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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Não fique brava se eu não te retornar as mensagens

Se estamos todas passando por dificuldades neste processo, por que achar que as pessoas têm que te responder na hora?

Por Juliana Borges - 15 jun 2020, 20h58

Eu não sei quantas vezes eu já afirmei isso aqui nessa coluna, mas… os tempos estão difíceis. Temos sido tragadas para a realidade virtual, que não é, nem nunca foi, desconexa do nosso cotidiano, como alguns falam. Sabe essa coisa de “ambiente virtual”? Eu sempre fui das que acredita que vivemos o ambiente da vida, o mundo da vida, cotidiano, real. Não tem essa coisa de identidade virtual e identidade “da vida real”, a não ser que você viva de fake. O que é péssimo e pode se tornar ilegal, já que sabe-se lá as intenções de se esconder nas redes, a não ser que você seja uma foragida ou esteja sob proteção legal.

Esse movimento que nos obrigou a ficar mais conectados com máquinas mediando essas relações e menos em relações diretas tem trazido lá os seus problemas. Dentre os vários, um tem me atormentado: a figura que acha que estamos disponíveis 24h por 7 dias nas redes, no WhatsApp e assim por diante. Isso já tem me chamado atenção, mas ficou gritante com um episódio envolvendo a escritora Conceição Evaristo, no qual uma seguidora a chama de “celebridade” porque não teria, supostamente, respondido um convite. Como sempre, a resposta de Conceição Evaristo foi educada, singela, mesmo que assertiva. Eu já teria ido na linha da escritora Cidinha da Silva. É preciso dar um basta nessa cultura de achar que estamos sempre à disposição e de que o tempo próprio de cada um é a régua para o tempo dos outros.

Já faz algum tempo que eu decidi que respondo as coisas no meu tempo. Ninguém está no constante da minha vida, nem sabe tudo o que faço. Muitas vezes, as pessoas pintam que nossas vidas se resumem ao que veem nas redes sociais. Mas, a despeito de isso fazer parte de nossas vidas e não ser algo desconectado dela, essa é uma parte das nossas vidas e não o todo. Temos compromissos, angústias, ansiedades, dias tristes, dias em que é preciso um esforço sobre humano para levantar da cama, dias em que só queremos ficar lendo livros, poemas, sem se preocupar com notificações de e-mails, Instagram, Facebook ou WhatsApp. Eu sou da última geração que viveu a intermediação entre viver sem essa rapidez e demanda constante das redes sociais. Com muito orgulho, eu tive LP, K7 e discman. Eu tive bipe (e era um frisson na escola porque apenas eu e mais outra garota tínhamos o aparelho), tive aquela sensação incrível e indescritível de esperar uma carta chegar. Então, há momentos que eu, simplesmente, quero não ligar para notificações.

O tempo está cada vez mais demandado, cada vez mais insistente e urgente. Eu me recordo, não sei se com saudosismo ou só como refúgio diante da urgência dos tempos atuais, do que era esperar por alguns dias a resposta do e-mail que havia enviado ao meu namorado. Das cartas que demoravam alguns dias para chegar. Eu não tinha essa urgência de achar que ele deveria estar ao lado do celular, pronto para me responder de imediato.

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Se estamos todas passando por dificuldades emocionais, financeiras, físicas e mentais nesse processo, por que achar que as pessoas têm que te responder na hora? Porque não relaxar e pensar que, talvez, aquela pessoa esteja tão no fundo do poço quanto você? Acha mesmo justo pedir atenção no meio do apocalipse, ou no início dele? Não acha que aquela pessoa tem algumas outras urgências e que, mesmo que não esteja te enviando mensagens todo tempo, nem respondendo de imediato, tem você em pensamento e no coração? Alguns amigos e amigas devem estar me achando negligente. Pode ser. Mas, também, penso que essas amizades podem ser revistas se essas pessoas não exercem a empatia de perceber que a coisa não está boa, que eu escrevo todos os dias como uma forma de escapar por alguns momentos, mesmo que seja para falar sobre a dureza dos tempos, que escrever uma piada em rede social não significa estar bem, mas significa o exercício de tentar ficar bem.

Não tem muito jeito e vou ser simples e direta: não seja babaca. Não fique brava se eu não te responder mensagens. Você está mal e todo mundo está. Respire fundo, repense o tempo, se imponha ao tempo e às tecnologias. E, principalmente, não se ache o centro do mundo. Não é legal e é uma fantasia. No centro do mundo há níquel e ferro. E só.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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