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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

Comprar um celular nunca foi tão difícil

Uma saída de casa por necessidade na pandemia não é mais acompanhada da antiga normalidade. A escritora relata sua última experiência no mundo lá fora

Por Juliana Borges - 10 jul 2020, 21h30

São Paulo, 10 de julho de 2020

Nunca achei que seria tão difícil comprar um celular. Drama: o gato derrubou o celular da adolescente. Até aí, você pode estar pensando, entraria em um site qualquer e compraria com cartão, parcelado em 12 vezes. Mas o problema é que, para controle, decidi não ter cartão de crédito. E a pandemia me mostrou que isso pode ter sido um erro. Mas o problema se agrava: fui furtada dois dias antes de iniciarmos a quarentena. O que envolveu furto de cartão de débito, celular, RG, meu óculos caro pago em eternas prestações e querido, meu batom MAC ruby woo mais amado e um creme para as mãos que eu nutria mais do que amor, mas gratidão. Fui fazer a segunda via do RG, mas o Poupatempo segue fechado. Ou seja. Estava com um celular antigo e ele pifou. Comprei outro e foi até fácil. Mas o problema mesmo é com o celular da adolescente. Porque ela é applemaníaca. Nunca teve outro tipo de aparelho. Nem sabe direito o que significa “android”. Fizemos um acordo de que o Iphone que ela realmente quer seja comprado no Natal. Até lá, ela fica com um outro, com um valor “tranquilo” – questionável, mas que se entende quando o assunto é essa marca. Só que nunca imaginei como seria difícil comprar esse tal aparelho.

Você imagina o que é uma adolescente sem celular? Mesmo que ela tenha assistido as suas séries e desenhos favoritos, mesmo que ela tenha lido diversos livros – e eu tenha dado mais outro, porque incentivo à leitura é comigo mesma –, o celular é uma ferramenta quase que parte biológica de um adolescente. O ponto foi que eu já estava mais angustiada do que ela. Então, vamos à aventura do celular.

Como eu apoio o distanciamento social, e acredito ser uma loucura estarmos flexibilizando tudo nesse momento, segurei o máximo que pude a saída de casa. Ela só valeria a pena se fosse feita com uma série de medidas emergenciais e impossíveis de serem resolvidas remotamente. Já contei aqui o drama sobre o meu novo cartão e, realmente, mesmo com todas as minhas tentativas de tê-lo entregue em casa, tive que ir até a agência para resolver. Pronto. Cenário “ideal”, já que minha agência fica próxima a áreas com ampla oferta de shoppings. Mas, como diz Yuri Marçal, “ledo, ledo engano”. Depois de duas horas dentro de uma agência bancária, e ter saído de lá com o meu cartão como quem acaba de ganhar um Grammy, eu acreditava que o desejo mais insano de minha adolescente seria realizado. Ledo, ledo engano.

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Eu já estava angustiada. Duas horas dentro da agência bancária, mesmo tendo passado álcool gel nas mãos umas 4.567 vezes, eu me sentia angustiada, como se olhar para pessoas fosse o suficiente para contrair o novo coronavírus. Eu saí pelas ruas sem poder me escorar, porque as paredes dos estabelecimentos poderiam ter o novo coronavírus. Eu aguardei na fila para a desinfecção, antes de entrar no shopping, como quem ganharia um prêmio. Mas, como boa hipocondríaca que sou, eu já sentia coriza, certa falta de ar e tinha medo de comprar uma garrafa de água para beber porque não sabia o quanto ela seria higienizada. Melhor era passar sede, ter paciência e esperar chegar em casa. A cada loja que eu entrava e perguntava pelo celular, mais angustia eu sentia. Eu dei passos para trás para garantir o distanciamento dos vendedores. Eu me esquivei de senhorinhas que pareciam pouco se importar com a pandemia e tomavam café como se fosse uma tarde trivial. Eu me desesperei e meu coração começou a se desesperar. Eu queria a minha casa, eu já estava há muito tempo na rua e as chances ficavam cada vez maiores. Eu comecei a passar álcool gel nos braços, no pescoço e queria passar no rosto, mas fui impedida pelo resto de bom senso que ainda existe em mim. Eu comecei a xingar a mim mesma por estar ali, refém dos desejos de uma adolescente já um pouco chorosa e deprimida porque não tinha mais suas alegrias no Tik Tok. Eu me senti uma irmã totalmente equivocada por garantir aquele mimo tão imprescindível para quem tem apenas 14 anos. Eu me senti como aquelas responsáveis que todo mundo diz “ela mima muito essa menina”. Logo em seguida, recobrei os sentidos: minha adolescente merece. Não sei a sua, mas a minha é amor puro.

No fim, diante de tanto desespero interno, diante de tanta indignação que eu passei porque vi que havia pessoas ali não porque precisavam comprar algo, mas porque achavam que aquela era uma tarde trivial – quando mais de mil pessoas morrem por dia no país por esse vírus –, que eu decidi abortar a missão. Com o meu tubo de álcool em gel, me despedi do vendedor, tomei um banho de desinfecção e fui para casa e comprei o aparelho pela internet. Segundo o site, chega em três dias. #FicaEmCasa

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