Siga a força, não a paixão

“Ao decidir trafegar apenas por terrenos que despertem emoções prazerosas, fechamos os olhos ao desconhecido”

Eu sempre impliquei um pouco com a expressão “siga sua paixão” para inspirar a escolha de uma carreira e garantir o sucesso de alguém no trabalho. Não duvido de que haja muita gente “apaixonada pelo que faz”. O que nunca entendi bem é como essa “paixão”, termo que vem da palavra latina passus, algo como sofrer, aguentar, usado para designar emoção ou desejo intenso por alguém ou alguma coisa, pode ser a fórmula mágica para uma pessoa se dar bem pessoal e financeiramente.

A ideia de ir atrás de algo tão fantástico e visceral tem mais atrapalhado do que ajudado uma geração em busca de uma relação idealizada com o trabalho. Já é complicado o bastante conseguir identificar seus talentos, estudar e investir na formação adequada para esta ou aquela atividade e depois batalhar para inseri-la em regras de mercado cada vez mais amplas e voláteis. Precisamos mesmo das palpitações e do frio na barriga ao abraçar uma profissão? Esse arrebatamento vai nos ajudar a ser competentes, reconhecidas e bem pagas?

Pois essa minha visão cética (julguem-me, millennials) acaba de ser referendada por um estudo realizado pela universidade americana de Stanford, na Califórnia: seguir “sua paixão” pode diminuir as chances de sucesso em uma carreira. A explicação, de acordo com o experimento neurocomportamental, é que a dita “paixão pelo que faz” leva a um excesso de confiança e estreita seu foco de interesse e atuação. Os pesquisadores concluíram que as pessoas que acham que seguir sua paixão é uma via natural de sucesso tendem a acreditar que vai ser fácil e a desistir diante dos desafios e obstáculos.

Foram recrutados para a pesquisa participantes de duas categorias: aqueles que eram aficionados por ciência, tecnologia, engenharia e matemática e os mais atraídos por artes e humanidades. Durante os experimentos, estudou-se a reação deles diante de vídeos com conteúdo de seu interesse e outros com material fora desse espectro. Analisou-se a facilidade de cada um dos espectadores para completar e compreender o que lhes foi apresentado. Os mais “apaixonados” por um tema específico mostraram-se menos inclinados a se interessar por novas áreas, menos abertos a integrar diferentes campos de conhecimento, mais dispostos a desistir no meio. “Se você for muito comprometido com uma área, isso o impedirá de desenvolver competências necessárias para ampliar seu potencial e sua visão”, analisaram os psicólogos de Stanford.

Os cientistas avaliaram que a “paixão” induzia o participante a menosprezar o potencial de conexão entre áreas diversas, impedindo-o de estabelecer relações mais ricas entre campos diferentes, como arte e tecnologia. Segundo eles, ao decidir trafegar apenas por terrenos que despertem emoções prazerosas, fechamos os olhos ao desconhecido e àquilo que pode ser mais difícil de fazer e compreender, mas cujo resultado é positivo e desejável.

A conclusão do experimento é de que as pessoas deveriam seguir sua força em vez de sua paixão porque nem sempre somos bons naquilo que nos interessa. E porque, segundo esse estudo, desenvolver nossas competências pode se tornar uma atividade apaixonante. Eu acrescentaria um pouco do velho bom senso empreendedor a essa equação do trabalho: o mundo precisa daquilo que eu gosto de fazer? O mundo paga por isso? Como em qualquer relacionamento saudável, o sucesso é mais movido por inteligência, resiliência e harmonia do que pelo fogo efêmero da paixão.

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