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TV e Afins Fábio Garcia escreve sobre televisão desde 2012, mas consome a telinha desde que se entende por gente. Ama programas ruins que dão a volta e ficam muito bons

‘Segundo Sol’ tem histórias melhores que a da “marisqueira”

Cansamos da marisqueira de ‘Segundo Sol’, mas isso não quer dizer que não tem personagem legal na novela.

Por Fábio Garcia - Atualizado em 17 jan 2020, 09h57 - Publicado em 6 out 2018, 11h52

Segundo Sol‘ chegou ao horário nobre prometendo uma história bem diferente do habitual: seria a trama de um cantor de axé que fingiria a própria morte para continuar ganhando dinheiro. Com o passar dos capítulos, a gente reparou que isso foi quase um estelionato teledramatúrgico: a história do cantor de axé foi deixada em segundo plano para vermos uma enésima protagonista injustiçada com filho perdido e voltando para sua cidade natal anos depois.

Mas se no núcleo principal ‘Segundo Sol’ continua não muito criativo, nas histórias paralelas temos algumas tramas que poderiam muito bem serem as principais dessa novela. São pelo menos dois bons exemplos de histórias mais interessantes que o drama da marisqueira vingativa das nove.

Roberval e sua família na primeira fase da novela Segundo Sol

(Globo/Divulgação)

Uma delas é a trama de Roberval (Fabrício Boliveira). Criado por sua mãe empregada dentro da mansão dos patrões, a grande reviravolta é que tanto ele quanto o riquinho Edgar (Caco Ciocler) são filhos do mesmo pai (o corrupto Severo) e a mãe (a empregada Zefa). Como um é branco e o outro negro, seria uma forma ótima de abordar temas como preconceito, classes sociais etc, mas não. O autor João Emanuel Carneiro preferiu deixar a trama apenas periférica, voltando à ela só quando Luzia (Giovanna Antonelli) está saturada para o público.

Recentemente esse é o núcleo com mais viradas na história, e o drama de Rochelle (Giovanna Lancellotti) serviu para resolver os problemas de relacionamentos entre os membros da família Athayde. Está sendo divertido acompanhar.

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Rosa, Ícaro e Valentim na novela Segundo Sol

(João Miguel Júnior/Globo/Divulgação)

Já a outra trama que facilmente ganharia uma novela própria é a de Rosa (Letícia Colin) e sua família. Tanto a história dela, que aceitou se tornar garota de programa por causa das dificuldades da vida, quanto a história de machismo que sua mãe sofre nas mão de Agenor (Roberto Bonfim) emocionam o público e normalmente entram nos assuntos mais comentados do Twitter, mesmo sendo apenas histórias paralelas.

As cenas mais marcantes de ‘Segundo Sol’ vieram todas daqui: a expulsão de Rosa, a rachadura no prédio antigo, Agenor sabotando a comida de sua esposa por pura insegurança e machismo. Provavelmente no futuro lembraremos dessa novela mais pela Rosa que por outros personagens.

 

 

Essas duas histórias citadas aqui são tramas que sustentariam uma novela própria e mostraram ter poder para cativar o público, mas seriam projetos mais “arriscados”. Talvez por isso o autor tenha preferido uma mocinha vingativa, clichê que faz sempre muito sucesso (vide ‘O Outro Lado do Paraíso‘). O autor teve a chance de centralizar sua história em personagens muito mais interessantes que a marisqueira, mas achou melhor ir pro arroz com feijão básico. Ou, se preferir, um acarajé sem muito tempero.

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