Edson Celulari: “O interesse incessante pela vida é essencial”

Que Edson Celulari é talentoso e tem incríveis olhos azuis, você já sabia. Aqui o ator mostra sua insaciável curiosidade, seu lado caseiro e paizão, seu gosto recente pela cozinha e sua paixão antiga pelo pingue-pongue.

Ao saber que Edson Celulari estava hospedado no mesmo hotel onde morava, em Porto Alegre, o poeta gaúcho Mario Quintana mandou recado chamando o ator para uma prosa em seu quarto. Celulari aceitou o convite, é claro: jamais perderia uma oportunidade daquelas. Encontrou um senhor já bastante idoso e doente, de aparência esquálida e frágil. Mas restavam centelhas no olhar, e ele foi logo avisando: “Edson, continuo vivo porque continuo curioso. Sente aí e vamos conversar”. Lá se vão 20 anos desde a morte do poeta, em 1994, e tanto a cena quanto a frase nunca saíram da cabeça do ator – que, inquieto por natureza, segue movido por curiosidade, exatamente como Quintana falou. “Tenho interesse por várias coisas e, em especial, pelo ser humano”, conta. Aos 56 anos, 40 de estrada, ele está de volta às novelas neste mês, em Alto Astral, a nova trama das 7 da Rede Globo. Encarna Marcelo, dono de uma editora de revistas que se vê em uma encruzilhada: manter um casamento infeliz com a esposa doente, vivida por Silvia Pfeifer, ou investir na paixão nunca esquecida pela personagem de Christiane Torloni?

Não é um tipo tão incomum quanto o papel que havia abraçado pouco antes. Em Animal, seriado de 13 episódios exibido no canal GNT entre agosto e outubro, ele fez o atormentado biólogo João Paulo Gil. Cinquenta anos depois da sua partida, Gil retorna à terra natal em busca de cura para um transtorno raro, chamado teriantropia, que o faz acreditar ser um puma. Com o mesmo grau de concentração e o foco com que se dedicava às montagens de quebra-cabeças de mil peças quando era menino, Celulari se pôs a pesquisar o estranho distúrbio. Descobriu que raro é pouco: há registros de apenas dez casos no mundo.

Fuçar, fazer descobertas e se arriscar em mares nunca antes navegados também estão no seu dia a dia fora do trabalho. A mais recente aventura é a exploração da gastronomia. Interessado em virar mestre-cuca nas horas vagas, o ator reformou a cozinha de sua cobertura, na zona oeste do Rio de Janeiro, e tem se empenhado à beira do fogão. Não fez curso de chef, mas tem testado receitas. Por enquanto, sua especialidade é macarrão – sem glúten, de preferência, já que, vaidoso, ele aderiu a uma dieta com restrição à proteína, como parte do empenho para manter a forma. Diz que prefere molho vermelho, embora ceda ao branco quando a filha, Sofia, 11, está com ele. Separado desde 2010 da atriz Claudia Raia, 47, com quem foi casado por 17 anos, acompanha de perto a trajetória dos dois filhos, a menina e o mais velho, Enzo, 17. Juntos, os três às vezes jantam fora, em geral após ir ao cinema ou ao teatro.

Com a também atriz Karin Roepke, 32, sua namorada desde 2011, um dos programas favoritos é provar vinhos. Está aí outra coisa que lhe desperta curiosidade – só não a ponto de querer virar um especialista. Mas ele tem em seu apartamento uma pequena adega sempre abastecida com um sortimento de rótulos. “A melhor qualidade do vinho é provocar o diálogo”, afirma. Não é o único prazer do ator à mostra por ali. Uma das maiores estrelas do imóvel, que também abriga um pequeno estúdio e uma academia confortável, é a supermesa de pingue-pongue, que lhe garante diversão nos momentos de folga.

Nessas horas, talvez volte um pouco a ser o garoto nascido e criado no interior de São Paulo, na cidade de Bauru. O terceiro dos quatro filhos do casal Edno e Enoy Celulari, ambos funcionários públicos, decidiu ser ator ainda na adolescência, ao ver filmes com o galã Marlon Brando. Mas temia que o pai não aprovasse a escolha. “Ele era um homem simples e determinado. Se dissesse não, eu jamais seguiria a profissão”, admite o ator. Mas o intrépido garoto não esperou uma negativa parado. Matriculou-se escondido em um curso de teatro amador e, focado em ganhar a bênção do pai para seguir adiante, produziu um monólogo e convidou a família para assistir. “Escrevi uma história triste e atuei o tempo inteiro olhando para meu pai”, lembra. “Ele se emocionou, disse que eu levava jeito e, se passasse no vestibular, poderia fazer curso de artes cênicas.” Logo, Celulari estava na capital, na Escola de Artes Dramáticas da Universidade de São Paulo. Com Enzo e Sofia, afirma que nunca proibiria qualquer carreira. “Como pais, não temos o poder de interferir na escolha da profissão. Vou incentivar meus filhos a buscar a felicidade.”

Mais de 70 personagens depois, diz que continua encontrando sua felicidade na TV, no teatro e no cinema. Já fez de tudo, até papel feminino. Em 2010, deu voz e ginga nos palcos brasileiros a Edna Turnblad, no musical Hairspray, mesmo papel vivido nas telonas por John Travolta. Foi na produção, aliás, que conheceu a namorada, apesar de nada ter rolado na ocasião. Entrou na pele de muitos outros personagens marcantes, como o revolucionário Jean Pierre, da novela Que Rei Sou Eu? (1989), ou o misterioso Raimundo Flamel, de Fera Ferida (1993). O trabalho atual tem um significado especial, pois é baseado em uma história originalmente escrita por Andréa Maltarolli, morta em 2009 de câncer, autora também de Beleza Pura, trama exibida em 2008 e protagonizada por Celulari. “Andréa faleceu pouco depois do fim da novela. Ficamos muito tristes, mas recebemos uma verdadeira aula de espiritualidade ao ler uma mensagem da mãe dela descrevendo a beleza da passagem da filha. Isso me marcou muito”, conta. Sem ser fiel declarado a uma religião, o ator afirma que é muito interessado em assuntos ligados à espiritualidade. Conta que, meses antes de o pai falecer, há 20 anos, teve a chance de passar vários dias ao lado dele, conversando e estreitando laços. “Meu pai sabia que tinha uma doença muito grave e toda a família ficou ainda mais unida. Tivemos tempo para nos despedir, e acho que isso é muito importante.”

Sua busca fundamental é por uma vida equilibrada. “Ainda estou evoluindo como ser humano”, avisa. “É preciso ser cada dia mais tolerante com o próximo.”É só vê-lo lidar com o assédio do público para constatar que ele leva bem a sério o exercício da paciência. Não se nega a falar com nenhum fã nem a tirar as tão pedidas selfies. Desenvolveu um jeito simpático até para impor limites. “Se estou atrasado para um compromisso e vejo alguém na rua que me reconhece, eu me antecipo, cumprimento e aí sigo.” Reservado, demorou a assumir o namoro com Karin, mas hoje não se poupa de fazer declarações de amor nas redes sociais.

Fã de moda, ele gosta de vestir os ternos de corte impecável criados pelo amigo Ricardo Almeida, e é com um que surge para a sessão de fotos de CLAUDIA. A atenção especial que dá a assuntos de estilo reforça o rótulo de galã que colou no ator desde o início da carreira – e que o novelista Silvio de Abreu trata de desconstruir. “Ele estuda e aprofunda seus personagens, dando-lhes características criativas que às vezes o autor nem sonhou”, diz Abreu. “Aliado à seriedade no trabalho e na vida, seu talento o transforma em um intérprete muito além da bela estampa.” Nem seria do feitio de um inquieto se contentar com menos. “Um interesse incessante pela vida é essencial”, conclui Celulari.