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Julian Lennon mostra seu DNA pacifista em exposição em São Paulo

Leica Gallery abre para o grande público, a partir de hoje, exposição com dois projetos fotografados por Julian Lennon

Por Marina Pedroso - Atualizado em 20 jan 2020, 15h15 - Publicado em 27 abr 2017, 16h31

Você pode conhecê-lo como o primogênito de John Lennon ou até como o famoso “Jude”, que inspirou uma das maiores músicas dos Beatles.Mas da década de 70 para cá, o pequeno cresceu – e fez uma brilhante carreira entrelaçando música, fotografia e filantropia às custas de suas próprias pernas.

Uma pequena mostra pode ser conferida, a partir de hoje, na Leica Gallery, no bairro paulista de Higienópolis. Inaugurada em festa para convidados na noite de ontem, 26, com a presença do próprio Julian, a exposição fotográfica Cycle é dividida em três projetos distintos do músico: ‘Cycle’, cujas fotografias retratam os ciclos de vida diários da população de países asiáticos como Vietnã, Malásia, Bali e Bornéo; Rock’n’Roll Suítes, que revela momentos íntimos de astros do Rock, como Bono Vox no backstag; e Horizon, clicada em uma viagem à Etiópia e Quênia com objetivos filantrópicos – e à qual pertence o retrato preferido de Julian, chamado Hope.

À ESTILO, ele contou os detalhes desse clique, de seus projetos e da sua conexão com o pai, John Lennon.

Em que contexto você fotografou Hope?
A foto foi feita em questão de segundos. Viajei durante 6 horas em um jeep até chegar a essa comunidade e, quando cheguei, estavam abrindo um poço de água pela primeira vez. Ver aquela gente toda sobreviver de um jeito incrível e ganhar um novo fôlego de vida… Esse retrato em particular, feito nesse momento, para mim traduz o que é a esperança. Agora, meu desejo é voltar à Etiópia daqui alguns anos, encontrar esse menino e descobrir como e se ele sobreviveu.

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E o que te tocou mais durante o projeto Cycle?
Não importa o que aconteça, as pessoas sempre encontram tanta força para superar e seguir em frente, é incrível. Não importava se estivesse no deserto ou em hospitais, havia sempre um sorriso ali. Há algo dentro de nós que nos faz seguir em frente. Entregar elementos de esperança nas fotos para pessoas que não poderiam ir até aquele lugar foi compensador.

Exposição Julian Lennon em São Paulo

A fotografia exercita o olhar em direção ao outro. Mas hoje, principalmente na América do Norte e Europa, estamos enfrentando a questão dos refugiados, da xenofobia, da construção de muros…
O maior problema em tudo isso é a ignorância. O que as pessoas não entendem, até na questão dos moradores de rua, é que ele pode ter sido rico há apenas alguns meses antes. Às vezes, ele está ali porque sua vida foi destruída de algum modo. Sem sequer investigar as circunstâncias, as pessoas ficam com medo e desesperadas sem ajuda dos locais e do governo. A questão vai cada vez mais fundo, nós sabemos disso. Mas é muito entristecedor ver isso acontecer porque, por exemplo, no meu último aniversário, visitei um país inusitado e lindo que remontava a um cenário antigo e pouco evoluído, tipo o eixo Caribe-Cuba de 50 anos atrás, com prédios destruídos e velhos, mas coloridos. A população era multicultural e multirreligiosa. Mesmo assim, eu fiquei atônito, porque foi a primeira vez na minha vida inteira que eu andei pelas ruas e, literalmente, todas as pessoas para quem eu olhava, sorriam de volta. O background era tão diverso, eles tinham culturas e religiões tão diferentes e, ainda assim, conseguiam viver em harmonia. E respeitar uns aos outros. É absolutamente possível, mas tristemente a ganância do homem mata essa possibilidade. Eu espero que pessoas como eu continuem tentando fazer a diferença. Muita gente me diz para ficar fora disso, mas eu sou um ser humano, é impossível ficar de braços cruzados quando o problema também é meu.

Exposição Julian Lennon em São Paulo

E como sua paixão pela fotografia surgiu?
Quando estava na estrada e fazia turnês, a única coisa que vivia eram hotéis, ônibus, backstages de shows. Não via ou vivia nada além disso. Desde que passei a fotografar minhas viagens, recebi muitos e-mails de pessoas que não tem dinheiro ou estão doentes demais para ir tão longe agradecendo por fazê-las viajar também, através das minhas imagens. Nunca tinha pensado dessa maneira, mas eu realmente posso jogar luz em diferentes culturas, lifestyles, cenários e comunidades para outras pessoas que nunca teriam a chance de conhecer aquilo. Então me apaixonei ainda mais pelo que faço. Porque ser possível viajar, ajudar pessoas e capturar momentos me deu o drive de querer fazer mais e propagar uma causa. Seja pela fotografia ou pela música, qualquer mídia funciona.

Como foi a sua transição do universo da música para a da fotografia?
Olha, durante 30 anos fui crucificado pela crítica da indústria musical por ter relação com os Beatles, por fazer o som que eu fazia e outros motivos. Quando encontrei a fotografia, foi um alívio. Não que eu tenha desistido da música, ainda faço participações e componho letras, mas é bom poder dar um intervalo. Mas encontrei outra forma de seguir em frente e comecei uma fundação em parceria com a minha mãe, Cynthia Powell, a White Feather. Na minha primeira exposição fotográfica, fui pura ansiedade, nervos e ataque de pânico. Por três dias fiquei nutrindo o pensamento de que me crucificariam de novo. Passei pelo mesmo processo de dúvida quando lancei meu livro infantil recentemente, o Touch The Earth. Me perguntei se era o movimento certo a fazer. Mas um amigo meu disse “Jules, você tem escrito músicas sobre o meio ambiente por anos, fez documentários, criou uma fundação… se alguém tem o direito de escrever um livro infantil sobre o futuro, é você”. Até agora, o feedback tem sido incrível, muito além que esperava.

Exposição Julian Lennon em São Paulo

Então além de se manter na música e fotografar, você também escreve livros e cuida de uma fundação. Como tudo isso se alinha às suas causas?
Nunca tive a intenção de pregar nada. Escrevi músicas sobre o meio-ambiente, uma em particular chamada de Salt Water que se tornou popular. Fiz documentários e criei uma fundação para lidar com o mesmo assunto. Recentemente, escrevi um livro para crianças abordando essa conscientização também. Para mim, tudo que faço tem a ver com escancarar verdades, o jeito como as coisas são. Não precisamos de um lembrete sobre isso, mas ao mesmo tempo precisamos nos lembrar com frequência. A principal função do livro infantil, aliás, é de bater nessa tecla logo no começo, na idade do “por quê?”, fazê-los entender cedo o valor da terra em que vivemos. O público-alvo é de 3 a 6 anos, quando começam a questionar por que o céu é azul. Meu objetivo é deixá-los a par de tudo e o que está em jogo, mas também com um processo que envolva os pais e que os ajudem a se conscientizarem junto com o aprendizado da criança. Isso também é um problema – há muitos pais que simplesmente entregam um Ipad para o filho se entreter. O livro tem a função de criar laços no momento da leitura antes de dormir, mas também entregar uma mensagem educativa. Para mim o projeto teve tudo a ver com o que fiz até agora e é o primeiro de uma série de três livros. O primeiro se chama ‘Touch the Earth’, o segundo se chamará ‘Heal the Earth’ e o terceiro, não tenho certeza, mas talvez seja ‘Love the Earth’. Inclusive, estou pensando em tratar da questão de refugiados nesse último, para ressaltar que só porque as pessoas estão em uma posição ruim, não quer dizer que sejam pessoas ruins. Como entregar essa mensagem a uma criança será desafiador, no entanto.

A história por trás do nome da fundação é poderosa. Seu pai, John Lennon, disse que quando morresse, mandaria uma mensagem em forma de pena branca para dizer que ele estava bem e que todos ficariam bem. Um tempo depois, em um trabalho na Austrália, uma tribo de aborígenes te recebeu com uma pena branca. Você ainda sente uma conexão com seu pai? Isso chega a permear seu trabalho?

Eu tenho que ter uma conexão. Retratei ela ao embarcar em um livro infantil cujo personagem principal é um pequeno aviador chamado de “White Feather Flyer”. Suas asas são feitas de penas. Toda a apresentação por trás da pena branca é muito significativa para mim. O fato de meu pai ter dito que após sua morte ele me enviaria uma pena branca e ela ter sido entregue a mim por uma tribo aborígene de milhares de anos me remete de novo à Mãe Terra. É o mais perto que eu poderia chegar a essa essência, de que tudo está conectado. Não havia como eles terem adivinhado que aquilo tinha um significado tão grande para mim. Não sou religioso, mas sou espiritualizado. Acredito em energias positivas e negativas. Sinto que vejo coisas o tempo todo. Isso sem dúvida alguma foi um dos maiores sinais que eu já recebi que existe uma conexão – e essa conexão flui por todo o meu trabalho.

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‘Cycle’ e ‘Horizon’ estarão disponíveis na Leica Gallery (Rua Maranhão, 600, SP) até o dia 26 de junho. ‘Rock’n’Roll Suítes entra para o acervo permanente da galeria.

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