Istambul: confira o roteiro de viagem montado por Gloria Kalil

Autora de Viajante Chic, a consultora de moda Gloria Kalil dá seu roteiro de Istambul, na Turquia, para deleitar os cinco sentidos

A Mesquita  Azul vista de fora e de dentro
Foto: Getty Images

Istambul é uma cidade multissensorial. Ela não deve apenas ser vista. Em todos os lugares, há cores, cheiros, texturas, jogos de luzes, sons e sabores novos. Assim que cheguei, fui tomada pelo azul-intenso que está no céu, limpo e amplo, no Mar de Mármara e no Estreito de Bósforo, que divide a cidade em duas partes – uma europeia e outra asiática. Na linha do horizonte, os minaretes – as torres das mesquitas, com sua arquitetura exuberante – tomam conta. As cúpulas ainda são iluminadas pelos raios dourados do sol, o que dá um clima muito envolvente ao local.

Metrópole

Poucas pessoas sabem, mas Istambul é uma metrópole com 13 milhões de habitantes. Os prédios modernos se misturam aos históricos em um equilíbrio mágico. A geografia é curiosa, já que a cidade faz a fusão do Oriente e do Ocidente. Comecei minha excursão pelo bairro Sultanahmet, um dos mais antigos. As construções datam da época do Império Bizantino, por volta do século 5. São necessários dois dias para visitar todas as atrações que a região oferece. Recomendo escolher um guia no hotel ou em uma agência de viagens. Por ser um lugar histórico, ouvir suas curiosidades torna o passeio interessante.

A Mesquita Azul

Inesquecível é a Mesquita Azul, com seu interior de azulejos desenhados à mão e mosaicos azuis. O chão é coberto por tapetes belíssimos e, para não estragá-los, os visitantes precisam tirar os sapatos quando entram. Um truque que aprendi com a prática é levar um par de meias na bolsa. Assim, evita-se andar descalça e sujar os pés. Na entrada, funcionários emprestam saias longas às mulheres que estiverem de short, bermuda ou algum traje descontraído de férias. Vesti-las é uma forma de demonstrar respeito às crenças religiosas locais. Nos primeiros dias, fiquei fascinada com os muezins, os homens que anunciam do alto dos minaretes, com gritos calorosos, o início das cinco preces diárias. A primeira é às 5 da manhã.

Festa para os olhos

Ali perto fica a Basílica de Santa Sofia, um dos destaques do elaborado conjunto arquitetônico da cidade. Até mesmo construções que deveriam ser básicas, como as cisternas, são todas trabalhadas. Centenas de colunas surgem da água iluminadas por um tom âmbar, que deixa o visual charmoso e aconchegante. O bairro guarda um segredo para quem gosta de compras: o bazar Arasta tem roupas e objetos exclusivos. É tudo muito chique. No mesmo bairro encontra-se o Grande Bazar, mercado famoso, já mostrado em filmes e citado em livros. São corredores e mais corredores de tendas que vendem joias, tecidos, louças, luminárias… Uma festa para os olhos! A brincadeira é pechinchar. Os comerciantes já esperam por isso e veem graça na iniciativa. Ninguém deve topar um preço de primeira. A proposta é sugerir um valor menor, até fingir que vai embora. Alguns donos de lojas falam português. O Bazar vale um dia inteiro de imersão em compras ou muitas visitas espaçadas em sua estada.

Festa para o paladar

No bairro ao lado, Eminönü, fica o Mercado de Especiarias. Mesmo para quem não cozinha e não se interessa em comprar nada, vale a visita. Temperos amarelos, vermelhos e cor de laranja se misturam nas barracas e o cheiro é indescritível. No caminho, está a Mesquita de Rüstem Pasa e, ali perto, o Chifre de Ouro, uma baía do Estreito de Bósforo que tem um porto, de onde saem passeios de barco. O melhor horário para navegar no braço de água que corta pelo meio a cidade é durante o pôr do sol. Ver Sultanahmet no crepúsculo é extraordinário. De repente, fica tudo rosado, depois dourado. Eu me senti em uma página de As Mil e Uma Noites.

Para salpicar com arte a viagem, o museu Istambul Modern, com obras de artistas contemporâneos, é ótima surpresa. E tem um bom restaurante para comer depois de uma manhã cultural. Os grandes hotéis da cidade também são atração. O Pera Palace era frequentado por personalidades como Agatha Christie. Conta-se que foi lá que ela escreveu Assassinato no Expresso do Oriente. Já o Ciragan Palace tem uma varanda enorme ao lado da piscina, à beira do Bósforo. Sente-se, peça um drinque e aprecie a vista.

As baladas turcas

A vida noturna é muito agitada. E a cidade é segura. Eu saí a pé tranquila, sem medo. Há dois bairros que concentram os bares e as baladas: Beyoglu e Ortakoy. A área é uma loucura. As pessoas ficam nas ruas até tarde. Quem quiser curtir ali deve sair de casa cedo, pois o trânsito é insano. O horário de pico começa às 16 horas e vai até 4 da madrugada.

Se o desejo for jantar em vez de ir para a farra, há boa oferta de restaurantes com cardápio internacional variado. Das comidas típicas, eu gostei das caftas, espetinhos de carne moída bem temperada. As mais deliciosas eu comi no Hamdi, que também tem um terraço com vista exuberante. Aliás, a presença constante da vista na cidade dá a sensação de estar o tempo todo envolvida em um azul-profundo, o que achei extremamente relaxante. Do outro lado da ponte de Gálata, fica a torre de mesmo nome. Já foi o ponto mais alto de Istambul. De cima, vê-se a cidade inteira, magnífica. No entorno, há ateliês bonitinhos de artistas locais. Outro ponto impressionante é a Igreja de São Salvador, em Chora, ou Mesquita Kariye. Tem os mosaicos bizantinos mais belos que já vi. Como é mais afastada da rota dos turistas, vale combinar com um taxista ou motorista contratado do hotel. Por fim, me encantou bastante o Palácio Dolmabahçe, às margens do Bósforo.

Melhor estação

Istambul é uma cidade intensa, vibrante e cheia de vida – e foi exatamente assim que me senti ao voltar de lá. Mas fiquei sete dias e não consegui ver tudo o que queria. Tanto que planejo voltar em setembro, uma das melhores épocas para curtir esse destino. O clima é quente e não chove. No inverno, além do vento frio, costuma nevar, o que limita os passeios e impede caminhadas prazerosas.
Antes de viajar, li alguns livros cujas histórias se passam na metrópole turca, como Istambul – Memória e Cidade, do prêmio Nobel Orhan Pamuk. Também vi guias e mapas para tentar entender os bairros. Acho uma medida altamente recomendável: quando cheguei, sabia me localizar sozinha em uma cidade aonde nunca havia ido. E tenho o hábito de fazer diários de viagem, o que recomendo muito. Durante a minha estada, anoto os lugares aonde fui, o que comi e o que mais me marcou. Também guardo cartões de lojas e companhia. É bom para resgatar detalhes que acabam perdidos na memória e para ajudar a guiar você quando sentir vontade de estar ali outra vez.