Taís Araújo: uma musa da igualdade

Às vésperas do inicio de "Viver a Vida", a atriz comemora uma grande conquista e responsabilidade: é a primeira negra a protagonizar uma novela das nove

“Num país preconceituoso como o 
nosso, não há como negar que meu 
trabalho tem uma função social”
Foto: Nana Moraes

A cara lavada, as unhas por fazer e o shortinho jeans ressaltam o jeito de menina de Taís Araújo, 30 anos, quando ela chega para a sessão de fotos e entrevista para a revista CLAUDIA. A atriz está realizando um sonho antigo: interpretar uma Helena de Manoel Carlos, o mais prestigiado roteirista da TV brasileira. 

Em “Viver a Vida”, ela é uma modelo que se envolve com um homem mais velho vivido por José Mayer. Taís é a primeira atriz negra a protagonizar uma novela do horário nobre da Globo. Ela tem consciência do peso que carrega: “É um passo importante que vai melhorar a minha vida, a dos meus filhos e a de todos os negros. Num país preconceituoso como o nosso, não há como negar que meu trabalho tem uma função social”.

Manoel Carlos, que há vários anos pensava numa heroína negra, esperou Taís Araújo estar madura para a empreitada. “Eu a admiro muito”, afirma. “A considero uma das melhores atrizes brasileiras, com um potencial que ainda não foi totalmente explorado.” Autor e atriz estão dando o máximo que têm para tornar a nova Helena um marco na teledramaturgia brasileira – e também na biografia dessa carioca, que já soma 11 novelas, sete longas, cinco peças de teatro, participações em seriados e minisséries, vários prêmios e um diploma de jornalista.

Racismo

Inspiração para muitos, Taís busca referências em personalidades como o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela: “Desde garota sou alucinada por ele”. Ela conta que aprendeu muito com o advogado rebelde, que chegou à presidência após quase 30 anos de prisão e conquistou um Nobel da Paz, por se opor ao apartheid, que obrigava os negros a viverem separados dos brancos. “A história dele é incrível!”, diz, entusiasmada.

Taís não hesitou em viajar para os Estados Unidos para ver a posse do presidente Barack Obama. “Eu precisava testemunhar aquele momento histórico”, explica a atriz. Por que foi tão importante, para ela, conferir a vitória de um negro americano? A resposta está relacionada a um episódio que a atriz guarda na memória: um dia, na escola, um colega quis saber se quem lhe pagava a mensalidade era a patroa da mãe dela – supondo que fosse filha de uma empregada doméstica. A pergunta lhe queimou os ouvidos. E a alma. Assim, qualquer avanço de um negro reflete nela – e nos outros negros. Em se tratando da conquista da presidência da maior potência mundial, com passado segregacionista, os ecos são ainda mais fortes.

Taís estudou em escolas boas e caras porque os pais, o economista Ademir e a pedagoga Mercedes, priorizaram a educação dela e da irmã, a médica Claudia, 37 anos. “A vida inteira frequentei colégios que só tinham brancos. De cara, deu para entender como funcionava o país. Olhava à minha volta e não conseguia me identificar”, conta a atriz, que treinou cedo suas respostas ao preconceito. Apesar disso, sua infância e adolescência transcorreram de forma feliz no Méier, subúrbio da zona norte onde morou até os 8 anos, e na Barra da Tijuca, bairro de classe média alta, na zona oeste.

Campanha CLAUDIA defende esta causa
A aniquilação do preconceito étnico é a quarta causa defendida pela revista CLAUDIA. Entre também nesta campanha e ajude a colocar um fim a esse sentimento selvagem.