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Carol Sandler Por FINANÇAS FEMININAS Carol Sandler é jornalista, fundadora do Finanças Femininas e autora do "Detox das Compras"

A maior arma do machismo – e como neutralizá-la

Mulheres devem buscar a liberdade econômica. Com dinheiro próprio, vem a autonomia e o poder de escolha

Por CAROL SANDLER - 20 jun 2018, 17h05

O machismo tem diversos batalhões e seus milhares de soldados. Mas ao assistir a um vídeo em que uma comissária de bordo russa é alvo de “brincadeiras” de torcedores brasileiros em meio à Copa do Mundo, me dei conta de algo: a maior arma do machismo é o poder econômico.

No vídeo, ela passa por um enorme constrangimento enquanto apres/ enta as instruções de segurança do voo. Os brasileiros gritam, vibram e fazem piadas chulas e –o pior– gravam  a situação toda.

Pense comigo: essas “gracinhas” e “elogios” são tolerados apenas porque o homem, tradicionalmente, está sempre em uma posição de poder com relação à mulher. Ele é o passageiro e ela, a comissária. Ele é o gerente, e ela, a assistente. Ele pode mexer com a mulher que quiser na rua, pois nunca acredita que ela irá revidar.

Existem vários tipos de poder. No entanto, acredito que há verdade no ditado que diz que a parte mais sensível do corpo humano é o bolso.

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O assédio no trabalho, como o que a comissária russa sofreu, é fruto desse machismo que se fortalece com o poder econômico. Afinal, eles são os clientes e o trabalho dela é o de servir. Como lidar?

Lanço então outro ditado muito útil: fogo se combate com fogo. É com o nosso novo e crescente poder econômico que podemos combater o assédio. Digo novo pois temos que considerar que a brasileira teve direito de ter seu CPF e sua própria conta bancária individual apenas no final dos anos 1960, no mesmo momento em que começou a nossa ascendência no mercado de trabalho. Os homens vêm lidando com o dinheiro desde que ele surgiu, milênios atrás. Já para as mulheres, ter uma conta bancária é uma conquista recente.

Com dinheiro próprio, vem a autonomia e o poder de escolha. Mulheres podem, cada vez mais, optar por boicotar empresas e marcas que permitem a propagação do assédio e do machismo. O chefe ou colega te assediou? Com dinheiro guardado, não dá tanto receio assim de reportar o abuso. Saiba, inclusive, que a instabilidade econômica é um dos maiores fatores que dificultam para tantas mulheres o ato de pedir um aumento. O nosso crescimento no mercado de trabalho depende, sim, de conseguirmos guardar dinheiro e conquistarmos, assim, a independência econômica.

Obviamente, isso não acontece da noite para o dia, nem para todas nós ao mesmo tempo. As mulheres ganham menos do que os homens de forma geral, mas as mulheres negras ganham muito menos. A desigualdade tem vários graus. E não podemos fechar o olho para a violência física que tantas mulheres sofrem.

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Mas é justamente por isso que, para combatermos o machismo na nossa sociedade, precisamos neutralizar o poder econômico. Guarde dinheiro, crie seu próprio pé de meia e ajude outras mulheres. Se você vê uma mulher sofrendo algum tipo de abuso, fale algo. Proteste. Faça um escândalo. Uma mulher que sofre de violência doméstica tem mais chances de sair do relacionamento se ela tem dinheiro guardado no banco. Se você está em uma posição de liderança no trabalho, promova suas colegas. Defenda que elas ganhem – com base no merecimento – os devidos aumentos. E entenda que se você sente que ainda não tem voz para tanto, a forma mais efetiva de construir a sua é guardando dinheiro. Com poder econômico, vem o poder também de mudar aquilo que você não concorda.

O próprio caso dos vídeos gravados na Rússia é um exemplo disso. O episódio só ganhou tanto destaque por conta do barulho feito por nós, mulheres. Os autores e responsáveis já começaram a ser identificados e uma jurista russa já fez uma denúncia. Com isso, esse tipo de ato começa a gerar consequências – virando um desincentivo para novos assédios no futuro. Estamos no caminho certo, amigas – é assim que viramos a maré.

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