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Autor mostra como transformar a raiva em combustível para mudar

Em seu novo livro, Arun Gandhi, neto do pacifista Mahatma Gandhi, ensina o poder da transformação que vem de dentro

Por Isabella D'Ercole Atualizado em 23 fev 2018, 10h49 - Publicado em 23 fev 2018, 10h44

Os pais do jovem Arun andavam preocupados. Aos 12 anos, quando morava na África do Sul, o menino vivia se envolvendo em brigas com crianças das vizinhanças. Em 1946, com movimentos de segregação fervilhando e a proximidade cada vez maior da instituição do apartheid (regime que oficializou a separação racial), Arun sofria preconceito por não ser nem branco nem negro.

Apanhava dos dois lados e estava sempre tomado pela raiva. Para evitar que o menino seguisse por um caminho sem volta, os pais o embarcaram em uma viagem de 21 horas rumo a Sevagram, a comunidade em que vivia seu avô, o líder indiano Mahatma Gandhi. Ali, em meio às casinhas de barro, Arun recebeu lições daquele que se tornou o pacifista mais ilustre do mundo, inspiração para muita gente.

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Em um período de dois anos, o garoto viu de perto negociações com outros grandes líderes, participou de viagens para interceder em conflitos e compartilhou momentos muito pessoais, como a hora da meditação e o hobby de fiar de Gandhi.

Nesse convívio, aprendeu a usar a raiva que sentia com frequência como impulso para mudar e fazer o bem. “Ela nos dá motivação para enfrentar desafios, é a energia que nos impele a definir o que é justo e o que não é”, teria dito Gandhi ao neto.

Pouco tempo após voltar para casa, Arun recebeu a notícia do assassinato do avô. Resolveu que faria o máximo para manter vivos seus ensinamentos. Enquanto seguia a carreira de jornalista, ajudou crianças abandonadas em processos de adoção, fez palestras pela não violência e, por fim, abriu um instituto para defender os ideais herdados.

Neste mês, chega às livrarias do Brasil A Virtude da Raiva, um relato íntimo de Arun sobre Gandhi que desmistifica a filosofia do pacifista, tornando-a aplicável às ações do dia a dia.

Não à toa, raiva, relações enfraquecidas e redes sociais entram na conversa a seguir.

CLAUDIA: Você sente pressão ou cobrança por ser neto de Gandhi?

Arun Gandhi: Quando eu era adolescente, essa expectativa me afetava. Na época, fui falar com minha mãe e ela disse que dependia de mim transformar o legado do meu avô em um fardo, que seria cada dia mais pesado, ou em uma luz, que me mostraria o caminho. Escolhi a segunda opção. Meu avô era uma pessoa extraordinária e realizou coisas incríveis, mas cada um de nós faz o que pode.

CLAUDIA: Um dos ensinamentos que recebeu de seu avô foi o de transformar a raiva em algo bom, em combustível para mudar. Como se faz isso? Qualquer um pode usar a técnica?

Arun Gandhi: Ele me pediu para fazer um diário registrando cada episódio que me despertasse raiva. Deveria anotar o que tinha causado o sentimento e como havia reagido. A intenção era encontrar a origem da emoção, voltando à situação para olhá-la com mais clareza e considerando a opinião do outro.

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O diário evita que se tome a atitude impulsiva de buscar vingança, permitindo usar a força motriz dessa energia poderosa que é a raiva para transformações interiores. Funciona em todas as ocasiões e para qualquer um se houver comprometimento e vontade de mudar. Infelizmente, alcançamos um estado em que apenas aceitamos quem somos, em vez de tentarmos nos tornar pessoas melhores.

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CLAUDIA: A mudança pessoal tem efeito na sociedade ou só fazemos a diferença quando nos unimos?

Arun Gandhi:  A ação individual é efetiva e importante. Mudança nunca vem de cima, não pode ser uma ordem, uma obrigação. Dou como exemplo os direitos civis nos Estados Unidos. Instituíram uma lei para igualar negros e brancos, mas nunca se preocuparam em educar a população, mostrar a importância do respeito e da igualdade.

“O imediatismo que vem das redes reduziu nossa capacidade de prestar atenção, queremos tudo já mastigado. Não construímos mais nada”

Então, o preconceito e os problemas derivados dele continuam. A lei é o passo inicial. Porém, só quando entendermos, individualmente, o impacto negativo do racismo e a necessidade de eliminá-lo é que teremos uma sociedade mais justa.

CLAUDIA: Você critica o hábito que criamos com as redes sociais de só seguir o outro e curtir sem aprofundar as relações. Qual é a consequência da superficialidade e da falta de reflexão?

Arun Gandhi: As redes poderiam ser benéficas se soubéssemos usá-las, mas só espalhamos ódio. O imediatismo que vem delas reduziu nossa capacidade de prestar atenção, queremos tudo já mastigado. Essa impaciência percorre nossos relacionamentos. Não construímos mais nada. Fazendo uma analogia, me lembro do comentário de um economista inglês. Disse que a única solução rápida para a crise que Bombai, metrópole indiana, passava era explodir e começar do zero. O risco é que pessoas explodiriam junto.

É preciso paciência para consertar e fazer crescer. E há que culpar o consumismo desenfreado pelas relações enfraquecidas. Precisamos comprar – então, trabalhamos mais e ficamos menos tempo com o parceiro e os filhos. As crianças não aprendem valores com os pais e, depois, ficam achando que chegam ao topo sozinhas. Não é verdade. Quem somos tem a ver com os retalhos dos nossos avós e pais. Devemos deixar de lado o egoísmo e o individualismo para nos dedicarmos a reconstruir as relações.

CLAUDIA: O que existe ainda da filosofia da não violência?

Arun Gandhi: Hoje, a violência manda no mundo. Os governos acreditam que, para manter a sociedade em ordem, é preciso que as pessoas tenham medo. Então, oferecem cada vez mais ameaças. Assim, pesquisamos e produzimos armamentos pesados.

Para que a não violência funcione, devemos olhar para o próximo com compaixão, amor e respeito. Não há inimigos para ser eliminados, mas amigos que precisam de ajuda para realizar a transformação pessoal.

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