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O dia 25 de julho é uma data de memória e luta

Tudo começou com Tereza de Benguela, no quilombo Quariterê, com sua força política que perpetua até os dias de hoje

Por Esmeralda Santos (colaboradora) Atualizado em 25 jul 2020, 17h37 - Publicado em 24 jul 2020, 22h00

O ano era 1740 quando o Quilombo do Quariterê surgia, mais conhecido como  Quilombo do Piolho, sendo ele o maior no Mato Grosso. Pesquisas apontam que a liderança dele era feita por Tereza de Benguela, desde o seu surgimento, ao lado do marido, José Piolho. Outros, que não desejam reconhecer a grandeza e força de Tereza, dizem que ela apenas tornou-se conhecida graças a José.

“Se formos olhar histórias de quilombos e aquilombamentos pelo país, boa parte deles tem lideranças femininas, como é o caso do Quilombo de Magé, que tem força representativa feminina. Todas as lutas do passado têm forças femininas, que são silenciadas por falas masculinas, ou como a presença do homem que representa a força e tirando a força de outras mulheres”, explica a historiadora e Mestra em Relações étnico-raciais, Aline Nascimento, do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR).

A força e estratégia de Benguela não foi esquecida, nem silenciada, apesar dos poucos registros de sua luta. Ela navegava imponente pelos rios do Pantanal, e todos a chamavam de “Rainha Tereza”. A jovem representante comandou a estrutura política, econômica e administrativa do quilombo, que abrigava mais de cem pessoas, entre elas negros e indígenas.

A importância de lembrar de seus passos foi sentida e repercutida séculos depois, especificamente na década de 1990, quando o dia 25 de julho se tornou um marco internacional de luta e resistência de mulheres negras, latino-americanas e caribenhas. Elas se reuniram para discutir juntas suas vivências e identidades e, assim, partir para a ação.

“Os encontros geraram, em 1999, a importância de criar marcos e de estruturar luta pelo presente. Se estamos em 2020, esse processo de marco de identidade, de história e luta só existe porque estamos bebendo em uma fonte de muita luta na década de oitenta”, conta Aline.

Foi a partir dessas lutas, do Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, há 27 anos, e principalmente do reconhecimento e lembrança da atuação das mulheres do passado, que nasceu o dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, em homenagem à luta de Tereza de Benguela contra o sistema que escravizava negros e negras na época.

Não é uma data comemorativa, mas sim de lembrança

Quando comemoramos um aniversário, por exemplo, é um momento de recordar a data em que alguém nasceu, considerando que esse  dia foi fundamental para a pessoa. É assim que funciona também o dia 25 de julho – não uma comemoração, como as datas festivas, mas sim um momento de recordar o passado e, a partir dele, pensar no futuro.

“A memória tem a função de preservar uma história, de projetar o futuro e dá a possibilidade de conexão entre o indivíduo e o lugar – tanto micro enquanto cidade, sociedade, bairro, quanto um lugar macro, como países, e continentes”, argumenta Aline.  “O dia da mulher negra latino caribenha é uma forma de integrar tanto esse lugar micro por falar sobre a importância das mulheres negras em um contexto micro da vida cotidiana, como falar no contexto macro que é pensar a diáspora negra na América Latina”, aponta.

Falar sobre o dia da mulher negra, então, significa lembrar de quem foi Tereza de Benguela e pensar que as mulheres de hoje são frutos de sua ancestralidade. “Para mim é tão impactante pensar que somos herança. E ser herança é entender que só podemos e conseguimos fazer e falar com mulheres negras por conta de lutas de tantas mulheres negras do passado”, explica Aline.

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Questionando as violências

De acordo com o Atlas da Violência de 2019, a cada 13 mulheres assassinadas no Brasil, 8 delas são negras. Nesse contexto, Aline questiona: “Quantas mulheres negras conhecem outras mulheres negras que sofreram violência? Temos uma responsabilidade gigante, porque estamos falando: mulheres negras, levantem-se. Mulheres negras, continuem na luta”.

Mas além de fortalecer as mulheres para que continuem a lutar, é preciso pensar em estratégias econômicas de empregabilidade que de fato funcionem. No mercado de trabalho, a taxa de desemprego entre mulheres negras é 17% maior do que entre mulheres brancas, como mostra uma pesquisa da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O desemprego entre as mulheres negras é parte do cenário que perpetua os casos de violência doméstica – muitas delas não têm autonomia financeira e dependem de seus agressores para manter a casa e pagar suas contas. “É preciso falar sobre empregabilidade e criar uma estrutura em que muitas dessas mulheres negras tenham emprego, que seus empreendimentos funcionem. Precisamos criar uma estrutura para que o país olhe pra mudança de vida econômica dessas mulheres”, argumenta a historiadora.

  • Experimentar, conhecer e aprender

    Segundo Aline, o hábito de lembrar momentos históricos faz com que se invente tradições. Um exemplo são os vários feriados criados para lembrar de homens (de maioria branca) que marcaram a história com suas ações. Logo, o dia 25 de julho é também um marco alfabetizador. “Quantas pessoas viram a data e não conheciam, se colocaram no movimento de ler sobre, de pesquisar e entender e refletir? Isso é fundamental. É sempre um convite a lembrar e se reunir pra conversar e ouvir outras mulheres negras, entende-las e experimentar a cultura negra”, conta Aline.

    O momento é de entender que as mulheres negras, latino-americanas e caribenhas experimentam diferentes combinações de opressões, formando a base da sociedade. “Entendendo todo esse fluxo do tempo e as heranças que projetamos, o lugar de memória do dia 25 de julho é fundamental para que tenhamos uma próxima geração que vai chegar muito mais longe do que a gente chegou. Elas vão se entender como mulheres que lutam”, elucida a historiadora.

    Entender todas as questões levantadas pelas mulheres negras durante todo esse tempo, é uma forma de fortalecer a importância da data e apoiar a luta diária, que antecede os passos de Tereza de Benguela. “Quando nos colocamos em defesa das nossas lutas, estamos fazendo por nós e pelos nossos. Estamos falando de uma luta que constrói na coletividade, que olha para o todo e que precisa respeitar quem está ao redor nesse processo. Isso é a experiência de mulheres negras”, finaliza Aline.

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