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Luta pela liberdade: como quatro mulheres superaram a realidade em seus países

Conheça personagens do Irã, Afeganistão, China e Coreia do Norte que tentam superar os desafios de ser mulher em países que as privam de liberdades básicas, do desenvolvimento de seus talentos e da realização de seus potenciais.

Por Redação M de Mulher Atualizado em 28 out 2016, 04h36 - Publicado em 10 jun 2014, 22h00

Niloofar Moghaddam é admirada pelos praticantes de Parktour no Irã. Em relação a eles, está sempre em desvantagem
Foto: Adam Dean

A iraniana que pratica parkour em Teerã

Se não tivesse de usar véu, a iraniana Niloofar Hasan Moghaddam já teria ido muito mais alto. Fera do parkour, ela parece voar quando está em ação: salta muros, equilibra-se em grades, aterrissa em telhados. Chega a pular de alturas de 5 metros. Em Teerã, onde vive, é considerada uma das melhores pelos meninos que praticam o esporte. Em relação a eles, no entanto, Niloofar estará sempre em desvantagem. “O lenço tira a visão lateral e limita os movimentos”, diz.

Símbolo da modéstia e da virtude das muçulmanas, o pano que recobre a cabeça das mulheres faz parte da história do Irã há 14 séculos, mas nos últimos 80 anos vem infernizando a vida delas – e cada vez por um motivo diferente. “Nesse governo, as mulheres não andarão mais nuas”, anunciou o aiatolá Khomeini em 1979. Dois anos mais tarde, todas as iranianas com mais de 9 anos de idade passaram a ter de cobrir os cabelos e esconder os contornos do corpo com roupas compridas ou o xador, uma veste negra, sob pena de serem submetidas a 74 chibatadas.

Algumas décadas antes, porém, alguém as havia mandado fazer precisamente o contrário. Em 1934, quando o Irã ainda vivia sob um governo secular, o xá Reza Pahlevi voltou de uma viagem à Turquia encantado com a modernização que vinha promovendo lá o seu colega Kemal Ataturk. Resolveu proibir o que considerava ser uma incômoda lembrança do passado tribal da sua nação. As mulheres que saíssem às ruas de xador teriam a veste rasgada pelos guardas do regime.

Como para boa parte das iranianas daquele tempo aparecer diante de estranhos sem o manto preto soava inimaginável, muitas preferiram se autoconfinar em casa. Põe véu, tira véu, o resultado é que há quase um século as iranianas não podem se apresentar em público como bem entendem.

 

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Na parede da sala de Sabzina Hasanzada, o retrato do marido ausente ocupa lugar de honra
Foto: Adam Dean

A afegã que teme pela filha que quer ser atriz

Encontrei Sabzina Hasanzada nas ruas de Cabul em 2010. Na verdade, foi ela quem me achou. Ao avistar uma estrangeira, aproximou-se e puxou conversa. Ao contrário da maioria das mulheres daquele país, não usava burca, só um vestido comprido e um véu na cabeça. Falava um pouco de inglês e me convidou a passar mais tarde na sua casa.

Sabzina me apresentou suas filhas. Frieshta era uma adolescente tímida, de 15 anos. Já Silsila, de 13, era alegre e curiosa. Em menos de cinco minutos, me mostrou seus cadernos escolares, recitou uma lição em inglês, exibiu sua coleção de bijuterias e contou que queria ser atriz. Nesse momento, Sabzina revirou os olhos para o alto, como quem clama por ajuda de Alá – no Afeganistão, se as mulheres são vistas como cidadãs de segunda categoria, tratamento bem pior é reservado às atrizes.

Na entrada da sala de casa, Silsila colou fotos de suas atrizes preferidas, junto com uma do pai, que não conheceu. Professor de Corão numa universidade de Cabul, ele morreu poucos meses antes de ela nascer, em 1996, quando o Talibã assumiu o controle do Afeganistão. Naquele ano, a vida da família mudou completamente. O Talibã proibiu as mulheres de trabalhar e estudar. Sabzina, formada em engenharia civil e então funcionária do Ministério da Energia, teve de deixar o emprego.

Assim como aconteceu no Irã, a substituição de um governo secular por um fundamentalista fez as mulheres desaparecerem da paisagem de um dia para o outro. Elas só podiam sair à rua acompanhadas do marido ou de um parente do sexo masculino. Sabzina, que não tinha mais marido e cujo único irmão morrera atingido por um drone americano, não podia nem mesmo ir ao mercado comprar comida. Confinada em casa, com uma das filhas recém-nascida e a despensa vazia, só lhe restou deixar o país. Foi morar com as meninas de favor na casa de parentes no Paquistão e voltou para o Afeganistão apenas em 2001, depois que o Talibã caiu.

Na volta, casou-se novamente. Mas o marido mora em outra cidade e já tem uma família. Sabzina é sua segunda esposa e o vê pouco. Perguntei quando tinha sido o último encontro. “Há dois anos e três meses”, disse. Sua casa tem três cômodos. Na parede da sala, o retrato do marido ausente ocupa lugar de honra.

 

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A norte-coreana Joo Young Lee fugiu para o sul e ainda tem medo de mostrar o rosto
Foto: Adam Dean

A norte-coreana que teve que aprender a andar de escada rolante

Joo Young Lee fugiu da Coreia do Norte sozinha, quando tinha 20 anos. Encontrei-a no ano passado, quando ela estava num centro de “reeducação” de refugiados na Coreia do Sul para aprender tarefas como andar em escadas rolantes e lidar com cartões de crédito – duas das muitas coisas inexistentes no país em que nasceu.

Joo morava em Rajin, com a mãe e o padrasto. Tocava e estudava piano; não porque gostasse, mas porque autoridades locais assim determinaram – na Coreia do Norte, é o regime que escolhe o que as pessoas irão estudar e no que irão trabalhar. A definição é feita com base em um sistema de castas, que, por sua vez, tem origem no histórico das famílias e seu grau de lealdade ao governo. No caso das mulheres, a aparência também é levada em conta. A jovens bonitas, como Joo, o governo reserva profissões como a de pianista, atriz e guarda de trânsito. As da capital, Pyongyang, comenta-se, eram escolhidas pelo finado Kim Jon-Il em pessoa.

Escapar do porão dos Kim, além de arriscado, é caro. Em geral, os “atravessadores” que os fugitivos contratam para lhes dar cobertura e subornar policiais cobram em torno de 3 mil dólares pela travessia para a China e mais 3 mil dólares pelo percurso China-Coreia do Sul. Joo, no entanto, não parecia querer falar sobre o assunto.

Um dia depois de encontrá-la, fui entrevistar o diretor de uma escola que oferece aulas de reforço para estudantes norte-coreanos com dificuldades para acompanhar seus hipercompetitivos e preparados colegas sul-coreanos. Joo era uma das alunas da escola. Conversamos e, mais tarde, comentei com o diretor a coincidência do encontro. Ele me contou o que ela não quis revelar.

Para escapar de seu país-prisão, Joo aceitou ser vendida como “noiva” para um lavrador chinês. O comércio de mulheres é um negócio bastante disseminado em cidades norte-coreanas que fazem divisa com a China, caso de Rajin. Os “compradores” são, em geral, homens que não conseguiram encontrar uma mulher por serem já muito velhos, muito pobres ou portadores de alguma deficiência. Como a China é aliada da Coreia do Norte, desertores flagrados em seu território são imediatamente deportados de volta. Assim, as mulheres que não se comportarem como esperam seus maridos correm o risco de serem por eles denunciadas – e seguir direto para um dos campos de concentração do “segundo país mais feliz do mundo”.

Joo viveu com o lavrador que a comprou até conseguir dinheiro suficiente para fugir dele e pagar o atravessador que a trouxe à Coreia do Sul. Ocorre que o breve “casamento” produziu um bebê, que Joo deixou para trás na fuga para Seul. “Ela chora todos os dias na escola”, disse o diretor. “Arrependeu-se por ter abandonado o filho.”

 

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Na China, quem sai do campo não pode levar os filhos. As vilas estão cheias de orfãos de pais vivos
Foto: Adam Dean

A chinesa que é rejeitada pela filha

Na China, milhões de mulheres conhecem a dor de ter de abandonar suas crianças. São as migrantes, uma população de 150 milhões de pessoas que, nascidas nas zonas rurais, se mudaram para as cidades em busca de trabalho e progresso. O problema é que, por obra de uma herança maoísta, urdida para aumentar o controle do governo sobre os cidadãos, quem sai do campo para a cidade não pode levar os filhos consigo. O regime chinês determina que eles estão proibidos de ter acesso aos benefícios disponíveis para os que nascem nas cidades, como colocar os filhos em creches ou escolas públicas.

Na minúscula Heshian, na província de Guizou, que visitei em 2011, conheci Wang Can Yang. Ela tinha 27 anos e havia voltado para casa uma semana antes, após cinco anos trabalhando numa fábrica de cosméticos na capital da província. A filha, de 6 anos, ficou com a avó e Wang a viu apenas quatro vezes. Wang estava contente por ter conseguido juntar dinheiro para construir uma casa na vila para os parentes. Mas a filha, para quem havia trazido brinquedos e roupas, não olhava para ela e recusava-se a beijá-la. Wang passou a vida vendo seus pais carregarem baldes de água nas costas e se consumirem em lavouras miseráveis cuja produção mal chegava para alimentar a família. Adulta, viu a chance de escapar do mesmo destino. A rejeição da filha, porém, foi o preço que o regime chinês cobrou dela pela escolha.

De um canto a outro, os sonhos das mulheres não são muito diferentes: casar com quem se ama, trabalhar com o que se gosta, ver os filhos crescerem… Realizar esses desejos não depende só de vontade. E, em alguns lugares, dá muito mais trabalho. Não fossem os véus, os fanáticos fundamentalistas e os tiranos malucos, quão alto essas mulheres poderiam ter voado?

 

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Conheça outras histórias de mulheres inspiradoras finalistas do Prêmio CLAUDIA 2014. A votação para a premiação já está aberta.

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