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A incrível e triste vida de Ayaan Hirsi Ali, a polêmica escritora que desafiou o Islã

Em seu quarto livro, a autora propõe que mudanças precisam ser feitas na religião como único modo de acabar com o terrorismo. Deu para sentir a polêmica?

Por Ludmila Vilar (colunista)
Atualizado em 21 jan 2020, 19h58 - Publicado em 7 ago 2015, 12h44

Ayaan Hirsi Ali não é um nome novo no mundo da política, do ativismo e, principalmente, da mídia. Mas é um nome que de tempos em tempos volta ao noticiário, geralmente quando lança um livro. Provavelmente muitas de vocês a conheçam, provavelmente muitas outras nunca ouviram falar dela. Ayaan se tornou conhecida para mim em 2008, quando li Infiel, seu segundo livro (antes ela tinha escrito Virgem na Jaula).  Em 2011, por ocasião do lançamento de seu terceiro livro no Brasil, Nômade, tive a oportunidade de entrevistá-la por email.       

De lá para cá, Ayaan estava quieta, pelo menos diante da mídia (pois quieta, quieta ela nunca está). Este ano, ela voltou com mais um livro. Lançado recentemente no Brasil (todas as obras dela são editadas pela Cia das Letras por aqui), Herege – Por que o Islã Precisa de Uma Reforma Imediata, acaba de cair no meu colo e está na fila para ser devorado.

Mas quem é Ayaan? A história dela é de um heroísmo épico, embora suas opiniões despertem apoio e ataques igualmente fervorosos. Em Infiel, a autora fala sobre a primeira etapa dessa jornada – da infância num dos países mais pobres do mundo (a Somália) ao parlamento de um dos mais ricos (a Holanda). É um livro ótimo, mas acima de tudo é livro sobre uma história real e isso faz dele um dos mais tristes que já li. É também sobre uma vida cheia de superações – o que não o faz menos triste pois honestamente ninguém deveria ter de superar tanta coisa para ter direito a uma vida.

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Fugas      

Nascida na Somália em uma família conservadora e muçulmana, Ayaan aprendeu a fugir desde muito cedo. Aos cinco anos ela teve de sair do país com a família para escapar da ditadura militar comandada por Syad Barre, regime ao qual o pai se opunha. Foi nessa época que ela e a irmã sofreram mutilação genital (a prática foi recentemente proibida na Nigéria, o que pode influenciar outros países africanos a fazerem o mesmo). O primeiro exílio foi na Arábia Saudita, depois na Etiópia e então a família se estabeleceu no Quênia, onde Ayaan manteve sua mais profunda ligação com a religião.

Nessa época, entre a adolescência e a juventude ela cobria quase todo o rosto e corpo com trajes pretos, era extremamente severa em relação aos princípios da religião e chegou a comemorar a fatwa (sentença) que condenava o escritor Salman Rushdie (autor de Versos Satânicos, considerado por alguns uma ofensa ao Profeta Maomé). No entanto, não importava o quanto fiel ela fosse, sua vida sempre foi marcada por pobreza e muita violência – desde a péssima relação com a mãe à surra que tomou de um professor. Dela sempre foi exigida muita coragem, o que inclui uma travessia a pé por fronteiras da África para resgatar parentes. Foi o casamento forçado com um primo que morava no Canadá que a levou à grande virada da sua vida, quando ao invés de ir para a América do Norte ela protagonizou uma fuga espetacular para a Holanda, onde pediu refúgio, em 1992.

Amigo assassinado

Na Europa, Ayaan trabalhou como faxineira e, em outra guinada espetacular (esse é um adjetivo que não descola dela), em 2002 foi eleita deputada do parlamento holandês, pelo VVD, partido de extrema direita. Nesse ponto começa a polêmica em torno de suas posições políticas. Ao tornar-se uma crítica veemente do Islã, a autora passou a não aceitar argumentos como “é preciso respeitar as diferenças culturais” quando se trata de tolerar o tratamento violento reservado a muitas mulheres muçulmanas – e aí inclui-se a mutilação genital. Ela também começou a criticar imigrantes mulçumanos que se beneficiavam de quase todos os direitos dos cidadãos da Holanda, mas recusavam-se a assimilar a cultura local.

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A crítica aberta à religião foi uma “ousadia” cara, que custou a vida do amigo e cineasta Theo Van Gogh, com quem Ayaan produziu o curta Submissão, sobre as mulheres no Islã.  O filme foi considerado uma blasfêmia e, em novembro de 2004, Theo foi atacado por um rapaz holandês de origem marroquina em plena luz do dia, na cidade de Amsterdã. O cineasta foi alvo de vários tiros seguidos de facadas e sobre seu corpo foi fincada uma carta endereçada a Ayaan: “A próxima é você”.

Mais um exílio, novas polêmicas

Em Nômade, o terceiro livro, Ayaan narra outro capítulo de sua vida, que é a chegada nos Estados Unidos, para onde foi em 2006 após ter que deixar a Holanda e fala da reconciliação com a família. “[…]  Descobri-os numa situação de trágica de instabilidade. Uma delas tem aids, outra foi indiciada por tentar assassinar o marido e um terceiro envia todo o dinheiro que ganha para a Somália, para alimentar o clã. E continua a questionar o Islã: “Todos [os parentes] afirmam ser leais aos valores de nossa tribo e de Alá. São residentes permanentes e cidadãos de países ocidentais, mas seus corações e mentes estão em outro lugar. Sonham com uma época que nunca existiu na Somália: uma época de paz, amor e harmonia”.

Agora, com o lançamento de Herege – Por que o Islã Precisa de Uma Reforma Imediata, ela volta para a boca da mídia. Em seu quarto livro propõe mudanças que precisam ser feitas na religião, como único modo de acabar com o terrorismo. Deu para sentir a polêmica? Desde o lançamento da obra ela já foi elogiada e criticada na mesma medida, como costuma acontecer. O escritor Mario Vargas Llosa, colunista do El País, a cobriu de elogios em um artigo chamado O poder da blasfêmia. Já a colunista da TIME Carla Power publicou um texto com o título O que Ayaan Hirsi Ali não entende sobre o Islã, no qual que se refere ao livro como “uma bomba intelectual de fabricação caseira”.

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Certa ou errada sobre o Islã, o que não pode ser esquecido é que ter nascido mulher tornou a vida de Ayaan um inferno bem mais quente do que o de homens que viviam sob as mesmas circunstâncias. Isso ainda é uma realidade em muitas culturas. Ayaan milagrosamente sobreviveu para agora ter o direito de dar suas opiniões.  Se você ainda não a conhece, faça isso já. Nem que seja para discordar do que ela diz.

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