A jogadora de basquete que deixou as quadras para buscar justiça

Maya Moore deixou a carreira de sucesso em segundo plano para defender um condenado a 50 anos de prisão

Olimpíadas, títulos da liga profissional americana, melhor jogadora em várias finais. Estes são apenas alguns dos títulos que fazem parte da trajetória de Maya Moore, jogadora profissional de basquete. Mesmo com a carreira brilhante e no seu auge, a jogadora norte-americana surpreendeu a todos ao decidir deixar o esporte um pouco de lado e ir em busca de outro tipo de vitória. Desta vez, na justiça.

Em fevereiro de 2019, Maya interrompeu sua carreira para ajudar no julgamento de um homem que ela acredita não ser culpado pelo crime do qual está sendo acusado. Para a jogadora, Jonathan Irons, um jovem negro que foi condenado a 50 anos de prisão por um suposto assalto com uso de arma de fogo, foi vítima do sistema prisional racista do estado do Missouri, nos EUA. 

Maya criou a Win With Justice, uma ONG apoiada pela Change.org, famosa rede de petições on-line, para recorrer à condenação de Jonathan e também de vários outros detentos que foram presos injustamente, contribuindo para o encarceramento em massa no país. A organização também questiona o poder excessivo dos promotores de justiça nos Estados Unidos. Não sei como será o futuro. Nós apenas vamos focar nessa desagradável tensão por um ano e ver no que dá”, disse a jogadora em entrevista ao The New York Times.

A condenação

Jonathan Irons foi condenado a 50 anos de prisão em julho de 1998, então com 16 anos. Ele foi interrogado por mais de dois anos, sem direito a um advogado, e julgado por um júri formado 100% por pessoas brancas. No dia do crime, Jonathan teria sido visto na vizinhança com uma arma, mas Maya e a organização questionam a condenação com vários argumentos, por exemplo, o fato de não terem sido colhidas amostras de sangue no local ou a falta de compatibilidade das impressões digitais e pegadas encontradas no local com às do condenado.

Jonathan Irons

Jonathan Irons (Instagram/Reprodução)

Na ocasião do crime, Jonathan alegou que estava a dois quarteirões do local, na casa de amigos. No entanto, as testemunhas nunca foram convocadas a depor. A vítima do crime, por sua vez, apontou outras duas pessoas como possíveis responsáveis e sequer cogitou indicar Jonathan ao ver sua foto.

Para defender este caso, Maya disponibilizou vários advogados. “Conheço Jonathan há mais de uma década e estou lutando para que o caso dele passe por uma revisão justa. Estou pedindo atenção para a má conduta do Ministério Público que, acredito, resultou em uma pena equivocada, de 50 anos, para Jonathan, ainda adolescente”, disse Maya em depoimento à página oficial do Win With Justice. A jogadora de basquete também afirma que o sistema de justiça americano ignora a condição de negros como população vulnerável devido a razões históricas.

Os caminhos de Jonathan e Maya se cruzaram quando a jogadora ainda não era famosa. Ela conheceu os avós do condenado em sua cidade natal, Jefferson City, no Missouri e, após inúmeras pesquisas, se convenceu de que ele era de fato inocente. Com o passar dos anos, os dois se tornaram amigos e ela começou sua longa luta por justiça.

Na entrevista ao The New York Times, Maya afirmou que, além de libertar o amigo, ela deseja mudar o sistema de justiça americano, que é extremamente racista e ressignificar o que é a vitória de um caso. “A gente sente a responsabilidade de tirar o máximo proveito de nossas posições e privilégios exigindo que aqueles que estão ao nosso redor – aqueles que vêm aos nossos jogos para nos apoiar, aqueles em nosso bairro que têm grandes esperanças de trazer um nível mais alto de pensamento ao nosso sistema de justiça criminal – sejam tratados com respeito, dignidade e justiça”, explicou.

Na última segunda-feira (9), o caso sofreu uma reviravolta e ele, finalmente, será solto da prisão de segurança máxima onde estava há 23 anos. O julgamento ainda não chegou ao fim, mas ao menos Jonathan poderá responder em liberdade. “Ela salvou minha vida. Eu não teria tido essa chance se não fosse por ela e sua família maravilhosa”, declarou ele ao The New York Times. Maya também disse estar muito feliz e afirmou que vai prolongar seu hiato no basquete por pelo menos mais um ano, o que significa que não jogará as Olimpíadas de Tóquio e a próxima temporada da WNBA. “Não me arrependo. Essa notícia foi quase como segurar um troféu de final de campeonato”, cravou.

Carreira

Maya Moore, assim como boa parte das atletas americanas, começou sua carreira no basquete universitário, carregando a camisa 23 (número especial porque era o usado por Michael Jordan e, atualmente, por LeBron James) em Connecticut. Ao chegar à WNBA (Women’s National Basketball League, a principal liga feminina profissional do esporte no mundo) e ao Minnesota Lynx, onde joga hoje, passou a colecionar vitórias, ganhando destaque como Ala.

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