 2013, Nelma Darzi.

Por Solange Azevedo Atualizado em 28 out 2016, 03h52 - Publicado em 9 set 2014, 22h00

Depoimento de Mayara Magri, bailarina, 20 anos

“Nunca imaginei que seria cumprimentada pela rainha da Inglaterra. Mas eis que eu estava ali, na sede do The Royal Ballet, em Londres, quando aquela senhorinha simpática e elegante de cabelos brancos surgiu nas coxias para parabenizar os integrantes da mais famosa companhia de balé do mundo, da qual faço parte oficialmente desde 2012. Ao vê-la me estender a mão, um filme passou na minha cabeça.

Eu tinha 8 anos quando disse à minha mãe que queria aprender a dançar. Mas meu pai dava duro como taxista para nos sustentar, e gastar dinheiro com isso estava fora de cogitação. Só que minha vontade crescia e eu deixava claro que queria muito.

Um dia, minha mãe vestiu meias-calças em mim e nas minhas duas irmãs, prendeu nossos cabelos em coques e nos levou à Escola de Dança Petite Danse, na zona oeste do Rio. Lá funciona o Projeto Dançar a Vida, idealizado pela professora Nelma Darzi, que ensina balé para crianças carentes. Ficamos desapontadas ao saber que não havia vagas. Sorte que tia Nelma estava por perto, deu de cara com nossos olhares pidões e não resistiu: deixou que participássemos da aula daquele dia. Ao final, disse ter ficado bem impressionada e nos aceitou. Sabia que meu destino começava a ser traçado naquele momento.

Contava as horas para ir à Petite Danse. Apesar de não precisarmos pagar mensalidade, comprar sapatilhas e tutus para as três garotas não era fácil. Minha mãe, então, resolveu trabalhar com transporte escolar para ajudar nas despesas.

Para não termos de, depois do colégio, passar em casa, na comunidade Mata Machado, a gente comia marmita dentro do carro e trocava de roupa ali mesmo. Quando as sapatilhas ficavam muito sujas, minha mãe as esfregava bem no tanque e pedia para o sapateiro endurecer as pontas com tachinhas, já que um par novo não custaria menos de 100 reais.

Eu tinha 10 anos quando me apresentei sozinha pela primeira vez em um festival de dança. Foi mágico. A professora escolheu a variação de repertório Cupido, do balé Don Quixote. Eu não entendia completamente o enredo, mas o palco, esse, sim, nunca me assustou.

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A partir dali, as coisas começaram a acontecer depressa. Aos 14, já tinha ganhado muitas medalhas em festivais nacionais. Aos 16, meu maior projeto era conquistar uma bolsa para estudar fora. Quando Patrícia Salgado, minha então professora, e eu ficamos sabendo que a primeira colocação no Festival de Dança de Joinville de 2010 valeria uma vaga com despesas pagas para o festival de Córdoba, na Argentina, fizemos a inscrição. Para minha alegria, fiquei em primeiro lugar.

Mais do que reconhecimento, no entanto, a vitória me garantiria concorrer no Grand Prix de Lausanne, na Suíça, no ano seguinte. O prêmio, nesse caso, seria uma bolsa de estudos na conceituada The Royal Ballet School, em Londres. Passei a ensaiar ainda mais horas por dia e, para competir, escolhi a variação feminina do balé Coppélia, que, além de muito bonito, tem um toque de humor. Concorri com 43 bailarinas de 12 países e ganhei. No mesmo ano, venci o Grand Prix de Nova York.

No meu embarque para Londres, em setembro de 2011, foi o maior chororô no aeroporto. Meus pais, que sempre me apoiaram, deram muita força. Chegando lá, foi uma emoção imensa constatar que estava ao lado de grandes estrelas do The Royal Ballet, as mesmas que eu assistia em vídeo. Imagina só: saí de uma comunidade carioca para dançar nos melhores palcos do mundo.

Para completar meu conto de fadas, terminada a bolsa, fui contratada pelo Royal Ballet como bailarina profissional e ainda encontrei em Londres um amor, o Joseph, que não é da dança. Nesse meio tempo, minha irmã mais nova, Mayanie, também se saiu bem como bailarina e ganhou uma bolsa para estudar em Sttutgart, na Alemanha. Atualmente, ela faz parte de uma companhia de Nice, na França. Apenas minha irmã mais velha, Melanie, trocou o balé pelo curso de engenharia de produção e acaba de se formar.

Outra alegria foi ver meus pais na plateia da Royal Opera House, na Inglaterra. Durante um ano, eles juntaram dinheiro para aquela viagem, mas valeu a pena. Sem o Projeto Dançar a Vida, isso tudo não seria possível. É danada a tia Nelma: quando ela disse para minha mãe que eu iria ganhar o mundo, não estava de brincadeira.”

Projeto Dançar a Vida

Criado pela carioca Nelma Darzi, vencedora da categoria Cultura do Prêmio CLAUDIA 2013, o Projeto Dançar a Vida já beneficiou mais de mil crianças e adolescentes carentes do Rio de Janeiro – 52 deles vivem atualmente da dança.

As votações para o Prêmio CLAUDIA 2014 acontecem até dia 30 de setembro. Ajude a recompensar o trabalho de mulheres como Nelma Darzi. Vote!

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