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Stéphanie Habrich Stéphanie Habrich é empreendedora, apaixonada pelo mundo da educação e do jornalismo infantojuvenil. Fundadora do Joca, único jornal para jovens e crianças do Brasil, ela vai abordar aqui na coluna temas que interligam o contato com as notícias desde a infância e a educação, sempre pensando em como podemos ajudar nossos filhos a serem cidadãos com pensamento crítico.

Por que estamos tendo uma visão distorcida da realidade?

Quem nunca ouviu alguém falar algo como “esse mundo está cada vez pior” ou “esse mundo não tem solução mesmo”?

Por Stéphanie Habrich Atualizado em 26 jan 2021, 12h45 - Publicado em 26 jan 2021, 12h44

Doenças, pobreza, desemprego, conflitos… Quem não conhece alguém que já disse estar cansado das notícias porque não aguenta mais ver tantos acontecimentos ruins? E, diante de tantas reportagens negativas, quem nunca ouviu alguém falar algo como “esse mundo está cada vez pior” ou “esse mundo não tem solução mesmo”?

Embora tenhamos a sensação de que a humanidade está regredindo, na prática, estudos apontam que isso não passa, na verdade, de uma impressão compartilhada pela maioria das pessoas. Segundo o livro “Factfulness: O Hábito Libertador de Só Ter Opiniões Baseadas em Fatos”, o planeta de hoje é melhor do que já foi no passado.

A partir de dados, análises e estatísticas, a obra, escrita pelo falecido médico, estatístico e acadêmico Hans Rosling, em parceria com o seu filho, Ola Rosling, e sua nora, Anna Rosling, mostra que, ao longo dos anos, o mundo foi evoluindo em uma série de aspectos morais e sociais. Porém, perdemos a capacidade de enxergar essas melhorias devido à forma distorcida como encaramos a realidade.

Prova disso é um teste feito pelos autores para avaliar a capacidade dos indivíduos de reconhecer tendências globais. Os entrevistados tiveram que responder a perguntas como “a pobreza tem aumentado nos últimos anos?”, “hoje, a mortalidade infantil é maior ou menor do que no passado?” e “em relação a novas espécies ameaçadas de extinção, estamos em um patamar melhor, pior ou igual ao que estávamos 20 anos atrás?”. O resultado do questionário mostra que a maioria dos participantes não acertou mais de 1/3 das questões – em geral, eles tendiam a responder que o presente era pior do que o passado, o que nem sempre era verdadeiro.

Na prática, isso significa que, se um chipanzé escolhesse as respostas do questionário aleatoriamente, poderia ser mais bem-sucedido no teste do que os entrevistados – pessoas de alta escolaridade, como professores, jornalistas e vencedores do prêmio Nobel.

Hans Rosling explica que essa visão superdramática e pessimista das pessoas se deve a uma série de fatores, entre eles a forma como consumimos notícias e conteúdos que disseminam o medo. Ele aponta, por exemplo, como informações de teor negativo têm capacidade maior de se espalhar e como a mídia dá pouca atenção para notícias positivas, que apontam melhoras em algum setor.

É claro que precisamos ser informados quando há algo de ruim acontecendo no mundo. No entanto, a forma como esses conteúdos são abordados pela mídia muitas vezes contribuem mais para que as pessoas enxerguem o problema do que a solução da questão.

Nesse sentido, Hans reforça a importância de os veículos midiáticos tratarem os problemas do cotidiano a partir de diversos ângulos e perspectivas, a fim de fazer com que o consumidor daquele conteúdo tenha uma visão ampla do que está acontecendo e não um entendimento parcial ou equivocado dos fatos. Além disso, o autor destaca a importância de o jornalismo não focar apenas o aspecto negativo, mas na solução para o problema tratado.

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No Joca, jornal para crianças e adolescentes que criei há quase dez anos, todos esses pontos levantados por Hans são uma preocupação recorrente de nossa equipe de jornalismo. Se vamos falar sobre um acontecimento triste, como um terremoto ou um furacão que atingiu centenas de pessoas, não focamos apenas na tragédia em si.

Também procuramos frisar que nem tudo está perdido: falamos sobre as ações que visam levar doações para as vítimas (e como o próprio leitor pode contribuir para essas campanhas), sobre as pessoas que estão trabalhando incansavelmente para ajudar os atingidos, sobre os planos para reconstruir as áreas afetadas…

Dessa forma, os leitores entendem que, apesar de algo muito grave ter acontecido naquele local, ainda é possível ter fé na humanidade e na sua capacidade de ajudar o próximo em situações de tensão, reconstruindo a partir da destruição.

Ao mesmo tempo, tanto no jornal impresso quanto em nosso portal, sempre temos a preocupação de manter um equilíbrio entre notícias negativas e positivas. Queremos que os leitores entendam que mesmo em momentos difíceis, como a pandemia do novo coronavírus, há coisas boas acontecendo.

Essas tais “coisas boas” vão de grandes conquistas, como uma espécie que saiu da lista de animais ameaçados de extinção, até um cidadão comum que inventou algo que trará grandes benefícios para a sua comunidade. Não importa o tamanho do impacto. O que interessa é mostrar que todos os conteúdos positivos têm valor, e que coisas incríveis acontecem todos os dias – só precisamos estar atentos a elas.

Além disso, procuramos seguir os ensinamentos de Hans quando mostramos um fato a partir de várias perspectivas, inserindo falas de especialistas, profissionais envolvidos com o ocorrido e até de crianças e adolescentes que tenham alguma relação estreita com o acontecimento. Assim, acreditamos que o leitor terá uma visão ampla da notícia e não verá apenas um lado da questão – ou só o lado mais negativo (como vimos, conteúdos assim podem ser danosos).

Enfim, convido a todos a lerem o livro “Factfulness”. É uma leitura incrivelmente inspiradora para refletir sobre as nossas crenças e sobre as conquistas da humanidade de uma forma geral. Aproveito também para convidá-la a acessar o site do Joca e ver como tentamos colocar em prática os ensinamentos de Hans.

Boas leituras!

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