“O Museu Nacional vive, continua nas pessoas, nos prédios que sobraram”

A paleontóloga Luciana Carvalho, finalista de Inovação e Ciência do Prêmio CLAUDIA 2019, conta como está a restauração do Museu Nacional

No dia 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções tomou pelo menos 3 andares no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Às 20:20 daquela noite, os bombeiros combatiam o fogo, mas ainda não haviam informações sobre a dimensão do incêndio que tomava parte do palácio.

O Museu Nacional é especializado em História Natural, é o mais antigo Centro de Ciência do Brasil, e guardava mais de 20 milhões de itens. Dentre os importantes acervos que faziam parte da instituição, estava o crânio de Luzia, com cerca de 12 mil anos e considerado o maior tesouro arqueológico do país. Luzia é o nome dado à peça porque o crânio encontrado em Minhas Gerais, era uma mulher que morreu entre os 20 e 25 anos. A peça e a reconstituição de sua face – revelando traços semelhantes aos de negros africanos e aborígines australianos – estavam em exibição no museu e sua descoberta mudou as principais teorias sobre o povoamento das Américas. 

O crânio de Luzia foi encontrado em condições melhores do que se imaginava. 80% dos fragmentos foram reconhecidos, mas precisaria passar por uma reconstituição.

Os trabalhos de recuperação iniciaram imediatamente e, como o Palácio ainda está interditado, no dia 16 de janeiro de 2020, o Museu teve sua primeira exposição depois do incêndio, Quando Nem Tudo Era Gelo – Novas Descobertas no Continente Antártico. A mostra foi montada no Centro Cultural Casa da Moeda,  prédio que foi a primeira sede do Museu Nacional, durante o século 19.

A paleontóloga Luciana Carvalho, finalista de Inovação e Ciência do Prêmio CLAUDIA, se dedica à área de Pesquisa de Paleontologia e é professora no Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu. No Dia Mundial dos Museus, ela falou a CLAUDIA sobre o futuro da instituição, as pesquisas e restauração do acervo que foi atingido pelo incêndio.

CLAUDIA: Como está a recuperação do Museu Nacional em meio à pandemia?

Luciana: Quando começou a pandemia tivemos que parar as atividades de resgate dos acervos. O resgate de acervo parou no dia 19 de março quando nós já tínhamos 5 pessoas com sintomas da COVID-19, então optamos por fazer uma parada da equipe inteira. A partir daí não conseguimos mais retornar porque houve o processo de isolamento social em todo o estado do Rio de Janeiro.

A restruturação – tanto da área de pesquisa como da área expositiva do Museu – que era a etapa que estava começando a ser desenvolvida nesse momento, era justamente a da elaboração dos projetos de recuperação do bloco 1, ou seja, da parte da frente do edifício, do Palácio que pegou fogo. Essa parte da frente é a parte histórica, a mais antiga da casa, e está prevista a sua restauração até 2022. Com relação às pesquisas, estava se devolvendo a etapa de ocupação do terreno onde serão construídos os prédios para recompor o departamento que foi destruído durante o incêndio.

Até o dia 19 de março estávamos terminando o resgate interno do Palácio. O processo envolve a retirada de todo o material de dentro do Palácio e o inventário, que significa você fazer um levantamento de tudo o que foi salvo durante o processo. E para poder dar um retorno a sociedade de qual foi o trabalho realizado nesse tempo, que até agora foi mais ou menos de um ano e meio.

CLAUDIA: Como era sua rotina antes do incêndio?

Luciana: Antes do incêndio eu trabalhava no Museu Nacional como pesquisadora da área de paleontologia do Departamento de Geologia. Desenvolvia minhas pesquisas em paleontologia de vertebrados, orientando alunos de mestrado, doutorado, de iniciação científica e de especialização. Eu dava aula também, dois cursos de pós-graduação do Museu Nacional, o curso de Geologia do Quaternário e o curso de Patrimônio Geopalenteológico.

Também como curadora da coleção de palevertebrados. Gerenciava e organizava todas as etapas de cuidado com essa coleção, que significa fazer checagem das peças porque cada uma delas tem uma importância cientifica e é um patrimônio da Instituição, da nação e do mundo. Por isso precisamos tomar muito cuidado para que possam existir durante muito tempo e para que possam embasar o conhecimento científico que vai sendo produzido a partir delas. É todo um cuidado que precisamos ter para ver se as peças estão bem resguardadas, para saber se precisamos fazer algum tratamento, alguma interferência. Também por ser a curadora da coleção, eu recebia os pesquisadores que precisavam visitar as coleções para realizar seus trabalhos. Tinha uma atividade que eu fazia pelo menos uma vez ao ano, que era atividades de campo, que é ir em uma região onde é possível escavar e encontrar fósseis e trazer para compor a coleção do Museu Nacional e servir como material de pesquisa de diversas linhas.

Museu Nacional, fundado em 1818 por Dom João VI no dia seguinte do incêndio, em 2018

Museu Nacional, fundado em 1818 por Dom João VI no dia seguinte do incêndio, em 2018 (Buda Mendes/Getty Images)

CLAUDIA: Quantos exemplares existiam no acervo de paleovertebrados ?

Luciana: No acervo de paleovertebrados tínhamos em torno de quase 8 mil números de tombamento, mas exemplares era em torno de 12 mil. Por sorte, esse material é composto por minerais e conseguiu resistir relativamente bem ao incêndio,  desabamento e depois a todo o processo de chuva que caiu sobre ele. Claro que não conseguimos retirar toda a coleção e também não saberia dizer exatamente quantos exemplares conseguimos salvar porque é um levantamento que vamos fazer depois da retirada de todo o material de dentro do Palácio.

A coleção de paleovertebrados já foi toda resgatada, tem só mais algumas peças dentro do Palácio, mas estão prontas para serem retiradas. Visualmente eu diria que recuperamos em torno de 80% da coleção. Uma parte dessa coleção foi muito atingida pelo desabamento e alguns materiais foram perdidos ou foram muito danificados. Depois que esse material for inventariado e começar o tratamento, veremos quantos desses 80% estão em condições de voltar a ser material de estudo e conseguiram sobreviver de maneira adequada.

CLAUDIA: Como está sendo a restauração das peças resgatadas?

Luciana: Essa é uma etapa que ainda vai acontecer. Algumas peças já foram tratadas, principalmente na área de Arqueologia, mas a maior parte ainda está esperando tratamento. Era para começar agora, mas em função da pandemia a gente vai ter que atrasar um pouco o processo. Isso implica uma limpeza básica feita com pincéis adequados para tirar qualquer fuligem ou sujeira que possam estar na superfície. Quando detectarmos que as peças precisam de um tratamento mais intenso, ai tem outros recursos que a gente pode utilizar porque a fumaça acaba impregnando na peça e não basta só passar pincéis. Um deles é um laser utilizado muito por restauradores da Itália, que fazem esse trabalho retirando marcas de fuligem e de queima de acervos como o de Pompeia e de Herculano [no sul da Itália, cidades que foram soterradas por cinzas vulcânicas]. O laser consegue retirar essas manchas sem alterar a peça original, mas nós não temos [a tecnologia] e estamos tentando ver como a gente pode captar recursos para isso. Ele seria o ideal para trabalhar com as peças que estão com manchas relacionadas ao incêndio. Algumas peças precisam ser coladas porque quebraram, temos material próprio para isso utilizadas na área de restauração e conservação, e essas colas são diferentes das colas que usamos no dia-a-dia porque ela tem a possibilidade de reverter o processo de colagem caso precise.

CLAUDIA: Como foi a iniciativa de receber novos fósseis?

Luciana: Foi uma atividade feita logo após o incêndio e parte de um movimento para que pudéssemos entrar em contato com todas as instituições no mundo que tivessem acervos parecidos com o nosso e que pudessem nos doar. Esse contato vem sendo feito há mais de um ano através da iniciativa da própria direção do Museu Nacional, mas também através da Unesco, que se associou com a gente e faz os contatos necessários.

Ainda não recebemos material de instituições científicas para compor o acervo de palevertebrados porque estamos em um processo de projetar o prédio de coleções. Para receber essas doações precisamos ter o espaço adequado para o material. Esse prédio vai abarcar não só a coleção de palevertebrados, mas também as coleções que foram recuperadas após o incêndio.

 (Buda Mendes/Getty Images)

CLAUDIA: Qual a previsão do fim da reconstrução do Museu e do acervo?

Luciana: Precisamos levar em consideração alguns fatores: primeiro o acervo vai ser reconstruído ao longo de muitos anos, porque o tratamento dessas peças é um processo longo. Também tem a entrada de novos materiais, que vai acontecer durante muito tempo. Não só porque pegou fogo, mas porque já era uma atividade habitual das coleções.

Segundo, o Museu Nacional é um prédio tombado como Patrimônio Histórico porque era na verdade o palácio dos imperadores e tem esse valor histórico. Apenas algumas empresas têm essa habilidade e formação de materiais históricos é que podem atuar. É muito mais complicado, mas é possível e já está sendo feito, só não é um processo de reconstrução simples. O que a gente tem de previsão para reconstrução é o que nós chamamos de Bloco 1, a parte da frente do Museu Nacional, que é o bloco mais antigo e já está recebendo os primeiros cuidados. Temos como previsão a inauguração dele até 2022. Mas temos quatro blocos, para fazer a reconstrução desses quatro blocos que ainda estão sendo discutidos. Estamos passando por uma situação muito particular,  essa pandemia, então atrasa tudo. Vamos ver como as coisas vão se comportar daqui pra frente pra ver se conseguimos manter a previsão.

É importante chamar a atenção que estamos falando do primeiro Museu do Brasil, é a instituição que fez as primeiras pesquisas, os primeiros Departamentos de Ciência, que nós estamos lidando com patrimônio histórico, sua importância não é apenas científica. Apesar de todo esse processo que passamos, o incêndio atingiu somente o prédio que era o palácio, o que chamamos de Museu Nacional hoje, é muito mais do que esse prédio, é composto por vários outros, que estão no Horto Botânico por exemplo.

Temos as bibliotecas, departamento de vertebrados e departamento de botânica, aulas de pós-graduação com um prédio próprio. Todas essas áreas não foram atingidas e funcionam mais próximo possível da normalidade. Os departamentos que foram atingidos – que ainda estavam dentro do palácio – sofreram mais e estão mais lentos para recuperar sua capacidade de pesquisa, mas a parte de ensino, por exemplo, não parou. Fizemos questão de manter ativa, porque através dela que muito da pesquisa vem sendo desenvolvida.

Então apesar de tudo, nossa mensagem é: O Museu Nacional vive. Continuamos vivos nas pessoas, nos prédios que sobraram, e estamos caminhando para essa reconstrução de departamentos, dos laboratórios de pesquisa, e também do prédio histórico.

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