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Diário De Uma Quarentener Juliana Borges é escritora, pisciana, antipunitivista, fã de Beyoncé, Miles Davis, Nina Simone e Rolling Stones. Quer ser antropóloga um dia. É autora do livro “Encarceramento em massa”, da Coleção Feminismos Plurais.

A busca pela eternidade

Historicamente, o ser humano deseja a eternidade, formula sobre ela e busca aperfeiçoamentos do corpo para uma maior “durabilidade”

Por Ju Borges - 1 ago 2020, 21h28

Enquanto assistia ao final de Bohemian Rhapsody, sobre Queen e Freddy Mercury, a cena do Live Aid me chamou atenção. Aquela energia incrível que Bryan Singer conseguiu recriar me preencheu – eu e minhas irmãs simplesmente adoramos o Queen, herança direta de nossos pais. Ao som de Radio Gaga, com uma plateia recriada e cantando em uníssono, me dei conta da grandiosidade de um momento que entrou para a eternidade. E daí veio o pensamento: pessoas escutarão aquele som daqui 100 anos. Logo em seguida a reflexão: o que faz a gente alcançar a eternidade?

Historicamente, o ser humano deseja a eternidade, formula sobre ela, busca aperfeiçoamentos do corpo para uma maior “durabilidade”, cria fórmulas de rejuvenescimento, persegue feitos para talhar seu nome na história. No livro IX da Ilíada, um clássico literário e de valores para o pensamento ocidental, o herói Aquiles é alertado por sua mãe, a deusa Tétis, de que se permanecer em sua casa terá uma vida longa, mas que se decidir por ir à Tróia e lá permanecer, ganharia a imortalidade e entraria para a memória dos homens, alcançando a glória eterna. Por ser um clássico, não é spoiler: Aquiles decidiu ir à guerra e permanecer em Tróia. Seus feitos foram eternizados e ele segue na memória, no senso comum das sociedades ocidentais, em valores do que significa o heroísmo, mesmo que você nunca tenha ouvido falar sobre ele.

O filósofo Platão também discorreu sobre o que daria completude a existência humana, chegando a afirmar em sua obra Górgias que os humanos são jarros sempre vazando e que sempre buscaremos preenchê-los. Uma das questões em torno disso seria a busca pela felicidade, por uma, ou várias, eternidades. Na Bíblia, no livro de Eclesiastes, capítulo 3, versículos 9, 10 e 11, a pergunta é o quê os trabalhadores ganham com todo o seu esforço. A pergunta é precedida por uma série de versículos que falam sobre o tempo determinado para as coisas. No versículo 11, em específico, há o dizer de que deus teria colocado em nosso coração a eternidade, advertindo que nunca a compreenderíamos plenamente. Seria, então, inevitável tentar alcançar a eternidade ou as eternidades?

No dicionário, a eternidade é codificada como uma “qualidade do que não tem início ou fim”, como a inexistência do tempo. Seria essa demarcação bíblica sobre o tempo para tudo como uma determinação de que, mesmo que muito busquemos, jamais alcançaremos a eternidade? E o que seria mesmo pensar em eternidade em tempos pandêmicos?

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Muitas são as interpretações para isso desde tempos que nem sabemos, porque não ficaram registrados pela escrita, uma das tecnologias que considero das mais poderosas nessa procura pela imortalidade. As palavras têm permitido, na maioria das vezes porque podem ser destruídas, essa permanência no tempo. Reis, nobres, até uma democratização que permitiu que pessoas como eu também escrevessem, há séculos tem buscado documentar seus feitos como modo de eternizar-se. Uma composição também teria esse atrativo de entrar como processo de encrustamento na memória coletiva, de modo a sempre sermos presentes, eternizados.

Não consigo acreditar que Freddy Mercury não pensou em cada um dos passos para cruzar sua genialidade com a possibilidade de entrar para a história e se tornar eterno, já que os relatos apontam para uma personalidade expansiva e que sabia das suas potencialidades. Pode parecer loucura minha comparação entre Freddy Mercury e o herói Aquiles para alguns, mas para mim ela faz todo o sentido. Afinal, quem são nossos heróis contemporâneos? Quais são as “armas”, investidas e ferramentas que podemos lançar mão para sermos eternos? Acho que ambos nos provaram que ser eterno é muito mais do que sonharmos com uma transformação vampiresca para que fiquemos fisicamente presentes na terra por séculos. Até porque, essa experiência vampiresca – desculpe, eu amo coisas com vampiros, lobisomens e zumbis – tem lá seus limites em relacionamento e aproveitamento de vida.

Talvez, a fonte da eternidade esteja nesses atos mercurianos e aquilianos de um feito que faz com que gerações façam da sua memória uma presença. Ou o rock será o mesmo depois do Queen? Ou a nossa ideia de aventura épica se modificou tanto de Aquiles até os dias atuais? Polêmica comparativa ou não, eu sigo nessa reflexão sobre nossa busca constante pelo eterno e porquê precisamos tanto disso. 

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