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Botei na cadeia quem me difamava no Orkut

Meu ex-chefe não se conformou com minha transferência de emprego e passou a criar falsos perfis na rede social

Por Redação M de Mulher
Atualizado em 21 jan 2020, 05h11 - Publicado em 17 nov 2009, 21h00
Botei na cadeia quem me difamava no Orkut

Apesar do meu chefe tentar nos separar, 
eu e o Marcelo seguimos juntos
Foto: Carlos G. H.

Vi a entrada dos policiais na lan house para prender o homem que me infernizou por dois anos. Eu estava dentro de um carro a poucos metros de distância. O flagrante foi bem-sucedido. Meu ex-chefe negou qualquer culpa, mas as provas estavam ali.

Na pasta dele encontraram fotos minhas e do meu namorado, Marcelo, junto a imagens pornográficas. O computador que ele usava, minutos antes, desmascarou a atividade: ele era o autor de vários perfis falsos no Orkut com meu nome e o do meu namorado.

Meu ex-chefe quis a minha atenção

Em fevereiro de 2006 fui trabalhar em uma agência bancária a 80 km da minha casa. Eu percorria o trajeto todos os dias. Apesar do cansaço que a distância me provocava, eu gostava do emprego. Me dava bem com os colegas e com o meu chefe. Apesar de tímido e solitário, ele era atencioso comigo quando eu precisava de ajuda.

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Após cinco meses, pedi transferência para uma agência mais perto de casa. Eu precisava de mais tempo para terminar a faculdade e queria dar mais atenção ao meu namorado. Todos na agência apoiaram a minha decisão, exceto meu chefe.

Depois da mudança, comecei a receber e-mails e mensagens no meu celular. Ele queria saber como eu estava e o que eu fazia. Por não ser mais funcionária dele, eu demorava para responder as mensagens. E ele começou a reclamar que eu não lhe dava atenção. Aquilo tudo não fazia sentido para mim. Eu não queria amizade, mas ele não se conformou. Passou a me mandar e-mails com ofensas ao Marcelo. Cortei relações.

O perfil falso do meu namorado dizia que ele era gay

Seis meses depois, meu namorado encontrou um perfil falso dele no Orkut. Era idêntico ao original, exceto pela citação de que ele era gay. Ao analisar a página, percebi que as fotos do perfil falso levavam um ponto ao final de cada legenda, algo que o Marcelo não fazia na página verdadeira. Mas meu exchefe usava a mesma pontuação no perfil dele. Estranho.

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Apesar da suspeita, eu não tinha provas para acusá-lo. Quando o procurei, amigavelmente, para encerrar a história, ele negou qualquer envolvimento. Mas isso não parou aí. Outros dois perfis falsos do Marcelo surgiram ao longo de um ano.

Eu também fui atingida.Às vésperas do Natal, o dono da academia onde eu malhava me ligou. Ele estava assustado com o que eu havia dito na comunidade da academia no Orkut. Ahn? Não entendi a conversa. Ele me contou que eu havia convidado outros usuários a fazer sexo a três com meu namorado. Fiquei horrorizada.

Descobri um perfil com meu nome e fotos do rosto em corpos de mulheres nuas ou fazendo sexo. Chorei. Não acreditava naquilo! Fui à delegacia da mulher fazer um boletim de ocorrência e pedi para o Google, empresa que administra o Orkut, tirar o conteúdo do ar. Consegui.

Mas não relaxei. Passei seis meses tensa, sofrendo outras ameaças. Um dia, no meio do expediente, um homem me ligou pra perguntar por que eu havia parado de enviar fotos sensuais minhas. Era um constrangimento enorme e constante.

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Prenderam meu ex-chefe em flagrante

A gota d’água foi quando meu ex-chefe criou outro perfil falso com o meu nome e pediu para o dono da comunidade do banco no Orkut me aprovar. Só funcionários podiam entrar, após apresentar o número de matrícula na empresa. Mas ele tinha acesso aos meus dados. A partir do meu perfil falso, ele publicou acusações de corrupção a altos dirigentes do banco. Não apenas a honra, mas toda a minha carreira estava em risco.

Agi diferente. Pedi a uma das usuárias dessa comunidade para me informar os horários em que havia comentários daquela falsa Juliana. A ”impostora” sempre entrava na comunidade após as 18h, fim do expediente do banco. Já sabia que era alguém que trabalhava próximo a mim. A partir dessas informações, solicitei uma investigação policial contra meu ex-chefe.

Os policiais passaram duas semanas no rastro dele. Seguindo o trajeto, os policiais perceberam que ele visitava várias lan houses no centro da cidade após o trabalho. Para prendê-lo, seria necessário pegá-lo no momento em que editava minha página falsa. Depois de duas semanas, conseguiram prender o impostor em flagrante. Foi um alívio.

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Ainda tenho medo

Meu ex-chefe ficou 20 dias na cadeia, por falsidade ideológica. O delegado nem sabia como enquadrá-lo no Código Penal, de tão novo que é esse crime virtual. Depois de uns meses, o juiz entendeu que ele deveria responder por um processo de falsa identidade, um crime mais leve. O fato é que, um tempo depois da prisão, eu soube que ele foi demitido do banco. Independente da punição que a vida dará ao cafajeste, eu acho que ele me deve uma reparação. Quero processá-lo pelos danos que fez à minha imagem.

Não tive mais problemas com perfis falsos no Orkut. Mas ainda tenho medo do que ele é capaz de fazer na internet. Crimes como esse ainda são difíceis de se punir no Brasil. O importante nessas horas é imprimir todas as informações falsas que são enviadas para a internet e procurar auxílio judicial.

A saída, muitas vezes, demora a aparecer, mas é essencial manter a fé na Justiça. Só eu sei o quanto o virtual atrapalha a vida real. Eu perdi tempo, dias de trabalho e noites de sono, e fui obrigada a dar explicações a muita gente por algo que deturpou minha honra.

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Estou na rede só pra cuidar da nossa imagem

Marcelo Jorge, 31 anos, advogado, Florianópolis, SC

”Ele criou três perfis falsos no Orkut para me atingir. O primeiro era idêntico ao meu verdadeiro, exceto pela foto de apresentação. Ele havia misturado uma imagem minha a um fundo de arco-íris, símbolo do movimento gay. Não tenho preconceito, mas aquele perfil não era o meu eu. Consegui que retirassem a página do ar. Depois, ele criou um perfil que exibia meus dados bancários. Eu era correntista do banco onde Juliana trabalhava e o ex-chefe dela podia acessar esses dados. Consegui tirar do ar também. Mesmo assim, meus amigos me contavam que outro perfil falso no Orkut estava convidando homens para fazer sexo. Depois da prisão dele, estou mais tranquilo. Porém, ainda tenho uma conta na rede social só para checar se não há novas tentativas de desrespeitar a minha Flagra: este é o veredito do juiz imagem e a da Juliana.”

Guardar provas é essencial para a investigação

O Código Penal brasileiro ainda não tem leis específicas para punir esses crimes virtuais. No entanto, é possível se defender de ameaças.

Em casos de falsas identidades na internet, a orientação é guardar provas contra os autores da ilegalidades, como papéis, pen drives e e-mails que rastreiem a atuação deles.

Se as ameaças persistirem, as vítimas podem pedir uma investigação para descobrir o endereço dos computadores de onde elas vêm. É o que recomenda André Silveira, da Polícia Civil de Santa Catarina, responsável pelo caso da Juliana. ”O processo às vezes demora, principalmente quando não há suspeitos evidentes, mas geralmente conseguimos encontrá-los”, explica o investigador.

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