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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Malcolm X, presente!

A colunista Juliana Borges homenageia os 95 anos do importante líder que lutou pelos direitos dos afro-americanos estadunidenses

Por Juliana Borges - 24 Maio 2020, 21h00

A semana passou, mas eu não poderia deixar passar: se vivo, no dia 19 de maio, Malcolm X teria completado 95 anos. Importante líder que lutou pelos direitos dos afro-americanos estadunidenses, Malcolm X era adepto do islamismo e fez parte da Nação do Islã na maior parte de sua atuação militante, de 1952 a 1964.

As questões em torno do assassinato de Malcolm X continuam. Apesar de haver um acusado, que foi sentenciado, as discussões permanecem pelas condições de sua morte. Isso se tornou um documentário bem importante e muito interessante, lançado pela Netflix, em fevereiro deste ano, às vésperas de se completarem 55 anos de sua morte, “Quem matou Malcolm X?”. Ele fazia um discurso no Harlem, em Nova Iorque, quando foi alvejado por projéteis de calibres diferentes.

Pôster da série “Quem matou Malcolm X?” Netflix/Reprodução

Ao contrário de Martin Luther King, o Al Hajj Malik Al-Shabazz, nome que Malcolm X adotou no islamismo, defendia o confronto para combater a violência racial. Uma de suas frases mais lembradas é de luta contra o racismo “por todo o meio necessário”.

Você pode pensar que ele teve violência porque buscou violência. Mas pense no contexto norte-americano da época, quando no sul dos Estados Unidos aconteciam linchamentos de homens negros, sem que eles pudessem se defender e ter direito a um julgamento; pense nos Estados Unidos segregado, onde era determinado onde negros podiam ou não se sentar, comer, se divertir, trabalhar. Agora, para que não se equipare autodefesa com violência, pense na revolta das pessoas diante de violências raciais, de jovens apanhando e sendo mortos por forças de segurança que deveriam protegê-los, mas os via como inimigos. E é bom lembrar que Martin Luther King, que defendia a luta pacificamente, foi também assassinado pouco tempo depois. Assim como Jonh Kennedy, presidente dos Estados Unidos, que foi assassinado em pleno desfile, e que também defendia integração e direitos aos afro-americanos.

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Por uma série de disputas, discordâncias, já que Malcolm X crescia como referência, ele saiu da Nação do Islã, realizou viagem à Meca e ao continente africano, e no retorno se reconciliou com Martin Luther King. Daí, passou a defender outras táticas, menos violentas, para a luta política necessária por direitos. E penso que essa potência reconciliatória entre os dois principais nomes da luta por direitos civis não foi muito bem vista pelo status quo.

Malcolm X era um leitor voraz e um orador excelente. Afirmava que livros mudavam vidas. Nosso primeiro encontro foi com o filme de Spike Lee, estrelado pelo incrível Denzel Washington, com Angela Basset, que eu amo. Não entendia muito bem, mas vibrava com minha mãe a cada take do filme. Mas fui compreender a filosofia de Malcolm X, tanto em sua fase mais radical quanto depois, só na faculdade, quando decidi pesquisar mais sobre ele. Me identifiquei com muitas coisas, como quando ele relata que, apesar de ser um aluno brilhante, seu professor havia dito que deveria ser carpinteiro e não advogado, porque negros não podiam ser advogados. Imagina a violência que é uma criança escutar algo como isso? Eu escutei de um professor do ensino médio que eu não seria ninguém, apenas porque eu e amigos havíamos cabulado aula. Apesar de sermos um grupo de sete adolescentes, o comentário sobre ser alguém foi direcionado a mim.

A revolta de Malcolm X pode ser entendida pelo que ele viveu na pele, como quando supremacistas brancos perseguiram sua família, até que seu pai foi brutalmente assassinado quando ele tinha apenas seis anos. Tempos depois, teve sua família destruída quando sua mãe foi internada com transtornos mentais, diante de tantas pressões que enfrentava. Mas Malcolm X não pensou sua revolta como um processo de vingança, mas construindo com sua raiva a eloquência para uma luta política coletiva, que precisava colocar fim às desigualdades baseadas em hierarquias raciais.

Não se pode achar que é por acaso que pessoas negras são as maiores vítimas da violência, que são mais de 75% da população pobre do país, que são maioria entre as pessoas em situação de rua, que são a maioria dos que vivem sem água e saneamento. Não podemos nos desligar dos processos violentos que construíram nosso país. Não podemos seguir apagando histórias e memória, porque não é assim que a gente reconstrói relações, muito menos reparações. Malcolm X precisa ser lembrado, principalmente por seu pulso de indignação, por perceber suas vivências como experiências de grupo e buscar saídas para isso. Por não se acomodar e fazer algo sobre isso.

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