Clique e assine com até 75% de desconto

Livro reúne depoimentos de vítimas que mataram seus agressores

Projeto conta as dramáticas histórias de seis mulheres vítimas de violência doméstica que agiram em legítima defesa

Por Gabriela Teixeira (colaboradora) Atualizado em 19 out 2020, 10h34 - Publicado em 19 out 2020, 12h01

“Instinto de sobrevivência.”

“Não queria que meu filho morresse.” 

“Vai ser esse cara ou eu.”

As frases acima fazem partes dos depoimentos de três mulheres que compartilharam a mesma realidade. Por anos, elas foram vítimas de violência doméstica, agredidas e abusadas pelos próprios parceiros. Até que, na iminência das próprias mortes e buscando se defender, colocaram um fim no ciclo de maus-tratos ao assassinarem seus agressores.

Essas e outras três histórias reais estão reunidas no livro Elas em Legítima Defesa: Elas sobreviveram para contar (DarkSide Books), de autoria da jornalista Sara Stopazzolli. A obra é uma extensão do documentário Legítima Defesa, lançado em 2017 e produzido por Sara em parceria com a irmã, a produtora de cinema Leda Stopazzolli.

A jornada das irmãs começou em 2013. Partindo de uma seleção com 50 casos em que as mortes dos companheiros eram justificadas a partir do princípio da legítima defesa, elas começaram a buscar mulheres que estivessem dispostas a contar suas histórias.

“Aos poucos, descobri que era melhor trabalhar com casos que já haviam sido julgados ou estavam em julgamento. Nunca é fácil para essas mulheres falar sobre o assunto, mas as que ainda não haviam sido julgadas estavam muito aterrorizadas. Eu percebia que elas sequer queriam me receber”, relata Sara, que várias vezes chegou a cogitar abandonar o projeto, pois sentia que estava invadindo a dor alheia. “Mas havia alguma coisa dentro de mim dizendo para eu não desistir, para ir até o fim.”

Das 50, apenas seis concordaram em mostrar o rosto e no final somente duas foram retratadas no documentário. Mas a resistência em abordar o assunto não vinha apenas delas, que mesmo julgadas e absolvidas pela Justiça, ainda enfrentavam (e possivelmente enfrentarão pelo resto da vida) o julgamento da sociedade, que também mostrava objeção ao trabalho das Stopazzolli.

“Em 2013, ainda quase não se falava de feminismo, de violência doméstica. Então quando começamos a contar sobre a pesquisa, as pessoas diziam ‘Vocês estão loucas, vão incentivar as mulheres a matarem’. Não existia tudo que há de informação agora e pouca gente tinha essa visão mais empática”, diz Sara.

Ela explica que as coisas começaram a mudar somente depois do lançamento do filme, que ganhou repercussão na mídia e foi premiado no festival internacional de cinema Mujeres en Foco. Vieram então convites para participar de debates, onde sempre surgiam perguntas sobre o processo de pesquisa e produção. “Era muita coisa para contar que não cabia nuns 15 minutos de resposta. Então, depois algumas experiências, decidi sentar e escrever o livro, que tem minhas memórias também.”

Continua após a publicidade

Quando o Estado falha

Desde o início do isolamento social, por causa da pandemia do coronavírus, levantamentos feitos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontam que, em diversos estados, houve uma redução nos números de crimes cometidos contra mulheres. A queda, porém, não pode ser vista como algo positivo, pois é causada por uma maior dificuldade das vítimas em denunciar as violências sofridas.

De acordo com dados do último relatório do FBSP sobre violência doméstica, durante a pandemia, ao comparar os números entre março e maio de 2019 e deste ano, foi observada uma diminuição de 27,2% nos registros de lesão corporal dolosa e de 50,5% nos de estupro e estupro de vulnerável.

Em contrapartida, em março e abril, os casos de feminicídio aumentaram, respectivamente 38,9% e 3,2% em relação ao mesmo período do ano passado. E as concessões de medidas protetivas de urgência, que deveriam impedir essas violências, também sofreram considerável queda.

No livro, as mulheres relatam como chegaram a procurar a polícia, mas não obtiveram qualquer tipo de auxílio. “[…] Liguei na delegacia e os policiais até hoje não apareceram. Aqui também não tem o Centro de Referência da Mulher. Aí os outros falam: ‘Por que você não chama a polícia?’. Muitas vezes a gente chama e ela não vem”, diz Soraia, uma das entrevistadas, em certa passagem. Ela matou o companheiro, Geílson, com uma facada após ser agredida, xingada e humilhada por ele na frente de amigos. “Aquele dia ele tava fora de si. […] Eu via aquilo e pensava: ‘Hoje ele acaba comigo’.

Para Sara, o Estado falhou em proteger essas mulheres. “E não apenas por não atender, porque existem muitas cidades que não possuem casas de abrigo. Ele falha por não informá-las, não educá-las. Sem informação, essas mulheres acabam ficando reféns da situação. A Úrsula fala muito isso: ‘Se outrora eu fosse a mulher com o conhecimento que tenho hoje, isso jamais teria acontecido. Eu era uma simples dona de casa sem conhecimento’. E são poucas as ações para consertar essa falha.”

A jornalista acredita que, a longo prazo, medidas que visam unicamente punir não são exatamente eficazes, pois é preciso que exista também uma mudança cultural. Criadora também de um podcast sobre feminicídios, Sara conta que, em suas pesquisas, se depara com frequência com casos em que, após cometer o crime, os homens se suicidam. Em outras situações, mesmo a possibilidade de prisão não é capaz de coibi-los.

“Eles sabem que podem ser presos, mas não estão nem aí! E não se trata nem de impunidade, mas sim porque eles chegaram em um ponto que não possuem mais nada a perder. Para mudar essa ideia masculina de posse da mulher é preciso mudar a educação. Mudar a estrutura cultural para que esses caras não se sintam no direito de achar que são donos das mulheres”, aponta, explicando que a lei Maria da Penha, por exemplo, prevê a reeducação dos agressores e aulas de gênero nas escolas, mas que essas medidas não são amplamente instituídas.

Ela afirma não ter pretensões de mudar o mundo com seu livro, mas que já acha maravilhosa a possibilidade dele ser capaz de despertar nos leitores empatia pelas histórias das sobreviventes. “Meu objetivo é dar voz para essas histórias, porque a sociedade fecha os olhos para isso. Não só a questão da legítima defesa, mas da violência doméstica. De uns tempos para cá, tem se discutido mais sobre, as pessoas estão vendo o quão importante e urgente é falar sobre isso. Mas falam sempre com porcentagens, estatísticas. Acho importante expor a realidade social como ela é e com humanidade, para causar uma empatia que possa gerar mudanças.”

Disponível em formato e-book, Elas em Legítima Defesa terá sua renda revertida para a ONG Amac (Associação de Mulheres com Atitude e Compromisso Social), que acolhe mulheres, adolescentes e crianças vítimas de violência doméstica ou em situação de vulnerabilidade. O livro pode ser adquirido aqui.

A violência contra a mulher é crime e deve ser denunciada através dos números 180 (Central de Atendimento à Mulher), 100 (Disque Direitos Humanos) e 190 (Polícia Militar).

  • O que falta para termos mais mulheres eleitas na política

    Continua após a publicidade
    Publicidade