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70 anos depois de O Segundo Sexo, autora revisita Simone de Beauvoir

Em biografia, a filósofa Kate Kirkpatrick mostra a contemporaneidade dos escritos feministas de Simone Beauvoir

Por Isabella D'Ercole - 12 mar 2020, 08h35
Pierre Blouzard/Gamma-Rapho/Getty Images

Em 2019, O Segundo Sexo completou 70 anos desde sua publicação. Um dos títulos mais simbólicos do movimento feminista – e que é, até hoje, porta de entrada de muitas mulheres para conhecer mais sobre as teorias –, foi recebido pela sociedade da época com indignação e surpresa. Quanta irreverência, quanta originalidade! A polêmica estimulou as vendas mesmo em um cenário difícil.

Era 1949 e o mundo se recuperava da Segunda Guerra Mundial. “O livro reúne questões que instigaram Simone de Beauvoir (1908-1986) por mais de 20 anos. Então, quando ela se sentou para escrever, foi como se tudo simplesmente extravasasse dela. Em menos de dois anos, ela já estava publicando o trabalho”, explica Kate Kirkpatrick, filósofa e teóloga, autora de Simone de Beauvoir – Uma Vida (Editora Crítica), biografia lançada recentemente no país.

Diferentemente da francesa, a britânica Kate passou mais de uma década pesquisando vida e obra de Beauvoir. Leu cartas trocadas com interesses românticos, críticas da mídia, investigou a fundo experiências familiares. O resultado é um texto delicioso, que flui com facilidade (apesar das 416 páginas) e passeia por detalhes pouco conhecidos das memórias de Beauvoir. Cita, por exemplo, uma discussão que ela teve com o pai ao discordar do que, para ele, significava o amor de verdade.

Era o início de sua pensata sobre o aprisionamento que costumes como o casamento e a responsabilidade pelo lar causam às mulheres. Kirkpatrick narra também como a educação religiosa que Beauvoir recebeu quando criança a ensinou que meninos e meninas são iguais aos olhos de Deus, uma faísca para depois considerar-se uma “alma” em nada inferior ao sexo masculino.

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John Cairns/Divulgação

Tanta dedicação da autora da biografia deve-se à fascinante atualidade das discussões de Beauvoir (conhecida por alguns como protofeminista) mesmo após muitos anos. O Segundo Sexo permanece sendo uma obra relevante, especialmente com a recente popularidade do tema e com o aumento dos debates. Oferece conceitos básicos, ainda extremamente necessários em todas as sociedades.

Com as informações fornecidas por Kirkpatrick e com olhar mais condizente com nossos valores hoje, é possível observar as experiências de Beauvoir com outras lentes. Dá para reavaliar o julgamento que a filósofa sofreu por suas escolhas amorosas – ela se apaixonou por alunas e viveu amores intensos mantendo uma relação aberta até o final da vida com o também filósofo Jean-Paul Sartre.

Também permite enxergar o machismo agressivo no fato de o seu nome ser sempre ligado ao de Sartre, como se Beauvoir fosse uma segunda dele, uma discípula piorada. “Uma das coisas que me fascinaram e que eu considero atemporal é a definição que ela faz do que é ser mulher: ‘É um ser humano em busca de valor num mundo de valores’. É uma noção de que muitas mulheres lutam com a vida interna que possuem porque ela não condiz com as expectativas da família e da sociedade”, acrescenta Kirkpatrick.

Para ela, algumas facetas do feminismo de Beauvoir continuam sendo radicais aos olhos de muitos. “A objetificação do corpo feminino, que Beauvoir aponta como uma fonte de grande sofrimento para mulheres, ainda acontece muito. Ela era contra pornografia, por exemplo, por acreditar que isso contribuía para a subjugação feminina. Naquela época, essa ideia não era aceita e até hoje em dia não juntaria tantos apoiadores homens”, diz.

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A força do tempo

Quando começou a trabalhar na biografia, a britânica sentia-se estimulada pela onda feminista, que surgia em diversos lugares do mundo. “Talvez fosse algo mais forte do que é hoje, existia uma sensação de trunfo que apontava: ‘Olha como essa geração está bem melhor do que duas atrás’”, lembra. O sentimento destacado pela autora é questionável na prática. Basta olhar para temas como o direito ao aborto, a luta contra a violência doméstica, pela equidade na política.

Parece que avançamos pouco apesar do discurso ressonante e de maior alcance – graças às redes sociais e à internet. “Beauvoir escreveu que mudar a lei é muito diferente de mudar a cultura. Algumas legislações sofreram alterações dramáticas, mas socialmente, em especial quando falamos de vida privada, a mulher ainda enfrenta hostilidade ao expressar ambição ou demonstrar sua inteligência. Ela mesma teve que lidar com isso. E algumas de suas reclamações são parecidas com as de amigas minhas hoje”, compara a escritora, que, apesar disso, em nenhum momento descreve a perfilada como vítima.

Aparecem em Simone de Beauvoir – Uma Vida diversas atitudes da francesa que hoje seriam recriminadas e possivelmente provocariam, na internet, uma onda de críticas agressivas. Beauvoir teve relacionamentos tóxicos com mulheres mais novas (algumas menores de idade), lançando jogos psicológicos e se deleitando com os resultados. “Ela era uma pessoa extremamente reflexiva, não do tipo que cometia um erro e se escondia envergonhada. Posteriormente, reconheceu que esses relacionamentos tinham sido muito danosos e se tornou amiga de várias dessas mulheres. Admitiu que não fez o correto a princípio. Mas tinha essa humildade de se expor assim e mostrar que errar é humano e ela não estaria acima disso”, explica Kirkpatrick.

Reprodução/Reprodução

Há quem questione a credibilidade de Beauvoir por escrever uma teoria a respeito de algo que ela não aplicou a vida toda. Por outro lado, há quem a endeuse, coloque no pedestal. “O discurso de Beauvoir demonstra humildade, essa palavra que muitas pessoas não gostam hoje. Ela fala, por exemplo, coisas lindas sobre perdoar quem foi complacente com a invasão de Paris na guerra durante os anos 1940. Não sabemos o que a próxima geração vai apontar e considerar terrível no nosso comportamento atual. Portanto, me parece estranho olhar para o passado, para essa mulher que vivia em outro contexto e julgá-la errada”, defende a autora, que justifica que não quis tirar Beauvoir de seu pedestal. “A intenção é mostrar que mesmo essas pessoas podem errar. E isso não fez de Beauvoir e nem faz de ninguém uma derrotada. É possível rever nossas ações e tentar consertá-las. Foi assim que ela deixou sua grande contribuição para o movimento feminista”, acrescenta.

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A teoria cresce

Em O Segundo Sexo, Beauvoir compreende seus privilégios e ressalta a estratificação social como outro vetor de desigualdade para além do gênero. Sua empatia e a curiosidade típica de filósofa lhe permitiram entender outras condições além das suas. Em viagens para os Estados Unidos, procurou feministas americanas e, pelo contato com o casal Ellen e Richard Wright (escritor afro-americano que lutou contra o racismo na época), quis entender as vivências da mulher negra.

Contudo, não dá para falar em interseccionalidade ainda; afinal, o conceito seria cunhado muito tempo depois. “O que mais se aproxima desse tipo de reflexão é o que ela chama de situação, a ideia de que cada mulher ocupa uma situação particular, mesmo que seja da mesma cultura de outras. Nenhuma luta é igual à da outra”, explica a autora.

A situação pode representar uma divisão. Beauvoir nota que, nos anos 1940, era difícil mulheres se engajarem em causas comum a todas, como outros grupos sociais faziam. Nesse ponto, dá para dizer que mudamos. Marchas recentes levaram milhões de mulheres às ruas contra atos de violência e desigualdade na política, por exemplo.

“A pergunta feminista contemporânea é sobre o que há em comum entre nós que nos conecta umas às outras. Para valorizar nossa liberdade, devemos valorizar a liberdade da outra. Isso exige ouvir outros pontos de vista. O feminismo que reduz o pensamento a um grupo específico é uma falha moral”, conclui a autora.

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