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Natt Maat revoluciona o rap ao compor sobre sua vivência como travesti

A rapper de Guarujá usa sua música para falar sobre a realidade difícil e os preconceitos enfrentados pela população LGBTQIA+

Por Maria Clara Serpa (colaboradora) - Atualizado em 3 jul 2020, 17h30 - Publicado em 3 jul 2020, 17h06

Expor a realidade difícil da população trans e travesti e fazer denúncias sobre o preconceito que sofrem diariamente era o objetivo da rapper Natt Maat ao entrar no mundo da música em 2013. Natural de Guarujá, na Baixada Santista, litoral de São Paulo, cresceu na comunidade de Cachoeira, a maior da cidade, em meio a ritmos marginalizados, como o funk e o próprio rap, que eram os mais ouvidos pelos vizinhos. “O rap sempre esteve presente na favela e eu sempre gostei do ritmo, mas é um meio muito masculinizado e extremamente transfóbico e machista”, explica Natt em entrevista a CLAUDIA.

Na época em que começou, não havia visibilidade trans no gênero musical e muito menos produtoras e produtores LGBTQIA+, então foi difícil para Natt se encaixar no meio, mas a falta de representatividade não a parou. Assim, se tornou uma das primeiras travestis a ser letrista e produtora de rap. Seu primeiro lançamento, Transfobia, traz dados sobre o genocídio da população trans, e foi completamente composto e produzido por ela, que aprendeu todo o processo sozinha. “Como era difícil ser aceita na comunidade do rap, tive que me virar. No começo fazia tudo com um celular e um computador antigo. Era difícil, mas eu precisava provar que conseguia e, assim, até mostrar para outras pessoas como eu que elas também podem”, diz a rapper.

O trabalho de Natt não foi bem aceito onde vivia e ela chegou a sofrer violência daqueles que não gostaram do fato de ela rimar sobre as dificuldades enfrentadas pelas trans e travestis. “A verdade é que eu estou mantendo a essência do rap, que sempre escancarou a realidade de grupos marginalizados, mas falar sobre a população LGBTQIA+ não foi bem aceito. Sofri até ameaças de morte e, por isso, tive que deixar o local onde vivi minha vida toda e mudar para São Paulo”. Em resposta aos ataques, a artista compôs Não me pede pra parar.

Apesar das dificuldades, Natt conseguiu se consolidar no meio do rap através do apoio de instituições e de pessoas que conheceu no caminho, especialmente mulheres. A Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop, por exemplo, abraçou seu trabalho e a ajudou a perceber que ela poderia fazer parte do mundo do rap. Ao se envolver mais com esse grupo, Natt conta que precisou parar e estudar sobre feminismo. “Não sobre o transfeminismo, do qual eu faço parte, mas sobre o feminismo cis, para de fato entender o movimento e sentir que fazia parte daquilo. Hoje agradeço porque, apesar de tudo, o rap me acolheu e é muito satisfatório poder falar sobre as demandas da minha comunidade fazendo a música que eu gosto”, conta.

O estilo de Natt tem influências de outros gêneros musicais e danças, como o trap e o twerk. Segundo ela, seu estilo particular tem como objetivo levar informação e realidade, mas ainda sim ser animado e dançante. “Também já fui muito criticada por querer fazer as pessoas alegres com uma realidade tão difícil. Porém, o que me move e me faz feliz na música é ver gente dançando, ver as pessoas curtindo meu som. Quero provar que podemos ter isso junto com a informação”, explica.

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Segundo a rapper, sua maior inspiração é a arte em geral e sua própria vivência como travesti preta. Desde pequena admira muito artistas de todos os gêneros, que fazem suas criações como uma certa imitação de sua vida. Assim vê sua arte: um mecanismo de se mostrar a melhor versão de si mesma.

Pandemia

Desde o início da pandemia e da quarentena, Natt têm se dedicado muito a novas produções e, então, teve a ideia de criar algo novo, fora do mundo do rap. Assim surgiu seu último lançamento, Nattural, que está disponível em todas as plataformas digitais, uma produção calma, quase inteiramente instrumental. “Como todo mundo, comecei a me questionar muito no início da quarentena. Eu me perguntava sobre o que eu estava levando para os meus [a população LGBTQIA+] com meu trabalho. Levo alegria, entretenimento, dança, mas, nesse período, além disso, as pessoas precisam de relaxamento. Então, comecei a pesquisar sobre meditação e as músicas meditativas, o que foi muito difícil, já que venho do rap. Depois de muito estudo, produzi Nattural com o objetivo de me acalmar e trazer tranquilidade também para quem escuta. Quero que as pessoas entendam que tudo é natural e que a gente vai conseguir se entender”, afirma Natt.

É importante ressaltar que, mesmo em meio a todo o caos que estamos vivendo, outros problemas não deixaram de existir, como é o caso do desamparo, o preconceito e as mortes da população trans e travesti no mundo e, especialmente, no Brasil, que é o país que mais os mata. Seja os que estão dentro de casa e, talvez, tenham que lidar com uma família que não os aceita ou aqueles que tem que sair para trabalhar e se expõem ao vírus, a situação é crítica. “A população trans está morrendo. Grande parte das travestis e mulheres trans, por exemplo, têm que se prostituir para viver e não podem parar de sair nesse período porque precisam desse dinheiro para se sustentar. Há o perigo do vírus e o perigo de ser agredida na rua. Isso sem falar no suicídio, que sabemos que, infelizmente, é visto como uma ‘saída'”, diz Natt. Estima-se que 42% da população trans já tentou suicídio, segundo dados do relatório “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia.

Futuro

Apesar de viver em um país abertamente transfóbico e racista, Natt é esperançosa e diz acreditar que a maioria da população não quer fazer o mal. Para ela, não houve uma piora nessa situação nos últimos anos, mesmo com as falas ofensivas e ameaçadoras do presidente contra os LGBTQIA+. “Não acho que piorou. É mais fácil as pessoas terem apoio, já que temos um presidente que legitima isso, por isso sinto que elas se sentem mais livres para verbalizar o preconceito. Em um país que vende uma opressão, é mais fácil que as pessoas se abram quanto a isso. Mas, no fundo, sinto que a humanidade quer viver”, afirma a artista.

No dia 4 de julho, Natt Maat lança sua nova música, Quero, em parceria com o poeta e compositor Dyh. A letra, como boa parte de suas músicas, fala sobre sua realidade e seus anseios nesse período. “Eu quero ser feliz, assim como todo mundo. Temos que buscar isso e insistir. É basicamente o que eu quero passar nessa música”, finaliza.

Todas as mulheres podem (e devem) assumir uma postura antirracista

 

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