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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Só Black Lives Matter ou Vidas Negras Importam?

Diante da morte do jovem negro Guilherme da Silva Guedes, de 15 anos, com nome e sobrenome, vi um retumbante silêncio

Por Juliana Borges - Atualizado em 16 jun 2020, 21h21 - Publicado em 16 jun 2020, 21h00

São Paulo, 16 de junho de 2020

Eu estou quebrada. É muito doloroso saber que essa não é a primeira, muito menos será a última vez que eu falo sobre o assassinato de um jovem negro. E vou repetir até ver se entra na cabeça das pessoas: a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil. Somos o país que tem a polícia que mais mata e também a polícia que mais morre. E, nesse contingente, há uma maioria de jovens, homens, negros. Sejam policiais, sejam civis. A quem serve essa dinâmica alimentada e retroalimentada da violência?

Ontem, a Vila Clara, na região do Jabaquara, periferia da zona sul de São Paulo, se levantou e gritou “basta!”. O jovem Guilherme da Silva Guedes, de apenas 15 anos, ficou desaparecido. Horas depois, foi encontrado morto, com sinais de tortura e tiros nas mãos e na cabeça. A comunidade grita por Justiça. A comunidade grita que sabe de onde tal violência partiu. A comunidade foi extremamente oprimida pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, que passou horas violentando gratuitamente moradores da comunidade.

Eu logo me lembrei da comoção que aconteceu por essas bandas tupiniquins diante do assassinato de George Floyd e das mobilizações que aconteceram e seguem acontecendo nos Estados Unidos. E, ontem, diante da morte de Guilherme da Silva Guedes, com nome e sobrenome, vi um retumbante silêncio. As fotos da delegacia de Minneapolis viralizaram pelo Brasil, com comentários de concordância, compreensivos sobre a indignação, sobre aquela violência televisionada. E onde estão os apoios aos moradores da Vila Clara que queimaram ônibus como medida extrema, como grito de dor e indignação diante de um jovem negro assassinado? Poderia ser seu filho. Guilherme da Silva Guedes era filho de alguém. Mas poderia ser seu filho. E onde estavam as vozes brancas que lotaram timelines de posts em pretos, celebrando uma #BlackOutTuesday que, na verdade, atrapalhou toda a dinâmica de troca de informações de ativistas estadunidenses negros, do Black Lives Matter, ao ter as hashtags divulgadas juntas e cruzadas pelos algoritmos que, se são apenas tecnológicos, são projetados por pessoas que, na maioria das vezes, não são jovens, negros, nem das comunidades.

Na Vila Clara, moradores pedem justiça pela morte do jovem Guilherme da Silva Guedes, de apenas 15 anos, encontrado morto com sinais de tortura. @bancadaativista/Instagram

Nada é neutro. Em verdade, a neutralidade é a escolha confortável. Uma postura passivo-agressiva de se dizer acima de tudo e de todos, mas que, com isso, fortalece o massacre cotidiano e sustenta a continuidade de uma dinâmica violenta que mata jovens com tortura, tiro nas mãos e na cabeça. Uma neutralidade confortável que não apoia famílias indignadas. Uma postura passiva que corrobora o discurso de que “se morreu, boa coisa não era”. Mas ele poderia ser seu filho. Você vai dizer que não era, que nunca seria, já que sabe que os seus filhos estão protegidos em torres de edifícios de apartamentos com varanda gourmet.

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Uma pesquisadora norte-americana Jane Elliott ganhou projeção nos anos 1960 por promover um estudo, transformado em documentário, chamado Olhos azuis – a cor do preconceito. Ela colocava pessoas brancas em posições desconfortáveis para viver, por alguns minutos, a experiência de serem discriminadas. Mas eu não vou contar o documentário inteiro, já que ele está disponível em plataformas de streaming e acho importante que você assista. Em uma de suas palestras, para um público majoritariamente branco, Jane Elliott perguntava quem ali gostaria de trocar de lugar com uma pessoa negra na “América”. Ninguém levantava a mão e ela perguntava ironicamente o porquê daquilo. De certo porque pessoas brancas saibam que, como diz Willow Smith, “está na moda ser negro desde que você não seja negro”.

Eu avançaria nessa proposta dizendo que está na moda ser antirracista desde que seja aplaudindo os movimentos negros nos Estados Unidos. Está na moda ser antirracista desde que isso envolva apenas uma hashtag e um quadrado preto no seu perfil do Instagram. Está na moda ser antirracista desde que isso envolve não sair de sua condição confortável. Está na moda ser antirracista desde que o racismo se mantenha fantasiosamente longe, mesmo que ele esteja dentro de sua casa com a sua empregada negra que pega dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar de sua casa, muitas mesmo na pandemia. Está na moda ser antirracista desde que o seu porteiro continue sendo negro e te chame de senhora. Está na moda ser antirracista desde que continue sendo surpreendente que alguma mulher negra escreva bem e seja articulada, sendo uma mera exceção. Está na moda ser antirracista desde que seu filho ou sua filha não namore alguém negra ou negro. Está na moda ser antirracista desde que isso não envolve ter que se colocar na mira de policiais, como cordão humano, quando isso é necessário. Está na moda ser antirracista desde que seja em Minneapolis. Está na moda ser antirracista desde que gritar a indignação seja em inglês, seja “Black Lives Matter”. E o próprio “quintal” acaba esquecido. Você pode achar que eu fui agressiva com você. Mas não dá pra ter empatia diante da minha indignação? Se não pode ser seu filho, poderia ser meu primo.

Ao falarmos que “Vidas negras importam” não estamos falando que outras vidas não importem, mas que, nesse momento, as vidas negras gritam urgência para existirem, como viralizou em cartaz essa semana. Não significa que ninguém importe, mas significa que minha vida e dos meus está em risco todos os dias. A gente não acaba com desigualdade falando de todo mundo, mas indo na raiz da questão e garantindo equidade. Eu não estou agressiva, eu estou cansada, triste e com minha saúde mental abalada por ter que, todos os dias, saber de mais um jovem negro que foi assassinado, por mais um estudante negro assassinado. Eu não aguento mais desejar força e afeto para mães. Eu não quero mais ter que fazer isso. Definitivamente, eu não estou sendo agressiva aqui, já que violenta é a política terrorista de (de)segurança em curso, já que agressivo é não ter descanso e tranquilidade.

Eu estou cansada. Mas não me cabe descansar porque, já dizia Bob Marley, ou numa frase a ele atribuída, meus algozes não descansam. Então, “I don’t give up the fight!”.

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