O rebelde Mulherio das Letras leva 500 escritoras a João Pessoa

Considerada a escritora das mulheres loucas, Maria Valéria Rezende, dona de um Prêmio Jabuti, revelará autoras que as editoras ignoram

Foi a santista Maria Valéria Rezende, 74 anos, quem me deu o título para a entrevista que publiquei em CLAUDIA. Concluí que ela é “a escritora das mulheres Loucas” – o que cravei no alto da página – depois de ouvi-la falar de suas personagens. Todas piram, entram em surto, endoidecem. Seu próximo livro vai se chamar Carta à Rainha Louca. Enfim, suas tramas trazem a insanidade, o gatilho que tira uma mulher do sério ou ameaça o equilíbrio. Não à toa. Ser mulher nunca foi fácil e anda um tanto perturbador nos brutais dias em que vivemos, dias de patrulha, rancor e desforra. Mas os romances de MVal (apelido com que assinou os e-mails que me mandou) impressionam exatamente pela força das protagonistas. O surto é um start, um propulsor, um turning point… e a mulher, finalmente, vem para a luz – e diz a que veio!

Virei fã de seus escritos. E de seu comportamento jogado ao mundo, a serviço da inquietação e da mudança. Eu esperava essa freira dar algumas longas baforadas em seu cigarrão – que ela pita feito James Dean, com um charme incrível – para responder as minhas perguntas. Leia a entrevista aqui

500 loucas juntas

O que interessa contar hoje é que Maria Valéria Rezende, ganhadora também do Prêmio Casa de Las Américas, não está sentada confortavelmente no seu escritório, abarrotado de pastas e anotações que virarão romances. Em João Pessoa, onde vive, ela junta esta semana (de 12 a 15) cerca de 500 brasileiras que escrevem, editam, ilustram, fotografam, desenham e fazem capas ou performances literárias. O Mulherio das Letras vai discutir literatura e arte, evidentemente. Mas o propósito é provocar o país. Pode ser que ali se dê algo tão importante quanto a Semana de Arte Moderna, aquela de 1922, que conferiu brasilidade, autonomia e personalidade à produção artística e cultural do Brasil. Ou a nação olha para o que o Mulherio está bradando ou se entrega, de vez, às trevas, à ignorância, à censura e aos bolsomitos, que habitam todos os nichos.

Passou da hora. Chega. O país desconhece as mulheres que fazem livros porque – o óbvio – acredita que escritor homem vende mais. Escritor homem é o bicho, sabe escrever. É? Vejam Elvira Vigna. Desconhecida do grande público, ela morreu em julho passado, perto de completar 70 anos. Seu romance Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas está na final do Prêmio Jabuti e tem tudo para levar o posto de melhor livro do ano. Só lembrando, Maria Valéria ganhou o Jabuti de 2015, com Quarenta Dias, e era igualmente uma estranha no ninho.

A jornalista Liliane Oraggio é nossa olheira no Mulherio; vai mandar de João Pessoa as informações sobre o rebuliço que as 500 loucas farão por lá. Será tanto barulho! Quem sabe acorda os que ainda acham que a literatura das mulheres é titica de galinha nas prateleiras das livrarias e nos e-books.

Força aí, MVal! Pita seu cigarrão, bafora na cara das editoras e dos livreiros insensíveis.

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