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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Faz 32° graus na Sicília

"Em pleno inverno brasileiro, me sinto invadida por uma viagem à Sicília pelas lentes do meu ex-namorado", diz Ju Borges sobre o clima fora do Brasil

Por Juliana Borges - 28 jul 2020, 20h37

Assim começava a primeira mensagem do meu dia. A Sicília é uma região autônoma da Itália, com cerca de 5 milhões de habitantes. A população tem como idiomas o italiano e o siciliano, esse último mais falado pelos mais velhos. A região é cobiçada como destino turístico por conta das cores de suas águas e do seu pôr do sol. Mas também é uma importante rota de estudos, por ter os sítios arqueológicos antigos mais bem conservados fora da Grécia, com o Teatro grego em Taomina, os Tempos em Agrigento e as ruínas gregas em Siracusa. A Sicília é a maior ilha do Mediterrâneo; tem o maior vulcão da Europa, o Etna; além de ter o parlamento mais antigo do mundo, desde 1097. Não, você não leu 1907. Você leu 1097 mesmo.

A primeira vez que ouvi falar da Sicília foi pelo O Poderoso Chefão – desculpem, mas inevitável. Simplesmente adoro Francis Ford Coppola, e sua filha também, a incrível cineasta Sofia Coppola, e a saga dos Corleone. Mas confesso que meu interesse por essa região do mundo se fixava apenas na saga mafiosa. Depois, me reencontrei com a Sicília quando estudei grego e latim e percebi sua importância no mundo para além de estereótipos do cinema.

A Sicília tem uma história importante de disputa por povos mediterrâneos. A que mais estudei foi por conta das Guerras Púnicas, que aconteceram entre 264 a.C. e 146 a.C., em uma disputa entre Roma e Cartago pelo controle do comércio no Mediterrâneo. A região e suas atividades comerciais eram controladas pelos fenícios, que fundaram Cartago quando fugiram das invasões expansionistas persas. Os fenícios foram um povo importante, advindos da região do norte da Palestina, detinham imenso controle sobre técnicas de navegação e construção de navios, desenvolveram a Astronomia, por exemplo. Ainda temos como herança forte influência no alfabeto, já que eles não usavam símbolos, como faziam os egípcios, por exemplo, mas privilegiam os fonemas, tendo 22 consoantes. A inclusão das vogais foi realizada pelos gregos, um tempo depois.

Mas nada disso significa que eu tenha ido para a Sicília ou que eu tenha um desejo imenso de visitá-la – desejo que já tive, confesso, principalmente para conhecer seus sítios arqueológicos. Adoro uma viagem regada a boas histórias. A Sicília acabou invadindo meu mapa mental porque a gente tem desenvolvido, ou mesmo retomado, relações tortas e estranhas nessa pandemia. Ao que parece, elas se intensificaram.

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Em pleno inverno brasileiro, me sinto invadida por uma viagem à Sicília pelas lentes do meu ex-namorado que lá está. Todas as manhãs, sou despertada com vídeos de um mar azulado sendo revelado pelo sol, que explode entre púrpura, laranja e amarelo até que sua luz se perca de novo em azul e siga pedindo licença. Você pode dizer que é um absurdo que meu ex me envie mensagens pelas manhãs. Mas, desenvolvemos uma amizade que não estamos dispostos a perder. Você pode pensar que somos seres humanos superiores por manter essa amizade. O que eu nego. Nosso término, ou términos, foi tão dramático e digno de novela quanto vários outros, com discussões e bloqueios temporários nas redes sociais. Mas, como eu ainda não encontrei um/a/e substituto/a/e para aplacar minhas insônias em conversas aleatórias; e ele ainda não encontrou uma substituta para lembrá-lo de olhar a bula dos remédios para verificar as substâncias presentes, porque ele pode ser alérgico a elas, seguimos nosso baile. E, no fim, “deu bom”, já que tem me ajudado a superar minha frustração por estar há 4 meses em casa, sem previsão para sair; já estar tomando vitamina D, para dar conta da falta de sol; e por não poder sentir o mar, como eu tanto gosto.

Daí que inaugurar um novo modo de “viajar” no mês das férias escolares, quando sempre me tiro do jogo por umas duas semanas, tem ajudado um pouco essa mente em desespero, já que adiaram o Carnaval. Mas, minha maior preocupação mesmo foi o adiamento do Ano Novo. Eu espero, sinceramente, que eles estejam falando da festa do “Reveião”, porque se a gente ficar preso por mais qualquer segundo que seja nesse 2020, eu acho que não suporto e todo o esforço meditativo que tenho realizado vai para o ralo.

Por enquanto, estou gostando de saber que o verão na Sicília segue firme, já que holandeses, no caso do meu ex, e italianos têm enfrentado suas batalhas contra o novo coronavírus como gostaríamos de estar enfrentando a nossa. Ao menos, eu espero que eles saibam o que estão fazendo com suas aberturas internas. Mas, ao menos, agora, eu poderia até não estar me banhando nas águas mediterrâneas, mas já seria imensamente feliz pelas águas do Atlântico, em qualquer praia brasileira, tipo Barra em Salvador, Arpoador no Rio, ou mesmo Mongaguá. Em São Paulo, manhã em 16° graus. Na Sicília, 32° graus, marcaram os termômetros.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

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