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Coluna da Liliane Prata: O perigoso jogo de desmascarar os outros

Nossa editora comenta sobre a mania de apontar defeitos nas pessoas

Por Liliane Prata - Atualizado em 22 out 2016, 19h00 - Publicado em 7 jul 2016, 17h09

– Ele, um bom pai? Você precisava ver ontem no parquinho, ele gritando com a filha…
– Diz coisas profundas, mas precisa ver como é consumista.
– Parecia cabeça aberta, mas olha o que ele falou, que reacionário!
– Aquela ali, com essa cara de santa, trai o marido.
– Ela, simpática? Foi supergrossa comigo, quando liguei para marcar uma entrevista.  
– Bom profissional onde? Precisa ver o vacilo dele na reunião.

Todo mundo já ouviu (ou soltou) frases assim. E foi ouvindo essa última que pensei nesse esporte bem popular que consiste basicamente em “desmascarar” o outro. Uso a palavra entre aspas porque ela me soa meio novelesca, artificial, mas acho difícil substituir por outra, pois a intenção de que quem profere esses frases parece mesmo a de arrancar a máscara de alguém: sai de cena o bonzinho/gente boa/“do bem” para dar lugar a uma pessoa que, olha lá, não é flor que se cheire.

Às vezes, sinto que a revelação do “lado B” alheio, seja em reuniões ou em momentos de folga, seja pontual ou crônico, é até esperado por alguns. Quando alguém que parecia legal mostra um lado não tão legal assim (ou estava em um dia ruim, simplesmente), dá-se uma espécie de comemoração amarga, um estranho suspiro aliviado que brotou não daquilo que deu certo, mas que deu errado. Nesse triste esporte que consiste em desmascarar o outro, a graça está em torcer contra.   

Certa vez, escrevi sobre a mania que temos de encaixar os outros e a existência em compartimentos, rótulos, numa ânsia de organizar o caos lá de fora e aqui de dentro, de tentar entender o que se passa. “Temos mesmo que ser tão preto no branco, se algumas questões estão mais, com perdão do trocadilho, para cinquenta tons de cinza?”, perguntei.  Somos, cada um de nós, um universo tão complexo, múltiplo e em movimento, que os rótulos jamais dão conta da nossa vastidão. Somos capazes de ser maravilhosos um dia e mesquinhos no dia seguinte. A pessoa que somos hoje nem sempre se orgulha da que fomos há dez anos ou mesmo semana passada, naquela festa, quando bebemos um pouco mais do que de costume e ai meu Deus, não quero nem lembrar…

Costumamos ser ambivalentes em relação aos nossos lados menos bonitinhos e aos nossos erros. Por um lado, nos levamos muito a sério, temos uma autocrítica terrível; em outros momentos, porém, somos condescendentes com nós mesmos – afinal, não podemos ficar nos martirizando por todas as vezes em que pisamos na bola com a gente mesmo ou com alguém: é vida que segue. Já em relação aos outros, principalmente aos que não são nossos amigos, percebo mais ânsia de desmascarar do que empatia. Sabemos que erramos e seguimos em frente; já o outro não pode errar – se o erro ficou eternizado na internet, então…

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Uma pessoa que falou uma bobagem não pode mudar de ideia, alguém que foi preconceituoso um dia está proibido de repensar sua opinião, quem é ótimo numa coisa precisa ser ótimo sempre: são cruéis as regras desse jogo. Não há paciência para falhas, tropeços, incoerências e simplesmente confusões que fazem parte de ser humano. Além de comprometer nossa alegria e nosso olhar com uma acidez corrosiva, essa postura acaba botando todo mundo no mesmo saco: de psicopatas que fizeram algo realmente fora da curva a boêmios que falaram uma bobagem preconceituosa na mesa de bar, ninguém presta.

É muita expectativa em cima de gente que acerta aqui e erra ali, que vai e volta, que oscila entre a inteligência e a estupidez, que domina a arte de doar e de ser egoísta, que mente e que fala a verdade – todos nós.

“Essa busca por uma pureza absoluta só traz frustração”, escreve uma amiga, Fabiane Secches, em um comentário no Facebook. O contexto é outro, mas a reflexão vale aqui. Se ficarmos esperando que os ótimos maridos cheguem sorrindo em casa todos os dias, que os vizinhos gentis não têm ataques de nervos, que pessoas públicas admiráveis no presente têm um passado 100% exemplar, seguiremos decepcionados com a raça humana e aumentaremos o coro de dizeres zero produtivos como “o ser humano não presta” e “a humanidade precisa começar de novo”.

Temos muito a melhorar como indivíduos e sociedade, mas desde quando melhorar significa alcançar um comportamento irrepreensível em 100% do tempo? É sempre possível buscar uma versão mais aprimorada de nós mesmos e das coisas, mas nunca fomos nem nunca seremos anjos. O ideal é uma meta, um lembrete, uma inspiração – mas é um ideal, ora. No mundo real, conflitos nem sempre são resolvidos à base do diálogo, camisas brancas ficam manchadas de molho de tomate e as pessoas, ah, as pessoas, são contraditórias, complexas e, vira e mexe, um pouco malucas. Que bom seria se fizéssemos, todos nós, em vez de jogos cruéis, uma terapia coletiva para aceitar não só as nossas imperfeições, mas as imperfeições dos outros à nossa volta.

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Liliane Prata é editora de CLAUDIA e escreve aqui no site toda quinta-feira. Para falar com ela, clique aqui!

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